Em Vila Lângaro/RS, a nova geração da Cabanha DS assumiu a propriedade e deu novo curso ao projeto familiar
A interrupção da produção de leite não encerrou a história da família Secco nem suas atividades.
Para organizar uma foto com as gerações da família Secco, é preciso ter paciência. Ora um corre para chamar quem ainda não chegou, ora outro resolve trocar a camisa antes do registro. Aos poucos, todos se ajeitam. A união que aparece na fotografia é a mesma que sustenta o dia a dia da Cabanha DS, onde diferentes gerações dividem trabalho, decisões e planos. Foi assim, juntos, que atravessaram crises, reconstruíram a produção e chegaram a resultados à altura de uma história familiar que começou com muita persistência. É João Vitor Secco, um dos responsáveis pela gestão da propriedade, quem conduz boa parte dessa conversa – falando, com frequência, em nome das gerações que dividem com ele a rotina da fazenda.

Reunida na Cabanha DS, a família Secco mantém diferentes gerações envolvidas na rotina e nas decisões da propriedade
De geração em geração
Os avós de João Vitor Secco, Dorvalino e Dorvalina, descendentes de imigrantes italianos, começaram praticamente do zero. Construíram a casa num pequeno espaço de terra e criaram ali os quatro filhos – Delacir, Daniel, Darlan e Adelaide – em uma propriedade sustentada, naquele primeiro momento, pela agricultura de subsistência.
A mudança começou em 1989. Já casados, os irmãos Delacir e Daniel buscavam uma forma de gerar renda na propriedade. Cada casal começou com um animal: ordenha manual numa estrebaria adaptada, leite acondicionado em recipientes e levado até a beira da estrada, porque o caminhão não chegava à fazenda. Anos depois, investiram na compra de outros animais, uma ordenhadeira de um conjunto e um resfriador. Em 1999, com 30 vacas em lactação, foram instaladas a primeira sala de ordenha do modelo espinha de peixe, a ordenhadeira canalizada e o tanque de expansão – estrutura que, para a época, chamava a atenção de outros produtores da região. O leite deixava de ser atividade complementar para ocupar o centro do negócio da família.
A UNIÃO QUE APARECE NA FOTOGRAFIA É A MESMA QUE SUSTENTA O DIA A DIA DA CABANHA DS, ONDE DIFERENTES GERAÇÕES DIVIDEM TRABALHO, DECISÕES E PLANOS
Nos anos seguintes, a fazenda cresceu; e os filhos também. Delacir e Elizabete tiveram João Vitor e Daniquelem. Daniel e Silvana tiveram Gustavo, Marcos e Alex. Crescer na Cabanha DS significou acompanhar de perto a rotina da produção e escolher formações diretamente relacionadas ao trabalho que já conheciam desde pequenos. João Vitor tornouse engenheiro-agrônomo e fez pós-graduação em Gestão do Agronegócio; Gustavo e Marcos são médicos-veterinários; Daniquelem, bióloga, é responsável pelo planejamento agrícola da fazenda; e Alex, o mais novo, hoje com 16 anos, estuda em um colégio agrícola.
A atuação dessa geração passou a ter contornos mais definidos na condução da fazenda. Entre os primos que estão diretamente à frente da gestão, as responsabilidades foram distribuídas por área: João Vitor responde pela gestão financeira e pela nutrição das vacas; Gustavo, pela reprodução, pela sanidade clínica e pela qualidade do leite; e Marcos, pela cria e recria, pela biosseguridade e pelas certificações da fazenda. A divisão acompanha tanto a formação quanto a afinidade de cada um e permite que as decisões tenham responsáveis claros. E eles também contam com a geração anterior, que continua presente no dia a dia da Cabanha DS.
Essa organização ajuda a explicar a propriedade. Antes dela, porém, houve um momento em que tudo o que a família havia construído durante décadas esteve perto de desaparecer.
Tudo parou
O crescimento da Cabanha DS sofreu uma ruptura em 2015. Já com parte das vacas confinadas em um galpão de Compost Barn, estrutura construída para sustentar a expansão, a família recebeu o diagnóstico de brucelose e tuberculose no rebanho. João Vitor resume o período em uma frase: “Foi, com certeza, o maior desafio que a gente já passou”. No primeiro teste, 12 animais apresentaram resultado positivo. A partir dali, começou uma rotina que se repetiria por aproximadamente dois anos: a cada 60 dias, o rebanho era novamente testado na tentativa de eliminar o problema da propriedade. Animais saíam, novos exames eram realizados e, ainda assim, apareciam outros casos.
De um rebanho total de cerca de 400 animais, com 170 vacas em lactação, restavam apenas 50 em 2017 – uma reversão completa depois de décadas de crescimento. Além da redução do patrimônio e da capacidade de produção, havia o desgaste de conviver, teste após teste, com a possibilidade de um novo resultado positivo.
Chegou um momento em que não era possível continuar. “Não tinha mais como suportar, sustentar a atividade. E a gente não aguentava mais, nem psicologicamente”, lembra João Vitor. Em 2017, a família decidiu encerrar a produção de leite. A decisão parecia definitiva. Depois de tudo o que haviam enfrentado, a frase repetida dentro de casa era: “leite, nunca mais”.
Começar outra vez
O “nunca mais” durou cerca de dois anos. João Vitor, Gustavo e Marcos estavam na faculdade e foi deles a proposta de retomar a atividade. Delacir e Daniel apoiaram, mas com uma condição: se os jovens quisessem voltar, teriam de assumir também a gestão da propriedade. A partir dali, a fazenda passou a ser conduzida como uma empresa, com responsabilidades definidas, metas e atenção aos resultados de cada setor.
Dessa vez, o retorno viria com outro nível de controle. Em 2019, a família começou a reorganizar a estrutura e passou cerca de seis meses preparando a fazenda antes de procurar animais. Depois do que haviam vivido, a procedência sanitária era inegociável: a opção foi começar só com novilhas de propriedades certificadas e de genética considerada superior. Em 2020, chegaram os primeiros animais.

