Conheça a Fazenda São Francisco (Piumhi/MG), que alcança médias acima de 50 litros por vaca!
Com genética refinada, manejo exemplar e energia produzida dentro da porteira, a Fazenda São Francisco, localizada em Piumhi/MG, alcança médias acima de 50 litros por vaca e faz do trabalho em família a base da eficiência
Bem debaixo do nome Fazenda São Francisco, pode-se ler, em letras que parecem traçadas à mão: “Ovídio Vilela e filhos”. A inscrição resume a essência de uma história de persistência e trabalho coletivo; de um lugar onde o leite é resultado de um rebanho de excelência. Ali, o patriarca, Ovídio Soares Vilela, conduz, há mais de meio século, uma jornada que se confunde com a própria vida da família. Uma história de fé na terra, na atividade leiteira e na união que mantém tudo de pé.
A origem de um sonho
“Desde pequeno, eu tinha o desejo de ser fazendeiro”, diz seu Ovídio, com olhos de menino e energia dos começos, aos 83 anos. Trabalhou por 30 anos na Secretaria da Fazenda do Estado de Minas Gerais, enquanto alimentava o sonho de viver do agro.
Em 1973, comprou a Fazenda São Francisco. Na época, havia apenas uma casa, um curral e um campo nativo. “Não tinha tecnologia; era tudo manual. Usávamos enxada, foice, matraca. Comecei tirando leite de três vacas. Dava um litro e meio cada uma. E o leite eu levava na garupa do cavalo para um vizinho, que vendia na cidade”, recorda seu Ovídio. O trabalho cresceu devagar, com as primeiras áreas de milho, o rebanho formado em sociedade e as vacas holandesas que marcariam a história da fazenda.
Em 1987, Antônio de Pádua Soares Vilela, o Toninho, filho mais velho de seu Ovídio, foi o primeiro a se dedicar à fazenda, logo após concluir o ensino médio. Com ele, veio a disposição para profissionalizar o negócio: introduziu a inseminação artificial, o pastejo rotacionado e o manejo mais técnico das vacas de leite. A partir daí, a São Francisco deixou de ser um projeto paralelo para se tornar o centro da vida da família.
Com o tempo, os outros filhos também encontraram seu lugar. Ovídio Júnior assumiu a agricultura; Júlio César, o gado de corte; e Eva Wilma, a gestão financeira, ao lado do pai. A esposa, dona Eva, hoje uma saudosa presença, acompanhou cada mudança, sempre ao seu lado, como ele faz questão de dizer. Hoje, a terceira geração – netos formados em Medicina Veterinária e Agronomia – segue os mesmos passos, consolidando o sonho que se renova a cada manhã de ordenha.

Ovídio Soares Vilela, fundador da Fazenda São Francisco. Aos 83 anos, acompanha de perto o trabalho da família e o sonho realizado com muita determinação
A segunda geração: profissionalização da produção
Quando Toninho voltou para a fazenda, em 1987, o pai ainda trabalhava na cidade. Coube a ele assumir a lida diária e iniciar a modernização. Aos 20 anos, começou a desenhar o que seria a nova fase da São Francisco: um sistema mais organizado, produtivo e tecnicamente orientado. “Naquela época, a fazenda ainda tinha pouca estrutura”, lembra Toninho. “O curral era simples, o pasto era o mesmo para todo o rebanho. Então começamos a colocar método em tudo.
” Em 1989, a fazenda passou a adotar a inseminação artificial, um salto na qualidade genética. “A gente já tinha animais muito bons, mas foi a inseminação que começou a mudar o perfil do rebanho”, Toninho explica.
Em 1990, veio o pastejo rotacionado, uma das primeiras experiências da região com esse tipo de manejo. A fazenda montou 31 piquetes e começou a observar o comportamento das vacas. “Logo percebemos que o rebanho Holandês não se adaptava bem ao calor, ao barro, à chuva”, conta Toninho. “Era preciso pensar diferente.”
O sistema de semiconfinamento foi o passo seguinte. Durante o dia, as vacas recebiam silagem e alimento concentrado nos cochos trenó; à noite, iam para o pastejo rotacionado. Toninho relata que a produção aumentou, mas a variação entre inverno e verão era enorme: “No verão, o barro comprometia o conforto das vacas, aumentava os problemas de casco e criava condições favoráveis à mastite. O que a gente ganhava no inverno, perdia no verão”. Foi aí que veio a decisão de fechar o rebanho e adotar o confinamento. No início, o piso era de terra batida, mas o ganho de produtividade convenceu a família a avançar.

