Produção com rusticidade é o segredo do sucesso da raça Girolando
Produção com rusticidade é o segredo do sucesso da raça Girolando
Muitas pessoas apaixonadas pela raça Girolando e pelo negócio do leite são responsáveis pela expressividade dos índices que a raça ostenta hoje – tanto zootécnicos quanto econômico-financeiros.
Entre essas pessoas, destaca-se Celso Menezes, zootecnista e superintendente executivo da Associação Brasileira dos Criadores de Girolando (Girolando).
Por sua formação, dedicação e paixão, Celso se transforma – nesta edição especial da Revista Leite Integral – no porta-voz de milhares de produtores que ajudaram a construir o sucesso do Girolando, elevando a raça às páginas da revista com a força de quem vive a pecuária leiteira com conhecimento e sentimento.
Em entrevista exclusiva, Celso compartilhou a trajetória da raça e a sua visão para o futuro, no momento em que o Girolando se consolida como a espinha dorsal da produção leiteira nacional e avança para novos mercados.
Raça genuinamente brasileira, o Girolando reúne produtividade, rusticidade e eficiência reprodutiva. Atualmente, segundo a Embrapa, cerca de 80% do leite produzido no Brasil vem de animais Girolando – um feito construído com ciência, trabalho coletivo e visão de futuro.
Uma história que nasceu do acaso
O nascimento da raça Girolando é uma história em que acaso e ciência se encontram. Há registros que remontam à década de 1940, no Vale do Paraíba/SP, quando cruzamentos espontâneos entre vacas Holandês e touros Gir começaram a chamar a atenção dos criadores.
Assim como aconteceu com outras raças no mundo, um “acidente genético” deu início a uma linhagem que reuniu o melhor dos dois mundos: a rusticidade, a fertilidade e a adaptabilidade do Gir combinadas à produtividade leiteira do Holandês. A partir desses primeiros cruzamentos, produtores da região perceberam o potencial desses animais e passaram a replicá-los de forma empírica, criando as bases de um novo tipo de rebanho leiteiro brasileiro.
O movimento espontâneo foi, com o tempo, abraçado pela ciência. Na década de 1980, a Associação dos Criadores de Gado de Leite do Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba (Assoleite), antecessora da atual Girolando, já reunia criadores que participavam do Programa de Cruzamento Dirigido (ProCruza) – iniciativa do Ministério da Agricultura para mapear os principais cruzamentos utilizados no país.
Em 1988, ao avaliar os dados de dez anos do ProCruza, o Ministério constatou que cerca de 80% dos cruzamentos registrados envolviam Gir e Holandês. O impacto social e econômico dessa combinação foi tão evidente que surgiu a proposta de consolidá-la oficialmente.
Com a expertise acumulada, a Assoleite elaborou o primeiro regulamento de formação da raça, estabelecendo o padrão racial e o esquema de cruzamentos. Em 1989, nasceu oficialmente o Programa de Formação da Raça Girolando. “Era um sonho que parecia ousado na época, mas que se materializou graças ao empenho de produtores visionários e técnicos comprometidos”, relembra Celso Menezes.
A partir dessa base técnica e institucional, a Assoleite, em 1996, passou a se chamar Associação Brasileira dos Criadores de Girolando, entidade que assumiu o papel de zelar pelo registro genealógico, fomentar o melhoramento genético e representar a raça em âmbito nacional e internacional.

Zootecnista apaixonado pelo leite e pela raça Girolando, Celso Menezes, superintendente executivo da Associação Brasileira dos Criadores de Girolando (Girolando), atua com dedicação técnica e compromisso com os produtores e o desenvolvimento da raça
A consolidação da raça também passou pela definição dos diferentes graus de sangue, cada um com características específicas para atender aos distintos perfis produtivos.
O Girolando é composto por animais com proporções variadas de genética Gir e Holandês, formados segundo esquemas orientados de cruzamento:
• Meio-sangue (½ Holandês + ½ Gir) - Animais com alta rusticidade e boa produção;
• Três quartos (¾ Holandês + ¼ Gir) - Animais com maior produção leiteira, preservando a resistência;
• Cinco oitavos (5/8 Holandês + 3/8 Gir) - Equilíbrio ideal entre rusticidade e produtividade, base do Puro Sintético (PS);
• Puro Sintético (PS) - Resultante do acasalamento entre dois indivíduos 5/8; representa o ápice da seleção da raça Girolando.
Esse esquema genético garante flexibilidade aos sistemas de produção e permite que o Girolando se adapte a diferentes realidades produtivas do Brasil e do mundo tropical.
Se liga! O Girolando Puro Sintético (PS) é o animal com composição genética idealizada para equilibrar rusticidade e produtividade: 5/8 Holandês + 3/8 Gir. Essa categoria resulta do acasalamento entre dois indivíduos 5/8 e é reconhecida oficialmente como a verdadeira representação da raça Girolando

