Rotina de manejo preventivo e clínico de bezerras e novilhas
Texto: Flávia Fontes
Um programa de saúde deve ter duas metas principais – a prevenção de perdas por doenças e a otimização do desempenho. Muitas doenças que acometem os animais de reposição resultam em perdas inaparentes, que podem se transformar em grandes prejuízos futuros, principalmente associados ao aumento da idade ao 1º parto e perda de potencial produtivo. Podem ocorrer também grandes perdas quando as doenças causam problemas clínicos e morte.

Introdução
O manejo preventivo e clínico dos animais de reposição pode ser melhor delineado se dividirmos estes animais em três fases, de acordo com o status fisiológico e imunológico. O período que vai do nascimento até o completo ajuste fisiológico do bezerro, com aproximadamente 6 semanas de vida, representa a fase de maior estresse e desafio. Durante este estágio crítico, o bezerro tem que sobreviver ao processo de nascimento, alcançar e manter a homeostase dentro do seu novo ambiente extra-uterino, adaptar-se à obtenção de seus requisitos nutricionais à partir do leite ao invés do sangue materno, iniciar o crescimento e desenvolvimento pós-natal, e fazer as mudanças metabólicas, nutricionais e comportamentais para tornar-se um ruminante funcional. Estes animais são muito dependentes da imunidade passiva conferida pelo colostro, pois ainda estão iniciando o desenvolvimento de seu sistema imune. Uma alta incidência de doenças nesta fase pode estar associada a falhas na transferência de imunidade passiva ou a altos desafios infecciosos ambientais.
Com 6 a 12 semanas de vida os bezerros já se tornaram ruminantes e passam novamente por um grande estresse, o desaleitamento. Agora, precisam suprir seus requisitos nutricionais pelo consumo de alimentos sólidos. Além disso, embora ainda exista proteção conferida pela imunidade passiva, os animais necessitam desenvolver suas próprias defesas e estão muito sensíveis aos desafios ambientais.
Bezerros maiores de 12 semanas já não estão sob proteção da imunidade passiva e a resposta imune ativa tem que estar bem estabelecida. Estes parâmetros dependem de uma nutrição adequada e do contato prévio com os agentes infecciosos mais prevalentes no ambiente para produção de anticorpos específicos. Se isto não ocorrer, os riscos de infecção ainda serão grandes nesta fase.
Um programa de saúde deve ter duas metas principais – a prevenção de perdas por doenças e a otimização do desempenho. Muitas doenças que acometem os animais de reposição resultam em perdas inaparentes, que podem se transformar em grandes prejuízos futuros, principalmente associados ao aumento da idade ao 1º parto e perda de potencial produtivo. Podem ocorrer também grandes perdas quando as doenças causam problemas clínicos (diarreias, pneumonias e tristeza parasitária) e morte.
Conceito de saúde
Um programa de saúde que enfoque apenas a prevenção e controle de doenças não é completo. Programas de vacinação e controle de parasitas são medidas preventivas importantes mas, por si só, não podem assegurar a saúde do rebanho. Saúde é mais que ausência de doenças. É crescimento, desempenho reprodutivo e produção de leite.
Este conceito mais amplo de saúde é assegurado pela genética, nutrição, manejo dos animais, manejo do ambiente e monitoramento constante dos dados de desempenho.
Cuidados com o ambiente de parição e com o bezerro recém-nascido
O nascimento de um bezerro saudável depende, em grande parte, dos cuidados com a vaca durante a gestação, entre eles:
- proteção contra doençasinfecciosas;
- exposição moderada aos patógenos prevalentes na propriedade para que o colostro contenha anticorpos específicos;
- nutrição adequada durante a gestação, e especialmente no último trimestre, permitindo um desenvolvimento adequado do bezerro;
- ajuste do escore de condição corporal para minimizar os riscos de problemas de parto e doenças metabólicas.
O útero é normalmente um ambiente estéril, e agentes infecciosos que conseguem atravessar a placenta usualmente podem provocar aborto. Entretanto, infecções e deficiências nutricionais da vaca podem resultar no nascimento de bezerros prematuros e fracos. Por exemplo, alguns minerais como o ferro, que se encontram em baixas concentrações no leite, são estocados no fígado dos fetos antes do nascimento. Assim, a quantidade de ferro estocada no fígado e a probabilidade de desenvolvimento de anemia no bezerro irão depender, primariamente, do estatus nutricional da vaca.
Dificuldades de parto também tornam o bezerro mais susceptível a infecções nos primeiros dias de vida. O ajuste da nutrição da vaca para obter um escore de condição corporal adequado ao parto é particularmente efetivo na redução de problemas de parto.