Antônio de Pádua Soares Vilela (Toninho), gestor da Fazenda São Francisco. Construiu, ao lado do pai e dos irmãos, a estrutura que consolidou a fazenda como referência em eficiência e manejo
Em 2010, com a orientação do médico-veterinário Flávio Junqueira, Toninho e a família decidiram investir no primeiro galpão Free Stall. “Foi o divisor de águas”, afirma. “A média subiu dez litros por vaca; e o que antes variava com o clima passou a se manter estável o ano inteiro.”
Com o sucesso do primeiro galpão, veio o segundo em 2020, ampliando o número de animais e consolidando a filosofia do “simples bem-feito”. Hoje, são 400 vacas em lactação – com média de 53 litros por vaca – e uma estrutura capaz de contribuir para o conforto, a eficiência e a sustentabilidade.
O simples bem-feito: nutrição, sanidade e manejo diário
Na São Francisco, eficiência é sinônimo de constância. A rotina se repete com precisão: trato empurrado diversas vezes ao dia, bebedouros lavados toda manhã, ventiladores e aspersores ligados, corredores limpos pelo sistema de flushing e areia renovada a cada 20 dias. Nada é improvisado.
A nutrição é o eixo central. A dieta é formulada com acompanhamento técnico permanente e ajustada conforme estação e estágio de lactação, mantendo a relação média de 50:50 entre alimento volumoso e alimento concentrado. “É uma dieta desafiadora, mas muito bem balanceada”, explica Toninho. “A silagem é retirada de forma correta, os cochos são limpos e o trato é empurrado até a vaca. O importante é garantir que ela tenha sempre alimento fresco e disponível.”

O trabalho é feito em parceria com a Agroceres Multimix, que há mais de uma década acompanha a fazenda na formulação de dietas e no monitoramento de desempenho. “Esse suporte técnico dá segurança. Cada ajuste é feito com base em dados e resultado prático, e isso faz toda diferença”, destaca Toninho.
A sanidade segue o mesmo rigor. Os cascos são avaliados com frequência e casqueados de forma preventiva, garantindo locomoção adequada e conforto nas baias. O controle de mastite é contínuo, com rotina de monitoramento e manejo higiênico durante a ordenha, reduzindo variações e mantendo o rebanho estável. A ventilação e a aspersão de água ajudam a controlar o estresse térmico, preservando o bem-estar das vacas e favorecendo a reprodução e a persistência de lactação.
A infraestrutura acompanha esse padrão. Os dois galpões Free Stall abrigam os lotes em lactação, com camas de areia. A fazenda opera com três ordenhas diárias, em uma estrutura duplo 6, em que os próprios ordenhadores conduzem as vacas, garantem a limpeza dos equipamentos e monitoram o fluxo de leite em tempo real. “O segredo é a simplicidade do sistema. É tecnologia usada para facilitar, não para complicar”, define Toninho.
Esse olhar detalhista é o que sustenta os números da São Francisco. “A gente tem estrutura, genética e tecnologia, mas o que faz diferença é o simples bem-feito”, diz Toninho. “Não adianta buscar novidade se o básico não estiver certo. O segredo está em fazer direito todos os dias.”
“A GENTE TEM ESTRUTURA, GENÉTICA E TECNOLOGIA, MAS O QUE FAZ DIFERENÇA É O SIMPLES BEM-FEITO”

Confira o vídeo que revela o trabalho desenvolvido na Fazenda São Francisco.

