Da dieta do rebanho ao tratamento de dejetos, pequenas mudanças somam uma pegada de carbono bem menor.
A pegada de carbono (PC) do leite é a medida da intensidade de emissões dos gases de efeito estufa (GEE) de um produto, e é expressa em equivalentes de dióxido de carbono (CO 2 eq) por unidade do produto (kg de leite padronizado para 4,0% de gordura e 3,3% de proteína - FPCM).
Geralmente, a PC do leite é apresentada considerando os principais contribuintes: as emissões de metano (CH 4 ) entérico, as emissões relacionadas à produção de alimentos dentro e fora da fazenda, as emissões relacionadas ao manejo de dejetos e as emissões associadas à produção da energia gasta no processo produtivo (Figura 1).

Figura 1. Exemplo de apresentação gráfi ca da pegada de carbono do leite com participação relativa dos principais contribuintes
O Brasil está entre os 10 maiores emissores de GEE do mundo, contribuindo com cerca de 4% das emissões globais. Diferentemente de todos os demais principais emissores de GEE, o Brasil é o único país que apresenta o setor agrícola como o setor que mais contribui para as emissões nacionais. Esse contexto destaca a necessidade de controlar as emissões de GEE na agropecuária brasileira para que o país cumpra os compromissos climáticos que assumiu internacionalmente - Nationally Determined Contributions (NDCs), as metas climáticas que cada país assume perante a ONU. Apesar de representar cerca de apenas 3% das emissões nacionais de GEE, o setor de laticínios concentra aproximadamente 80% dessas emissões dentro da fazenda. Ao mesmo tempo, a produção de leite é altamente impactada pelas mudanças climáticas, o que torna urgente a adoção de medidas de mitigação e adaptação dos sistemas de produção de leite para garantir sua competitividade e sustentabilidade.
A maioria das estratégias eficazes para reduzir a pegada de carbono do leite está diretamente associada ao aumento da eficiência produtiva. Isso significa otimizar o uso de insumos, evitar desperdícios e, ao mesmo tempo, elevar a rentabilidade do sistema de produção.
Medir para priorizar
O primeiro passo para priorizar as estratégias para redução da PC do leite é conhecer o valor dessa pegada e a participação relativa de cada um dos principais contribuintes. Há inúmeras ferramentas disponíveis para cálculo da PC do leite e há uma metodologia de referência para o setor de laticínios mundial, que é a Avaliação do Ciclo de Vida (ACV). Independentemente da ferramenta adotada para o cálculo, o mais importante é a qualidade dos dados coletados para os cálculos das emissões dos sistemas de produção. Nesse caso, há necessidade de dados médios de 12 meses para todos os dados de entradas (insumos utilizados na produção) e saídas (leite e coprodutos) dos sistemas. A dificuldade da precisão da informação pelo produtor reduz a acurácia da estimativa de PC do leite.
Para superar essa dificuldade, empresas de laticínios
estão discutindo a possibilidade de implementação de
bonificações ao produtor que registrar mensalmente
os dados necessários ao cálculo da PC do leite. Além disso, deve-se considerar que praticamente todos os dados necessários para esse cálculo também são fundamentais para a gestão da atividade.