Estratégia de cruzamento da raça Girolando - Fonte: Associação Brasileira dos Criadores de Girolando
Uma raça moldada para os trópicos
A adaptabilidade ao calor e às condições tropicais é um dos grandes diferenciais do Girolando. As características anatômicas e fisiológicas – como pelagem pigmentada, aprumos firmes, tetas bem-posicionadas e grande capacidade termorreguladora – fazem da raça uma escolha segura para as mais variadas regiões do Brasil.
Esses atributos, aliados à eficiência reprodutiva – com idade média ao primeiro parto de 33 meses e longevidade produtiva que ultrapassa 15 anos –, tornam o Girolando uma boa escolha para alavancar a produção de leite em qualquer região do Brasil.
A versatilidade da raça vai além do sistema extensivo de produção. Em propriedades empresariais de alta produtividade, rebanhos Girolando confinados alcançam médias superiores a 40 kg de leite por vaca/dia. “A raça consegue atender desde o pequeno produtor, que trabalha a pasto, até grandes projetos empresariais de leite, com tecnologia e alta performance”, destaca Celso.
Salto na produção
O salto produtivo do Girolando nos últimos anos é a tradução direta do trabalho que integra ciência, tecnologia e gestão estratégica. De 2000 a 2024, a produção média das vacas Girolando controladas oficialmente saltou de 3.695 kg para 7.500 kg em 305 dias de lactação – crescimento impressionante de 103%. Esse avanço reflete o sucesso de um programa contínuo de melhoramento genético, aprimoramento zootécnico e incorporação de tecnologias de ponta.
De 2015 a 2024, a raça contabilizou quase 1 milhão de registros a mais no Serviço de Registro Genealógico (SRG), evidenciando sua força e sua expansão sustentável. Em 2024, a Associação Brasileira dos Criadores de Girolando realizou 2.277 atendimentos a criadores em todo o país, assegurando suporte técnico, controle leiteiro, inspeções e orientação para a seleção genética.
O crescimento sustentado também é comprovado pelos números históricos de registros: 108.404 novos registros em 2024, o maior volume da história da raça.
Para atender à crescente demanda, a raça investe intensamente em tecnologia. Dois pilares sustentam essa nova fase do melhoramento genético: a fertilização in vitro (FIV) e a genômica. “O uso da genômica nos permite identificar, já no DNA dos animais, os marcadores genéticos associados à produção de gordura, à saúde, à capacidade produtiva e à resistência. Essa precisão acelera os ganhos genéticos e eleva o padrão da raça ano após ano”, explica Celso.
Dentro do Programa de Melhoramento Genético da Raça Girolando (PMGG), a aplicação da genômica vem potencializando a seleção de touros 3/4, 5/8 e PS, valorizando ainda mais o rebanho nacional.
O trabalho de seleção criteriosa não se limita às porteiras das fazendas. Cada vez mais, a associação assume papel ativo também no campo político e institucional, defendendo os interesses dos produtores de leite e buscando consolidar políticas públicas de estímulo à atividade.

A ADAPTABILIDADE AO CALOR E ÀS CONDIÇÕES TROPICAIS É UM DOS GRANDES DIFERENCIAIS DO GIROLANDO. AS CARACTERÍSTICAS ANATÔMICAS E FISIOLÓGICAS – COMO PELAGEM PIGMENTADA, APRUMOS FIRMES, TETAS BEM-POSICIONADAS E GRANDE CAPACIDADE TERMORREGULADORA – FAZEM DA RAÇA UMA ESCOLHA SEGURA PARA AS MAIS VARIADAS REGIÕES DO BRASIL
Se liga! O 3º Congresso Internacional da Raça Girolando será realizado entre os dias 12 e 14 de novembro deste ano, no Center Convention, em Uberlândia/MG. O evento reunirá geneticistas e pesquisadores de vários países para debater as tendências mundiais da pecuária leiteira e trazer ao Brasil as tecnologias mais avançadas. Clique aqui e saiba mais!

Futuro de protagonismo global
O Girolando, raça genuinamente brasileira, após consolidar sua hegemonia no cenário nacional, começa a conquistar espaço em outros países tropicais, interessados em um modelo de produção leiteira eficiente, adaptado, de menor custo e alta performance.
Exportações de material genético e de animais vivos já são realidade em diversas regiões da América Latina, da África e da Ásia.
Em 2024, a raça alcançou marcos históricos nesse movimento de internacionalização. Além do crescimento nas exportações de sêmen, um dos destaques foi a exportação de 2 mil novilhas meio-sangue Girolando para a Venezuela.
“O mundo tropical começa a olhar para o Girolando como a solução definitiva para produzir leite em climas quentes, com eficiência e sustentabilidade”, afirma Celso.
Programas de exportação também já envolvem países como Costa Rica, Colômbia, Argentina, El Salvador, Bolívia, Equador e Guatemala, consolidando o Girolando como ativo estratégico da pecuária tropical moderna.
O crescimento da raça reflete um projeto construído com método, ciência e a dedicação de gerações de produtores e técnicos que transformaram a necessidade de adaptação tropical em um exemplo de eficiência zootécnica.
Agora, o Girolando se prepara para novos desafios: expandir suas fronteiras, inovar em genética e consolidar sua posição como referência mundial na produção de leite sob condições tropicais. E o futuro da raça, pelas evidências, não é apenas promissor – é inevitável.
Se liga! Animais oriundos de FIV, selecionados com rigor técnico, foram embarcados para impulsionar a pecuária leiteira venezuelana. As novilhas foram geradas a partir das melhores doadoras Gir leiteiras e dos principais touros Holandês do mundo – projeto que promete dobrar o impacto genético nas próximas gerações. Clique aqui e assista ao vídeo!
“O MUNDO TROPICAL COMEÇA A OLHAR PARA O GIROLANDO COMO A SOLUÇÃO DEFINITIVA PARA PRODUZIR LEITE EM CLIMAS QUENTES, COM EFICIÊNCIA E SUSTENTABILIDADE”

Autor
Adriana Vieira Ferreira
EDITORA EXECUTIVA
Economista, DSc. em Economia Rural
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