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Gestão

E se gente não for o problema? O desafio da pecuária leiteira é liderar pessoas

E se gente não for o problema? O desafio da pecuária leiteira é liderar pessoas

Eu nasci no Agro. Meu primeiro presente na vida foi uma vaca leiteira, a “Xita”, que ganhei do meu avô paterno e padrinho de batismo. Passei minha infância acompanhando de perto a rotina do campo, e mesmo morando depois em muitas cidades, jamais me afastei das minhas raízes. A partir deste prisma, pude vivenciar o Agro por diversos ângulos. 

Sou filha, neta e esposa de produtores rurais. Das boas lembranças de uma infância acompanhando de perto o dia a dia de quem produz alimento, aprendi também que isso exige técnica, coragem, resiliência e, principalmente, pessoas. E sobre esse assunto, passei boa parte da vida ouvindo as mesmas reclamações: é funcionário que falta, é gente que vai embora quando você mais precisa, é aquele que trata que vai, e não aparece, fora os que pedem aumento de salário e melhores condições e depois vão embora do mesmo jeito. E para completar o muro das lamentações, hoje em dia é comum ouvir produtor dizendo que “se arrumar alguém querendo trabalhar, já está é bom demais.”

Em síntese, escutei a minha vida inteira que “gente é o maior problema do Agro”. Será que a forma como estamos tratando esse problema tem levado às soluções adequadas? Será que estamos estagnados, sem saber o que fazer? Quero convidar vocês a analisarem comigo essa questão por outro ângulo. Nos últimos anos, entendi que minhas experiências me deram a capacidade de olhar para esse setor de forma madura, como quem está “dentro”. Mas muitas experiências profissionais me ajudaram também a “olhar de fora”, e buscar contribuições de outras áreas para melhorar a maneira como tratamos a questão de “gente” no Agro.

Antes de me tornar professora e pesquisadora na área de Gestão na Universidade Federal de Viçosa (UFV), trabalhei na parte administrativa e de exportação de uma central de genética bovina e em uma grande multinacional de tecnologia. Mais uma vez, o Agro estava ali me ensinando que ao lado de toda boa teoria existe uma boa prática, e vice-versa. Cada experiência que passei na vida me ajudou a formar a capacidade de ler a língua complexa do meio acadêmico e traduzir para a linguagem simples do produtor. Foi assim que surgiu meu trabalho como consultora, depois como empreendedora, e hoje, por meio de uma startup que fundei em 2019, já ajudei a transformar mentalidades de líderes e processos de gestão de pessoas em mais de 150 fazendas de quase todas as cadeias agroindustriais do Brasil, inclusive da pecuária leiteira.

Por isso, depois desses anos estudando e vivendo essa realidade, posso afirmar com segurança: o problema do Agro não está nas pessoas. Mas na forma como estamos liderando e fazendo a gestão destas pessoas.



Equipe da Fazenda AgroGuia, em Vargem Bonita/MG: a organização do trabalho e a forma de conduzir as equipes são parte central da gestão nas fazendas de leite


Gestão de pessoas? O que é isso?

Quando falamos em gestão de pessoas, muitos produtores pensam imediatamente em questões operacionais: contratar, pagar salário, cumprir obrigações trabalhistas. Quando analisamos as exigências de certificações internacionais, por exemplo, percebemos que muito do que eles cobram em termos de relações com os funcionários é exatamente isso: que se cumpra a legislação e garanta condições dignas de trabalho. Mas gestão de pessoas vai muito além disso.

GESTÃO DE PESSOAS É A CAPACIDADE DE FORMAR EQUIPES COMPROMETIDAS, DESENVOLVER TALENTOS E CRIAR UM AMBIENTE ONDE AS PESSOAS QUEIRAM PERMANECER E CRESCER

Na prática, isso significa ter líderes na fazenda, e não apenas chefes. Chefes cobram tarefas e garantem o andamento de processos. Líderes desenvolvem pessoas, e são guardiões da cultura. E essa diferença impacta diretamente nos resultados. Porque, no leite, assim como em qualquer outra atividade rural, são as pessoas que garantem a qualidade, a produtividade e a continuidade do negócio. Construir uma cultura forte e compartilhada em uma fazenda de leite significa fortalecer rituais e rotinas que garantem um alinhamento entre todos, e reforcem os comportamentos que são valorizados e que devem permanecer.

