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Genética

O grande encontro: conheça a trajetória da raça sintética brasileira Girolando

O grande encontro: conheça a trajetória da raça sintética brasileira Girolando

Ao longo das últimas décadas, a pecuária leiteira brasileira passou por intensas transformações, impulsionadas pela tecnificação dos sistemas de produção, avanços no melhoramento genético e crescente demanda por maior produtividade. Nesse contexto, a discussão sobre a produção leiteira passou a envolver não apenas o volume produzido, mas também aspectos relacionados à eficiência produtiva, sustentabilidade e adaptação dos animais às diferentes condições ambientais e de manejo presentes no Brasil.

Foi nesse cenário que o Girolando se consolidou como uma das raças mais importantes para a pecuária leiteira nacional. Sua origem remonta à década de 1940, a partir do cruzamento entre o Gir, raça zebuína reconhecida pela rusticidade e adaptação ao clima tropical, e o Holandês, raça taurina de elevado potencial leiteiro. A proposta era reunir, em um mesmo animal, características produtivas e adaptativas capazes de atender às exigências dos sistemas tropicais e subtropicais de produção.

Do Gir, o Girolando herdou rusticidade, resistência, fertilidade, adaptação ao calor e maior tolerância ao estresse térmico. Do Holandês, incorporou o alto potencial para produção de leite e os avanços genéticos associados ao desempenho produtivo. Essa combinação permitiu que a raça ganhasse espaço em diferentes modelos de produção, especialmente nos sistemas a pasto, nos quais a produtividade precisa caminhar junto com eficiência reprodutiva, longevidade e capacidade de adaptação.

Em 1989, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento oficializou as normas para a formação da raça Girolando, estabelecendo critérios para os diferentes grupamentos genéticos. Atualmente, a composição racial pode variar de ¼ Holandês + ¾ Gir até ⅞ Holandês + ⅛ Gir. A composição ⅝ Holandês + ⅜ Gir, no entanto, foi definida como o padrão racial, sendo os animais classificados como Puro Sintético e reconhecidos como representantes da raça Girolando propriamente dita.

Dessa forma, o Girolando ocupa posição estratégica na pecuária leiteira brasileira, destacando-se pela capacidade de transformar potencial genético em produtividade eficiente dentro das condições reais de produção do país. Assim, a raça permanece fundamental tanto para a sustentabilidade atual quanto para o desenvolvimento futuro da atividade leiteira no Brasil.


Principais características: a harmonia entre produção e rusticidade

Uma das características mais marcantes do Girolando é a rusticidade, atributo que explica, em grande parte, sua ampla expansão pelo Brasil. A raça se adapta a diferentes sistemas de produção e responde bem às variações climáticas encontradas no país, especialmente em regiões de temperaturas elevadas e diferentes níveis de umidade.

Essa capacidade está associada à eficiente termorregulação corporal, que favorece o conforto térmico e contribui para a manutenção do desempenho produtivo mesmo em ambientes desafiadores. Soma-se a isso o hábito de pastejo eficiente, a capacidade ruminal adequada e a conformação muscular compatível com sistemas que exigem resistência, mobilidade e eficiência ao longo do ano.

Por essa versatilidade, o Girolando apresenta bom desempenho tanto em sistemas intensivos quanto em modelos de produção a pasto. Nas fêmeas, destacam-se características morfológicas importantes para a produção de leite nos trópicos, como boa conformação e sustentação de úbere, tamanho adequado dos tetos, pigmentação, aprumos corretos e pés resistentes.

A raça Girolando ganhou espaço na pecuária leiteira brasileira pela capacidade de produzir em diferentes sistemas, mantendo adaptação, funcionalidade e resistência às condições de clima e manejo do país.