Conhecer o valor da pegada de carbono é o primeiro passo para saber onde agir - e os mesmos dados também contribuem para a gestão da fazenda
Dessa forma, a coleta sistemática dessas informações contribui diretamente para aprimorar a tomada de decisões gerenciais na fazenda.
Uma vez que a PC foi estimada acuradamente, a participação relativa das fontes contribuintes indica as prioridades para alterações dos sistemas focando a redução das emissões. De modo geral, não existem grandes inovações tecnológicas necessárias para reduzir a intensidade das emissões de GEE nos sistemas de produção de leite. Assim, a adoção de práticas produtivas orientadas por critérios técnicos já consolidados permanece como a estratégia mais eficaz para alcançar uma produção com baixa emissão de carbono.
O foco no metano entérico
Considerando que a redução das emissões de metano entérico é que deve ser priorizada para se obter reduções mais significativas da PC do leite, a composição do rebanho torna-se o primeiro aspecto a ser observado, buscando aumentar a proporção de vacas em lactação. Para isso, geralmente há oportunidades de ajustes na saúde, reprodução e nutrição dos animais, reduzindo a idade ao primeiro parto e o intervalo dos partos e acelerando o descarte de animais improdutivos.
Ainda no contexto das emissões entéricas, a melhoria da qualidade da dieta, empregando práticas já consolidadas entre os produtores, constitui a estratégia essencial.
Entre as principais medidas destacam-se o manejo adequado das pastagens, a adoção de boas práticas na produção e utilização de forragens conservadas, o uso de ingredientes de alta digestibilidade e, sobretudo, o ajuste rigoroso da quantidade e composição das dietas para atender às exigências nutricionais dos diferentes lotes, prevenindo tanto desperdícios quanto deficiências.
A emissão de metano entérico está diretamente ligada ao processo de digestão dos alimentos pelos ruminantes e é proporcional à quantidade ingerida de matéria seca fermentável no rúmen. Por isso, o principal indicador para avaliar e qualificar essas emissões nos programas de leite de baixo carbono é a eficiência alimentar do rebanho, ou seja, a quantidade de leite produzida por unidade de alimento consumido pelo rebanho.
O aumento da produtividade animal constitui uma estratégia relevante para reduzir a intensidade das emissões de metano entérico, uma vez que vacas mais produtivas têm suas emissões totais diluídas em maior volume de leite, resultando em menor emissão por quilograma de leite produzido.
Vale destacar que existem aditivos alimentares específicos, já autorizados
para uso no Brasil, voltados à mitigação das emissões de metano entérico. Embora esses aditivos impliquem custos adicionais e, em geral, não estejam diretamente relacionados à eficiência produtiva do sistema, sua adoção pode ser economicamente justificada quando vinculada a programas de leite de baixo carbono que oferecem bonificações no preço pago ao produtor.
Condições que asseguram o bem-estar dos animais, incluindo saúde adequada e redução de estresse, também são fundamentais para otimizar a produtividade e diminuir a intensidade das emissões de metano entérico nos sistemas de produção de leite. Nesse contexto, destacam-se as estratégias de mitigação do estresse térmico, capazes de favorecer o consumo de alimentos, a ruminação e a estabilidade ruminal, ampliando o aproveitamento dos nutrientes ingeridos e reduzindo a incidência de distúrbios metabólicos.
Quando o objetivo é a redução das emissões associadas à alimentação do rebanho, o uso de alimentos de qualidade superior também faz sentido sob o aspecto da eficiência alimentar, uma vez que reduz a quantidade necessária de alimento para manutenção de uma determinada produção. Além disso, o uso de alimentos volumosos de melhor valor nutritivo, pastagens bem manejadas e silagens bem produzidas, por exemplo, reduzem a necessidade de suplementação com alimentos concentrados, que geralmente são insumos externos que têm associadas às emissões da produção, do processamento e do transporte.
Para os alimentos produzidos na fazenda, devem ser priorizadas práticas conservacionistas de adubação e manejo do solo, como o uso racional de fertilizantes, a adubação orgânica, a cobertura permanente do solo, o plantio consorciado, a rotação de culturas e os sistemas de integração. Essas estratégias reduzem perdas e aumentam a ciclagem de nutrientes, favorecem a retenção de água, diminuem a pressão de pragas e plantas invasoras e reduzem a necessidade de fertilizantes químicos e defensivos. A adoção de tais práticas contribui para elevar a produtividade vegetal e, ao mesmo tempo, reduzir a dependência de fontes de energia e de insumos externos para a dieta para alcançar os níveis desejados de produção.
No caso dos alimentos concentrados produzidos fora da fazenda, reduções nas emissões podem ser alcançadas por meio da aquisição de insumos certificados como livres de desmatamento ou que assegurem a rastreabilidade da origem em áreas abertas há mais de 20 anos. Outra
estratégia relevante é a incorporação de coprodutos disponíveis localmente
e de qualidade compatível com os alimentos que substituem na dieta. Em
geral, esses co-produtos apresentam uma pegada de carbono menor em
comparação ao produto principal.

