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Genética, Notícias

No topo: a raça holandesa se consolidou como o motor da produção de leite no Brasil

Alta produção, sólidos de qualidade e uma das genéticas mais avançadas do rebanho leiteiro mundial.

No topo: a raça holandesa se consolidou como o motor da produção de leite no Brasil

Nas fazendas de leite mais produtivas do Brasil, médias de 45 kg de leite por vaca ao dia (mesma meta perseguida pelos melhores rebanhos dos Estados Unidos) deixaram de ser exceção; e há relatos de propriedades que chegam a 60 kg. Por trás de quase todos esses resultados estão os animais da raça Holandesa.

No Brasil, ela não é a mais numerosa entre os grupamentos raciais, mas é, disparado, a que mais leite coloca no tanque. São mais de 86 mil animais registrados e outros 92 mil sob controle leiteiro, reunidos em cerca de 850 rebanhos. Onde a pecuária de leite se intensifi ca, ela costuma ser a primeira escolha. Entender a raça Holandesa é entender por que o leite brasileiro produz como produz – e o que ainda o impede de produzir mais.

Raízes que vêm de longe 

A relação da raça Holandesa com o Brasil é antiga. Registros históricos apontam a chegada dos primeiros animais entre 1530 e 1535, muito antes de existir qualquer projeto leiteiro organizado. Mas a que conhecemos hoje foi moldada bem mais tarde e bem mais longe. Originalmente uma raça de dupla aptidão, conhecida como Frísia, ela passou a ser selecionada exclusivamente para leite na América do Norte a partir do fim do século XIX. E foi essa versão, especializada e produtiva, que ganhou o mundo.

No Brasil, o capítulo decisivo veio no século XX, com a imigração holandesa, que se intensificou após a Segunda Guerra. Famílias inteiras cruzaram o Atlântico, trouxeram algumas vacas e se fixaram sobretudo no Paraná, onde ajudaram a erguer cooperativas e a desenhar a pecuária dos Campos Gerais. Foi ali, no encontro entre a genética europeia e o trabalho de gerações de produtores, que a raça criou raízes profundas.

Onde está a raça Holandesa? 

Por ser a que mais produz, a raça Holandesa tornou-se a preferida em boa parte do país. Nas regiões de clima ameno, ela é explorada há décadas. Mas sua presença cresceu para muito além. Em Minas Gerais, maior produtor de leite do Brasil, a raça domina os novos projetos e as expansões. No Nordeste, a região que mais cresce em produção leiteira em termos relativos, ela aparece em sistemas que a combinam com palma e milho, com bons resultados técnicos. No Sul é de longe a mais escolhida. Paraná, Rio Grande do Sul e Santa Catarina são, respectivamente, o segundo, o terceiro e o quarto maiores produtores nacionais.

A lição que se repete é simples: a raça Holandesa se adapta quando o sistema é pensado para ela. Não há receita única. Cada propriedade combina alimentação, estrutura e manejo à sua realidade de clima, custo e mão de obra. É nos sistemas mais intensivos, com controle fino de ambiente e nutrição, que ela expressa o máximo de seu potencial genético.



A Holandesa carrega uma das genéticas mais avançadas do rebanho leiteiro mundial

 A RAÇA HOLANDESA SE ADAPTA QUANDO O SISTEMA É PENSADO PARA ELA. NÃO HÁ RECEITA ÚNICA. CADA PROPRIEDADE COMBINA ALIMENTAÇÃO, ESTRUTURA E MANEJO À SUA REALIDADE DE CLIMA, CUSTO E MÃO DE OBRA. É NOS SISTEMAS MAIS INTENSIVOS, COM CONTROLE FINO DE AMBIENTE E NUTRIÇÃO, QUE ELA EXPRESSA O MÁXIMO DE SEU POTENCIAL GENÉTICO  

A forma a serviço da função

Antes de falar em litros, vale olhar para o corpo do animal. A classificação morfológica da raça traduz em pontos o quanto a conformação favorece produção e durabilidade – e os pesos dizem muito. O sistema mamário concentra 42% da avaliação, o maior de todos: é do úbere, de sua altura, textura, ligamento e colocação de tetos, que depende a capacidade de produzir por muitas lactações. Pernas e pés respondem por 26%, porque aprumos e cascos decidem por quanto tempo a vaca se mantém em pé e produzindo. A força leiteira vale 22%; e a garupa, 10%.