Uma das características mais marcantes do Girolando é a rusticidade, atributo que explica, em grande parte, sua ampla expansão pelo Brasil. A raça se adapta a diferentes sistemas de produção e responde bem às variações climáticas encontradas no país, especialmente em regiões de temperaturas elevadas e diferentes níveis de umidade

Girolando e a nova era da produção de leite

Nas últimas décadas, o melhoramento genético teve papel decisivo no avanço produtivo da raça Girolando. Considerando a produção acumulada em 274 dias de lactação, com registros que, em alguns casos, podem chegar a 305 dias, a média passou de 4.761 kg, em 2010, para 6.133 kg, em 2023. O crescimento representa aumento aproximado de 29% em pouco mais de uma década (Gráfico 1).

Os números evidenciam a evolução produtiva da raça e reforçam sua consolidação como uma das principais opções para sistemas leiteiros tropicais. Além do ganho em volume de leite, o avanço genético também favoreceu maior uniformidade dos animais, eficiência produtiva e estabilidade dos rebanhos ao longo das lactações.

Os avanços obtidos pela raça também podem ser observados em animais de destaque dentro do programa de melhoramento genético. A vaca Promessa Barbante BAC, por exemplo, ultrapassou a marca de 100 mil quilos de leite produzidos ao longo de oito lactações.


Segundo os dados da Associação Brasileira dos Criadores de Girolando, a fêmea acumulou 100.618,87 kg de leite em 2.592 dias de lactação, tornando-se uma das poucas vacas da raça a atingir esse marco produtivo. Esses resultados refletem o impacto dos programas de seleção genética desenvolvidos ao longo das últimas décadas.


Eficiência reprodutiva e longevidade

As matrizes Girolando reúnem características reprodutivas que as tornam especialmente adaptadas aos sistemas de produção tropical. Destacam-se pela eficiência reprodutiva, pela conformação anatômica adequada do aparelho reprodutivo e por menores índices de problemas ao parto e de retenção de placenta, quando comparadas a algumas raças puras. Tanto novilhas quanto vacas demonstram boa adaptação às condições de manejo dos sistemas tropicais, o que contribui para a regularidade reprodutiva dos rebanhos.

A idade média ao primeiro parto é de aproximadamente 33 meses, podendo variar de acordo com o manejo, a genética e as condições nutricionais do rebanho.

Além da elevada produção, a raça também se destaca pela longevidade produtiva, característica de grande importância para os sistemas leiteiros. Em bovinos leiteiros, a seleção intensa para características produtivas pode resultar em impactos negativos sobre a reprodução e, consequentemente, sobre a longevidade.

No caso do Girolando, estudos com matrizes da raça indicam uma correlação favorável entre o aumento da produção de leite durante a lactação e a redução da idade ao primeiro parto das novilhas. Esse resultado abre novas perspectivas para a seleção genética, ao apontar caminhos para avançar simultaneamente em produtividade, eficiência reprodutiva e longevidade.


O avanço produtivo do Girolando reflete décadas de seleção, controle leiteiro e melhoramento genético, com ganhos consistentes na produção por lactação.


Rusticidade e resistência ao calor

A rusticidade do Girolando também se expressa na capacidade de adaptação ao calor, característica decisiva para sistemas leiteiros em regiões tropicais. No Sumário de Touros Girolando 2022, foi realizada uma avaliação genética da tolerância ao estresse térmico por calor, com base em dados do Controle Leiteiro Oficial coletados entre 2000 e 2020. A análise incluiu mais de 650 mil controles leiteiros e cerca de 69 mil vacas.

O estudo associou os dados produtivos ao Índice de Temperatura e Umidade (ITU) e demonstrou que temperatura e umidade interferem diretamente na produção de leite. A partir desses resultados, foi possível estimar os limites de conforto térmico dos diferentes grupamentos raciais. Animais 7/8 Holandês apresentaram limite de conforto em ITU 77; os 3/4 Holandês, em ITU 78; enquanto os grupamentos 1/4, 1/2 e 5/8 Holandês demonstraram maior tolerância ao calor, com limite em ITU 80. O Gráfico 2 ilustra os limites de conforto térmico das diferentes composições raciais e relaciona os valores de ITU com temperatura ambiente e umidade relativa do ar.