Marcos, João Vitor e Gustavo Secco dividem a gestão por áreas e conduzem o dia a dia da Cabanha DS
A primeira vaca pariu em junho daquele ano. “Demorava mais para lavar a ordenhadeira do que para tirar o leite”, lembra João Vitor. Quando a segunda vaca entrou em produção, veio o marco que a família guarda até hoje: em 16 de junho, a Cabanha DS voltou a entregar leite ao laticínio; 80 litros acumulados em dois dias.
Naquele ritmo, porém, levaria muito tempo para ocupar a estrutura já existente. Em agosto, os primos foram atrás de mais vacas em produção, mas uma oportunidade de negócio mudou os planos. O produtor que deixaria a atividade só aceitava vender o rebanho completo. A negociação levou algumas semanas e, mesmo sem a compra garantida, os primos começaram a preparar a estrutura para receber os animais, construindo eles próprios um Compost Barn para alojar a recria. Quando o acordo finalmente saiu, a Cabanha DS deu um salto importante na retomada da produção e assumiu um compromisso que exigiria ainda mais disciplina de gestão.
Os animais chegaram no final de outubro de 2020, e o efeito foi imediato: de 8 mil litros entregues em outubro, a Cabanha DS passou a 90 mil em novembro. Para sustentar o crescimento, a família implantou a terceira ordenha e redobrou a atenção sobre reprodução, alimentação e recria. O leite havia voltado e, dessa vez, em uma velocidade que logo exigiria novas decisões.
A ADAPTAÇÃO DAS VACAS FOI MAIS RÁPIDA DO QUE ESPERAVAM E, EM POUCOS DIAS, A MAIOR PARTE DO REBANHO JÁ ACESSAVA OS EQUIPAMENTOS SOZINHA. PARA JOÃO VITOR, NO ENTANTO, O PRINCIPAL GANHO FOI ABRIR ESPAÇO PARA ADMINISTRAR MELHOR A PROPRIEDADE