O ajuste da dieta, evitando tanto desperdício quanto deficiência nutricional, é uma das estratégias mais consolidadas contra as emissões entéricas
Dejetos, energia e investimento
O manejo e o tratamento de dejetos incluem diferentes práticas que podem transformar passivos ambientais em ativos produtivos, reduzindo as emissões de GEE e promovendo a circularidade de nutrientes. Entre as opções tecnológicas,
os biodigestores consolidam-se como o tratamento mais eficiente para mitigação,
uma vez que utilizam o metano gerado para a produção de energia renovável
(biogás), evitando sua liberação na atmosfera, e produzem um biofertilizante rico
em nutrientes prontamente disponíveis. Para o manejo de resíduos sólidos, a compostagem (especialmente com aeração forçada) destaca-se por promover a estabilização aeróbia do material, o que reduz a produção de metano e transforma o esterco em um adubo estável. Estratégias como a estocagem do esterco seco em pilhas apresentam resultados intermediários, sendo vulneráveis à formação de zonas anaeróbias internas, enquanto a adoção de tecnologias complementares, como a separação sólido-líquido e a injeção dos dejetos no solo, permite reduzir a volatilização de amônia. Por fim, as lagoas anaeróbias descobertas são as menos recomendadas sob a ótica da redução de emissões, pois operam em condições estritamente anaeróbias que resultam em elevadas emissões de metano, especialmente em regiões tropicais onde as altas temperaturas potencializam a decomposição da matéria orgânica.

Silagens bem produzidas reduzem a necessidade de suplementação com alimentos concentrados - uma das formas mais simples de reduzir a pegada de carbono do leite
Considerando as características da matriz energética brasileira, a adoção de sistemas de geração de energia a partir de fontes renováveis em propriedades leiteiras apresenta impacto limitado na redução da PC do leite. Entretanto, algumas estratégias de mitigação dessa pegada, como o uso de sistemas de resfriamento de vacas, tendem a elevar o consumo de energia elétrica. Nesse contexto, a integração de tecnologias de geração distribuída, especialmente o aproveitamento do biogás oriundo do tratamento de dejetos e a energia fotovoltaica, contribui para a redução dos custos operacionais da atividade e, de forma complementar, para a diminuição da PC do leite.
A implementação de grande parte das estratégias voltadas à redução da PC do leite implica custos adicionais, mas, em geral, os investimentos tendem a ser compensados pelo aumento da eficiência do sistema produtivo. Estudos internacionais indicam que, em fazendas com PC relativamente elevada, os investimentos prioritários para mitigação são rapidamente amortizados e contribuem significativamente para a rentabilidade da atividade. Em propriedades com valores intermediários de PC, o retorno econômico tende a se equilibrar com os custos, resultando em neutralidade financeira. Já nas fazendas que apresentam PC relativamente baixa, caracterizadas por maior eficiência produtiva, novos investimentos em redução da pegada tendem a elevar o custo de produção, sendo justificáveis apenas em cenários de bonificação no preço do leite.

Biodigestores estão entre as tecnologias mais eficientes para reduzir emissões no tratamento de dejetos, além de gerar energia renovável para a propriedade
Reduzir a pegada de carbono do leite não é apenas uma resposta às pressões climáticas externas; é, sobretudo, uma oportunidade de tornar a propriedade mais eficiente, lucrativa e preparada para o futuro.
No entanto, limitar o olhar da sustentabilidade exclusivamente às emissões de GEE não é sufi ciente. A produção de leite genuinamente sustentável exige uma visão integrada, que considere impactos no solo, na água e no uso da terra com o mesmo rigor dedicado aos GEE.
A avaliação integrada de impactos revela, assim, o que a visão fragmentada esconde: sustentabilidade é sinônimo de eficiência sistêmica. Por fim, aprofundar a sustentabilidade da produção leiteira significa incorporar metas simultâneas de redução de impactos ambientais e aumento da eficiência produtiva. A informação acurada, aquela que vem do registro consistente dos dados da propriedade, é a bússola desse processo. Sem ela, não há diagnóstico confiável, tampouco a priorização correta de investimentos, nem credibilidade nos resultados alcançados. Com ela, o produtor de leite deixa de ser parte do problema para tornar-se protagonista da solução, construindo uma pecuária que produz melhor, desperdiça menos e respeita os limites do planeta.
Autor
EMBRAPA GADO DE LEITE
Enviar comentário