Os grupamentos 1/4, 1/2 e 5/8 Holandês apresentaram maior adaptação ao calor, atributo especialmente relevante para sistemas tropicais e de produção a pasto. O estresse térmico pode provocar perdas superiores a 1.000 kg de leite por lactação e, em situações mais severas, ultrapassar 2.000 kg, com redução de até 34% na produção, sobretudo em animais de maior potencial produtivo.

A avaliação genômica permitiu classificar os touros conforme a tolerância ao estresse térmico em sensível +, sensível e robustos, de acordo com o desempenho produtivo das filhas em diferentes condições de temperatura e umidade. Essa ferramenta contribui para a seleção de genótipos mais adaptados ao clima, auxiliando o produtor na escolha de reprodutores compatíveis com o ambiente em que o rebanho será conduzido. Touros classificados como mais robustos tendem a ser indicados para regiões com maior variação climática, enquanto a seleção de animais mais tolerantes ao calor ganha importância especial em ambientes quentes e úmidos.


Avanço genético e avaliação genômica: o futuro do Girolando

O Programa de Melhoramento Genético do Girolando (PMGG) teve papel decisivo no avanço dos indicadores zootécnicos da raça. Iniciado em 1997, o teste de progênie permitiu ampliar a disseminação da genética Girolando no Brasil com base em avaliações apoiadas em valores genéticos confiáveis. Com isso, a seleção passou a contar com informações capazes de orientar, de forma mais precisa, a escolha de touros e matrizes superiores.

A partir de 2016, a inclusão das informações genômicas representou um novo salto para o programa.

A genômica aumentou a eficiência da seleção ao permitir a identificação de indivíduos geneticamente superiores ainda jovens, reduzindo o intervalo entre gerações e acelerando o progresso genético da raça.

Esse avanço, no entanto, não se restringe ao aumento do volume de leite. A seleção do Girolando também passou a considerar características ligadas aos teores de sólidos, fundamentais para o rendimento industrial dos laticínios, além de atributos associados à eficiência alimentar, com foco em animais capazes de produzir mais com melhor aproveitamento dos recursos disponíveis.

As perspectivas para a raça acompanham esse movimento. A consolidação da seleção genômica, as pesquisas sobre genes associados à produção de leite, eficiência alimentar, adaptação ao calor e sustentabilidade tendem a ampliar a competitividade do Girolando em sistemas leiteiros cada vez mais exigentes. O avanço do monitoramento animal por sensores, da gestão de precisão e das ferramentas de análise de dados também deve contribuir para decisões mais rápidas dentro das fazendas.

O futuro do Girolando será marcado pela capacidade de preservar aquilo que fez a raça ganhar espaço no Brasil: rusticidade, adaptação e funcionalidade, enquanto avança em produtividade, qualidade do leite, eficiência e sustentabilidade. A força da raça estará justamente nesse equilíbrio: produzir mais, com animais mais adaptados, em sistemas cada vez mais orientados por informação.


Conclusão

Diante dos desafios da pecuária leiteira brasileira, características como adaptação, eficiência produtiva, longevidade e tolerância ao calor ganharam peso nas decisões de seleção e manejo. Em um país marcado por grande diversidade climática e produtiva, o Girolando se afirma justamente pela capacidade de responder a essas condições sem perder desempenho.

A raça reúne atributos que dialogam com a realidade dos sistemas leiteiros tropicais: produção robusta, rusticidade, fertilidade, vida produtiva mais longa e maior resistência ao estresse térmico. Ao mesmo tempo, os avanços obtidos pelo melhoramento genético, pela seleção genômica e pelo uso crescente de dados ampliam as possibilidades de ganho em produtividade, qualidade do leite e eficiência.

O futuro do Girolando dependerá da capacidade de manter sua base adaptativa enquanto avança em critérios cada vez mais exigentes de produção, sustentabilidade e competitividade. Nesse equilíbrio entre genética, ambiente e gestão, a raça segue como uma das principais respostas brasileiras para a produção de leite em condições tropicais.


Com base adaptativa forte e seleção cada vez mais precisa, o Girolando segue como uma das principais respostas brasileiras para produzir leite em condições tropicais.



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