Há, no entanto, um ponto de virada nessa conversa sobre forma. Por muito tempo, selecionou-se a Holandesa para ser grande, e ela ficou grande demais. Uma vaca adulta pesa hoje, em média, cerca de 700 kg nos Estados Unidos e 680 kg no Brasil, com enorme variação entre rebanhos. O tamanho tem custo: animais muito grandes gastam mais energia só para se manter, sem produzir proporcionalmente mais leite, e vivem em média 15% menos que os de porte mediano. A própria raça começou a corrigir a rota. Na classificação de tipo, a pontuação ideal para estatura deixou de premiar o extremo e passou a valorizar o equilíbrio. Além disso, cresce o interesse por vacas mais eficientes do ponto de vista alimentar, ou seja, as que produzem o mesmo comendo menos.

Avaliação funcional da raça Holandesa






O preço do alto desempenho

Os números de produção explicam o lugar que a raça ocupa. No controle leiteiro nacional, as médias por lactação vão de 9.762 kg em 305 dias e duas ordenhas a 14.473 kg em 365 dias e três ordenhas. Nos extremos, há vacas que passam de 180 mil litros ao longo da vida. Em sólidos, onde existe pagamento por qualidade e bom manejo, os teores de gordura ficam entre 3,8% e 4,2%; e os de proteína, entre 3,3% e 3,4%. Esses dados fazem da Holandesa a raça que entrega as maiores quantidades diárias de gordura e proteína, mesmo diante de raças famosas pela composição do leite.

Esse potencial, porém, tem seu preço. A vaca de alta produção é a mais exigente do sistema produtivo, e a conta aparece em várias frentes. A vida produtiva costuma ser curta, entre duas e três lactações, o que faz com que muitos animais passem quase metade da vida como novilhas, sem gerar receita. Partos difíceis são mais frequentes na raça, assim como os natimortos; a meta é ficar abaixo de 4%. E há o calor: a zona de conforto da Holandesa vai de 1°C a 21°C. Os últimos verões, com dias seguidos de estresse térmico, derrubaram consumo e produção. Nada disso condena a raça; apenas define o preço de entrada. Sem nutrição, conforto térmico e manejo sanitário à altura, o potencial não se realiza; vira custo.

A genética como bússola

Se a raça avançou tanto, o mérito é sobretudo da genética. O salto de produtividade das últimas décadas se explica, em boa parte, pelas avaliações genômicas, que aceleraram a seleção e tornaram as escolhas mais precisas. A raça Holandesa tem vantagem também na diversidade: há centenas de touros provados no mercado, sêmen sexado ou convencional, de origens e linhagens variadas, o que reduz o risco de consanguinidade que preocupa raças de menor população. A seleção também mudou. Ao lado do volume, entraram na conta a saúde, a fertilidade e a longevidade, características que sustentam o retorno econômico no decorrer da vida da vaca. 

O equilíbrio como próximo passo

Reduzir a raça Holandesa a uma vaca de muito leite é contar só metade da história. Sua genética é a base sobre a qual foram montados rebanhos cruzados como o Girolando – hoje responsável por parte considerável da produção nacional –, e sua chegada ajudou a organizar cooperativas, formar técnicos e transformar regiões inteiras. Onde a pecuária leiteira brasileira ficou mais precisa, a raça costuma estar por perto.



O desafio dos próximos anos não é produzir mais; nesse quesito a raça Holandesa já provou do que é capaz. O desafio é produzir com equilíbrio: manter o volume e os sólidos sem renunciar à saúde, à fertilidade e à longevidade dos animais.

Para o produtor, é o que separa o rebanho que impressiona na média do que dá lucro no fim do ano. A Holandesa oferece um dos maiores potenciais do rebanho leiteiro mundial. Entregá-lo por inteiro, ano após ano, depende menos da vaca e mais de quem cuida dela.





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