Energia que vem de dentro
Na São Francisco, o manejo diário dos dejetos é totalmente mecanizado. Os corredores dos galpões são limpos por um sistema de flushing, que utiliza água de reúso – a mesma que circula pelos biodigestores e retorna aos canais de lavagem. Nada se perde: a água é bombeada de uma lagoa inferior para uma superior e de lá volta por gravidade para o sistema, completando o ciclo.
O biodigestor transforma os dejetos líquidos em biogás, utilizado na geração de energia elétrica. São dois biodigestores em operação, responsáveis por cerca de 70% da demanda energética da fazenda. O restante é suprido por painéis solares instalados sobre as áreas de apoio, garantindo autossuficiência média de 90% da energia consumida ao longo do ano.
Depois da separação do material sólido, o esterco seco é destinado às lavouras e pastagens como fertilizante orgânico, enquanto o efluente líquido retorna aos sistemas de irrigação. A areia das camas é recuperada por decantação e lavada com a própria água de reúso, voltando ao galpão limpa e seca. “O sistema fecha o ciclo com eficiência e economia”, explica Toninho. “A água volta, a areia é reaproveitada, o esterco vira adubo e o biogás vira energia. O que sai de uma ponta retorna em forma de sustentabilidade.”



A terceira geração: pertencimento e evolução
A nova fase da São Francisco já tem propósito definido. Kássio Rezende Santos Vilela, médico-veterinário, filho de Toninho, representante da terceira geração da família, assumiu a reprodução e o manejo geral do rebanho com o mesmo entusiasmo que o avô teve no início e o mesmo rigor técnico que o pai imprimiu na modernização da fazenda.
Na rotina, Kássio acompanha de perto a nutrição, a sanidade e o desempenho produtivo de cada lote. É dele a responsabilidade de avaliar o comportamento das vacas, ajustar a dieta em parceria com a equipe técnica e planejar a reposição de rebanho com base nos índices reprodutivos. “É uma responsabilidade grande continuar representando o nome da fazenda e da família”, afirma Kássio. “Dá orgulho demais ver a história que começou com meu avô e pensar no que ainda está por vir.”
Entre os projetos que ele conduz, em sintonia com o pai e o avô, estão o bezerreiro – que terá baias individuais e coletivas, com ventilação e drenagem adequadas – e um novo galpão Free Stall, projetado para ampliar o número de vacas e garantir maior conforto térmico. Também está em implantação uma sala de ordenha duplo 20-40, de saída rápida, que substituirá a atual.
“São investimentos que vão permitir alcançar médias ainda maiores e ampliar o rebanho. A meta é chegar a 700 vacas em lactação, com produtividade e bem-estar no mesmo nível que temos hoje”, informa Kássio.

Três gerações, o mesmo sonho
Na São Francisco, o tempo se mede em trabalho. Cada geração encontrou o seu jeito de fazer, mas a essência permanece: foco, disciplina e continuidade.
Kássio fala do que vem adiante: “A gente quer crescer com estrutura e manter o que foi construído. É uma responsabilidade grande continuar essa história”.
Toninho fala do que já ficou marcado: “Tudo foi feito com método e persistência. O segredo é fazer bem-feito, todos os dias”.
E seu Ovídio, com a serenidade de quem viu tudo nascer, fecha a conversa: “Eu sempre quis ser fazendeiro. Trabalhei, lutei e, até hoje, faço o que amo. Ver meus filhos e netos dando continuidade é o maior orgulho da minha vida. É o sonho que se cumpriu”.
Autor
Adriana Vieira Ferreira
EDITORA EXECUTIVA
Economista, DSc. em Economia Rural

Enviar comentário