A suplementação mineral é ajustada às diferentes categorias do rebanho, com produtos da Agroceres Multimix
Tempo para gerir
O salto de produção resolveu um problema e criou outro: com três ordenhas diárias por mais de um ano, a rotina operacional passou a consumir o tempo que deveria ser dedicado à gestão. Foi esse desequilíbrio que levou os primos a avançar, em agosto de 2021, na compra da ordenha robotizada. Os dois primeiros robôs começaram a operar em dezembro, depois das obras de ampliação do Compost Barn.
A adaptação das vacas foi mais rápida do que esperavam e, em poucos dias, a maior parte do rebanho já acessava os equipamentos sozinha. Para João Vitor, no entanto, o principal ganho foi abrir espaço para administrar melhor a propriedade. A produção também respondeu: segundo ele, o acréscimo médio ficou entre 4 e 5 litros por vaca. “A produção é uma construção”, afirma. “O robô oferece condições, assim como a genética estabelece potencial; o desempenho depende do conjunto de manejo, bem-estar e alimentação.”
João Vitor, responsável pela nutrição das vacas, explica que o confinamento ampliou o controle sobre o que chega ao cocho e, sobretudo, sobre a regularidade da dieta. “A vaca gosta muito de rotina”, diz. Por isso, a equipe procura fornecer diariamente uma alimentação estável, evitando mudanças que exijam readaptação. As dietas são balanceadas por nutricionista e a suplementação mineral é definida por categoria: há produtos específicos para recria, vacas em produção e pré-parto, etapa em que a propriedade trabalha com dieta aniônica.
A Agroceres Multimix é parceira da Cabanha DS há cerca de três anos no fornecimento desses minerais. “A gente não expressaria todo esse potencial produtivo que a gente tem aqui se não tivesse uma nutrição bem balanceada e com qualidade”, resume João Vitor.

À frente de áreas distintas da gestão, Marcos, João Vitor e Gustavo acompanham de perto a rotina e o desempenho do rebanho
Onde o próximo rebanho começa
O cuidado começa antes do nascimento: as vacas próximas do parto ficam em lote específico, acompanhadas por câmeras instaladas na propriedade, e seguem para baias de maternidade assim que entram em trabalho de parto. Depois do nascimento, as bezerras vão para casinhas individuais. Leite e colostro são fornecidos em pó, decisão que, segundo a família, faz parte do controle sanitário adotado para reduzir a exposição das bezerras a agentes que podem estar presentes no leite das vacas adultas. Até os 60 dias, a criação é individual; depois, os animais passam gradualmente para grupos maiores.
Na recria, a alimentação também é pensada para favorecer o desenvolvimento das futuras vacas. A dieta das bezerras recebe atenção especial ao aporte de proteína, buscando crescimento e desenvolvimento sem excesso de peso.
Para ser inseminada, a novilha precisa ter pelo menos um ano e 350 quilos. O último lote avaliado na Cabanha DS chegou a essa idade com média de 437 quilos e mais de 1,30 metro de altura, sem sobrepeso. A propriedade também já ultrapassou a marca de mais de 600 dias sem registrar a morte de bezerras. São números que a família usa para acompanhar se a genética escolhida está encontrando, na prática, condições para se desenvolver. Parte dos animais é comercializada com clientes que voltam para novas compras e, em alguns casos, deixam a escolha por conta da fazenda.
Quase a totalidade do rebanho é A2A2. O objetivo declarado pela família é alcançar 300 animais em produção até 2030 e, mais adiante, industrializar ao menos parte do leite produzido na fazenda, com foco em produtos A2, rastreáveis até a origem.

Em operação desde 2021, a ordenha robotizada reorganizou a rotina e abriu mais tempo para a gestão da fazenda

Na cria e recria, nutrição, sanidade e metas de desenvolvimento orientam a formação das futuras vacas do rebanho
Uma história que continua
Desde 2022, em parceria com um laticínio, a Cabanha DS recebe produtores e estudantes interessados em conhecer o sistema de produção. Em 2023, mais de 500 pessoas passaram pela fazenda. As visitas não têm finalidade comercial. A intenção, diz João Vitor, é mostrar o que deu e o que não deu certo. “A gente conta muito do que fez errado, ou do que não sabia e acabou aprendendo da maneira mais difícil, para que outras pessoas também aprendam e continuem crescendo.”
O olhar da família para o futuro segue o mesmo princípio: crescer não é só aumentar o número de vacas, mas o valor construído dentro da porteira.
É esse horizonte, mais do que qualquer meta fechada, que move os Secco de uma geração para a outra. João Vitor, Gustavo e Marcos chegaram à propriedade para somar com a geração anterior. Ninguém precisou sair para que os outros encontrassem seu lugar – a cena de ajuste que se repetiu naquela fotografia em família. Na Cabanha DS, sucessão é continuidade; e o sucesso, conquista partilhada.


Entre decisões e planos, os primos dão continuidade à história da família Secco na Cabanha DS
Clique aqui e tenha acesso ao vídeo que relata o trabalho desenvolvido na Cabanha DS
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Autor
Adriana Vieira Ferreira
EDITORA EXECUTIVA
Economista, DSc. em Economia Rural
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