Ao nascimento, o bezerro está essencialmente sem resistência aos agentes infecciosos, sendo totalmente dependente da transferência de imunidade passiva pelo colostro. A saúde destes animais depende do balanço entre resistência e desafio. Ao nascimento, o desafio infeccioso é sempre maior que a resistência, deixando o bezerro em desvantagem. Assim, boas práticas de manejo, como colostragem e instalações adequadas, são essenciais para reverter este desbalanço o mais rápido possível.
Dentro de poucos minutos após o nascimento, toda a superfície corporal dos bezerros é colonizada por microrganismos presentes no ambiente. Esta população de patógenos presentes no local de parição deve ser controlada pela limpeza e desinfecção após cada utilização. Este ambiente deve ser utilizado exclusivamente como maternidade, nunca como hospital. A separação do bezerro e da vaca logo após o parto, não permitindo que o mesmo mame o colostro diretamente da glândula mamária, também tem se mostrado como uma medida efetiva para reduzir as infecções iniciais, especialmente por Escherichia coli. A desinfecção do coto umbilical também minimiza a colonização bacteriana e infecção.
Rotina de controle e prevenção de doenças
Um manejo preventivo e clínico deve assegurar:
- prevenção da entrada de doenças no rebanho;
- prevenção do desenvolvimento de doença nos animais expostos ou infectados;
- controle da disseminação das doenças para o resto do rebanho.
Um conceito importante no controle de doenças é que infecção não é sinônimo de doença. Existem muitos agentes aos quais os animais estão expostos e infectados a despeito de qualquer esforço de controle. Assim, o grande desafio é impedir o desenvolvimento de quadros clínicos ou subclínicos, que representam perdas econômicas, nos animais infectados.
Alguns pontos devem ser seguidos como rotina na propriedade para assegurar que o manejo seja eficaz em prevenir infecções. São eles:
Estabelecimento de uma boa relação entre veterinário, funcionários e produtor
A base para o funcionamento de um programa eficaz de saúde exige que:
- o veterinário assuma a responsabilidade de instituir e avaliar as medidas a serem aplicadas no programa;
- o produtor esteja de acordo com as instruções do veterinário;
- o funcionário responsável pelos bezerros cumpra as determinações do veterinário e esteja sempre atento aos animais, detectando precocemente possíveis falhas no programa.
Estabelecimento de um programa de vacinação
O objetivo do programa de vacinação é a manutenção de um alto nível de imunidade no rebanho contra os agentes infecciosos mais prevalentes na propriedade.
Controle estratégico de parasitas
O principal objetivo desta estratégia é reduzir os efeitos negativos do parasitismo subclínico sobre o desempenho animal. Isto é possível pela quebra do ciclo de vida dos endo e ecto parasistas em vários estágios do seu desenvolvimento.
Observações freqüentes dos bezerros e isolamento dos animais doentes
Geralmente, o primeiro sintoma apresentado por animais doentes é a queda no consumo de alimentos e água, seguida de apatia moderada a severa. A observação destes sinais sutis é importante para estabelecimento de um rápido diagnóstico e intervenções clínicas necessárias.
Necrópsia de todos os animais mortos
Geralmente os achados de necrópsia fornecem boas evidências sobre as causas da morte, auxiliando no estabelecimento de estratégias de manejo que reduzam as perdas. A necrópsia deve ser feita no menor espaço de tempo possível após a morte natural ou eutanásia. Se for necessário um maior período de tempo, manter a carcaça sob refrigeração ou em local fresco, e estar atento para as alterações pós-mortem.
Eliminação das carcaças após necrópsia
As carcaças são importantes fontes de infecção para o rebanho e devem ser eliminadas o mais rápido possível. A limpeza e desinfecção do local da morte do animal também é uma prática muito importante para controle de infecções.
Cuidados sanitários na compra de animais
Animais doentes nem sempre apresentam sinais clínicos evidentes, assim é importante tomar os seguintes cuidados ao introduzir animais no rebanho:
- conhecer a origem e histórico clínico dos animais comprados;
- proceder a exame clínico e laboratorial para identificação de doenças subclínicas;
- manter os animais comprados em quarentena de 3 a 4 semanas, e ou até a obtenção dos resultados dos exames laboratoriais;
- tratamento profilático contra parasitas externos e internos;
Outras práticas de biosseguridade
- limpeza e desinfecção de instalações, equipamentos e utensílios utilizados no manejo dos animais;
- utilização de seringas descartáveis para aplicação de medicamentos e vacinas;
- controle de moscas, pássaros, gatos e roedores;
- controle do tráfego de pessoas e animais de estimação nas instalações;
- separação dos animais em grupos de acordo com a idade;
- manejo adequado do esterco;
- ventilação adequada das instalações;
- participação em programas oficiais de controle de doenças;
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