O maior risco é perder pessoas 

A pecuária leiteira é uma atividade exigente: tem rotina diária, não tem feriado, tem pouca margem para erros. A atratividade do setor, seja em relação a outras culturas do Agro, seja em relação a empregos urbanos, acaba sendo comprometida pelo nível de exigência necessário para produzir leite de qualidade. E, por isso, manter uma equipe engajada é um dos maiores desafios enfrentados pelos produtores. Muitos jovens não querem permanecer no campo. Funcionários trocam de propriedade com facilidade. E sucessores, muitas vezes, não se sentem preparados (nem mesmo atraídos) para assumir. E o mais sério de tudo, é que isso não acontece apenas por questões financeiras. 





Acontece porque as novas gerações buscam, além de trabalho, um ambiente onde se sintam valorizadas e onde consigam enxergar futuro. E esse futuro é construído pela liderança. Em nossos trabalhos, já nos deparamos com muitas situações em que, produtores “desesperados” para manter funcionários na fazenda, aumentam salários sem critério, e depois se perdem nas reclamações de outros funcionários que se sentem injustiçados, ou acabam perdendo os que tiveram aumento, do mesmo jeito. Essa segunda situação é ainda pior, pois inflaciona o mercado salarial e compromete a atratividade para novos talentos que poderiam começar com salários menores, e ir aumentando a medida em que se desenvolvem. Para desenvolver talentos, é preciso ter liderança. E para aumentar salários, é preciso ter critérios claros e gestão do desempenho.

Liderar é uma competência que pode (e precisa) ser desenvolvida

Durante muito tempo, acreditou-se que liderar era algo natural, ou que bastava ter experiência. Também se confundia “ser dono” com “ser líder”, mas tem muito dono que não lidera, simplesmente manda. A cultura brasileira, no geral, ainda valoriza a autoridade como traço de líderes: “manda quem pode, obedece quem tem juízo”. Para lidar com os novos desafios das gerações atuais e da atratividade do trabalho no campo, já está na hora de revisarmos estes conceitos.

A boa notícia é que hoje sabemos que liderança é uma competência que pode ser aprendida. Liderar envolve comunicação clara, dar feedback e preparar pessoas para assumir responsabilidades. E, principalmente, envolve entender que o resultado da fazenda depende diretamente do desenvolvimento da equipe. 

Em um projeto recente que fizemos com mais de 70 fazendas de diversos ramos da produção agropecuária no Brasil, as propriedades que compreenderam isso já estão colhendo os resultados:

• Maior estabilidade da equipe;

• Mais comprometimento; 

• Mais sucessores preparados; 

• Mais sustentabilidade no negócio, inclusive financeira.  


O futuro da pecuária leiteira será construído pelas pessoas 

O Brasil é uma potência na produção de alimentos e a pecuária leiteira tem um papel fundamental nesse cenário. O crescimento do setor não depende apenas de genética, nutrição ou tecnologia. Depende da capacidade de desenvolver pessoas para operar máquinas e inovações, cuidar de lavouras e animais, e cuidar umas das outras. Precisamos criar condições para termos pessoas saudáveis e felizes nas fazendas de leite, para que sejam pessoas produtivas. Afinal, são elas que garantem que tudo funcione todos os dias.

O CRESCIMENTO DO SETOR NÃO DEPENDE APENAS DE GENÉTICA, NUTRIÇÃO OU TECNOLOGIA. DEPENDE DA CAPACIDADE DE DESENVOLVER PESSOAS PARA OPERAR MÁQUINAS E INOVAÇÕES, CUIDAR DE LAVOURAS E ANIMAIS, E CUIDAR UMAS DAS OUTRAS  


 Cada etapa da produção de leite exige conhecimento técnico, rotina e atenção. Equipes bem orientadas garantem a qualidade do manejo e a consistência do trabalho na fazenda

Quando o produtor passa a olhar para as pessoas como parte estratégica do negócio algo muda: a fazenda se fortalece, o ambiente melhora, e o futuro se torna mais sustentável.

A transformação começa pelo líder 

A pergunta que deixo para reflexão é simples:
Você está apenas buscando atrair e manter funcionários na sua propriedade ou está formando líderes? 

O agro brasileiro sempre superou grandes desafios. E este é mais um deles. Desenvolver pessoas é investimento. Porque, no fim, gente nunca foi o problema. Gente sempre foi, e continuará sendo, a solução.


 


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Autor

Raquel Santos Soares Menezes

Raquel Santos Soares Menezes

Professora, pesquisadora em Gestão de Pessoas no Agronegócio, UFV-Campus Rio Paranaíba e fundadora da Wantu Agro.


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