Este site utiliza cookies

Salvamos dados da sua visita para melhorar nossos serviços e personalizar sua experiência. Ao continuar, você concorda com nossa Política de Privacidade, incluindo a política de cookie.

x
ExitBanner
Fazendas, Gestão

Simplicidade é a alma do negócio: conheça a história do Condomínio Rural Canto Porto (Mogi Mirim/SP)

Construída a muitas mãos, a Canto Porto tem na simplicidade, na disciplina e na força do coletivo a essência de um projeto que transforma desafios em oportunidades e projeta o futuro da pecuária leiteira

Simplicidade é a alma do negócio: conheça a história do Condomínio Rural Canto Porto (Mogi Mirim/SP)

Plural. Esse talvez seja um dos poucos adjetivos que ajudam a compreender a gestão do Condomínio Rural Canto Porto, em Mogi Mirim/SP. O negócio nasceu de um projeto coletivo, mas as primeiras mãos que abriram esse caminho foram as de Antônio Carlos Canto Porto Filho, o Totó, que em 1988 iniciou a produção de leite na Fazenda São Francisco. 

Naquele período, foi implantado um rebanho de vacas holandesas e criada uma marca de leite tipo A, vendida em supermercados. O projeto foi encerrado no ano 2000, quando todo o plantel foi vendido. 

A ligação com a genética permaneceu. Antônio Filho esteve entre os pioneiros da fertilização in vitro no país e fundou empresas como a In Vitro Brasil, In Vitro Equinos e a CPEX. Dessa trajetória nasceu a base para mais um capítulo, agora com a participação ativa dos filhos, João Carlos Canto Porto e Antônio Carlos Canto Porto Neto, o Tonico. Desde 2016, juntos, deram início a um novo projeto, estruturado e de grande escala, que marca a fase atual do Condomínio Rural Canto Porto.

Empreendedorismo como motor 

O ano de 2016 marcou uma nova etapa para o Condomínio Rural Canto Porto. O passo foi ousado: a compra de novas terras em Mogi Mirim/SP, destinadas a dar vida a um projeto de grande escala. A área adquirida não tinha quase nada. Eram terras abandonadas de produção de cana, sem estradas, sem cercas, sem energia elétrica e sem infraestrutura básica. A partir desse espaço – nomeado Fazenda Santo Antônio –, ergueu-se a nova identidade 

O projeto inicial previa um rebanho de 1.450 vacas da raça Girolando mantidas a pasto, em um sistema que já nascia com desenho estratégico: maternidade, pré-parto confinado e vacas passando pela pista de trato antes de chegar à ordenha. 

Em 2018, dois anos depois da compra das terras, o Condomínio Rural Canto Porto iniciou as primeiras ordenhas no novo espaço. O rebanho ainda era diverso: vacas das raças Gir e Girolando no carrossel.  


Em meio a esse processo, veio a pandemia. Em 2020, com todas as restrições impostas pelo isolamento, a fazenda viveu um período desafiador. Foi nesse cenário que amadureceu a mudança mais significativa da trajetória recente: a definição de que o futuro estaria no confinamento total do rebanho. 

Em maio de 2020, o projeto foi redesenhado para abrigar 2.150 vacas holandesas confinadas. A nova fase exigiu infraestrutura adequada, tecnologia e investimento consistente. As obras se estenderam até outubro de 2022, quando a estrutura atual foi concluída. 

O intervalo entre a concepção do projeto e a conclusão foi curto, mas intenso. Em apenas dois anos, a fazenda saiu de um projeto híbrido para consolidar uma operação de grande escala, marcada por um processo de aprendizado acelerado e pela adoção de práticas até então inéditas no cotidiano da propriedade.

Alta performance no leite 

A decisão de confinar vacas holandesas colocou o Condomínio Rural Canto Porto em um patamar de alta exigência técnica. A comparação feita internamente é direta: trabalhar com leite com o rebanho Holandês é como conduzir a Fórmula 1 da pecuária. Uma operação em que cada detalhe conta e onde as variações são imediatas e perceptíveis. O sistema envolve desde a agricultura até o manejo animal, passando pela mecânica dos equipamentos, pelos softwares de gestão e pela equipe alinhada com o projeto. 

Pequenos fatores externos podem alterar o desempenho. “Um fim de semana de clima mais ameno, por exemplo, aumentou a produção média em 1 litro por vaca/dia. Alterações aparentemente simples – temperatura, ajuste de trato, ordem de lote – podem gerar oscilações que não encontram explicações únicas ou imediatas”, esclarece Tonico. 

O rebanho do Condomínio Rural Canto Porto está alojado em Compost Barns, modelo que favorece conforto, sanidade e produtividade. Atualmente, a fazenda conta com 11 galpões projetados para garantir ventilação, espaço adequado e cama constantemente revolvida. A ordenha é realizada em carrossel, dimensionado para suportar o volume de vacas em lactação e reduzir o estresse durante o manejo. 

O cuidado com o bem-estar animal é reconhecido através da certificação de terceira parte: ao buscar a certificação, a fazenda recebeu a chancela positiva logo na primeira auditoria, sem necessidade de ajustes estruturais significativos. Isso se deve ao fato de que as práticas já estavam incorporadas ao manejo diário; sinal de que a filosofia de “fazer bem-feito desde o início” está enraizada na gestão.  



O CUIDADO COM O BEM-ESTAR ANIMAL É RECONHECIDO ATRAVÉS DA CERTIFICAÇÃO DE TERCEIRA PARTE: AO BUSCAR A CERTIFICAÇÃO, A FAZENDA RECEBEU A CHANCELA POSITIVA LOGO NA PRIMEIRA AUDITORIA, SEM NECESSIDADE DE AJUSTES ESTRUTURAIS SIGNIFICATIVOS


Segundo Helena Karsburg, diretora técnica da FairFood, a certificação não se resume à entrega de um selo, muito pelo contrário, exige um processo de acompanhamento contínuo e mudança de cultura operacional. “Acompanhamos de perto os processos, avaliando pontos como nutrição, qualidade do ambiente, comportamento dos animais, capacitação da equipe e registro de atividades diárias. No caso da Canto Porto, o diferencial é que, além de cumprir todos os requisitos, a fazenda valoriza o desenvolvimento das pessoas e demonstra empenho em aprimorar suas práticas de forma constante.” 




Nutrição de precisão 

A nutrição é tratada como um dos pilares técnicos mais estratégicos. Para a gestão do Condomínio Rural Canto Porto, não basta ter a melhor dieta formulada no papel: é preciso garantir que ela chegue exatamente como planejada ao cocho. A atenção recai sobre detalhes como o corte da forragem, a mistura no vagão, o momento do fornecimento e a distribuição correta por lote. “A dieta pode estar bem formulada, mas a mistura pode ser malfeita, você pode dar para o lote errado ou ter problema na faca do vagão. São milhares de detalhes até que o ciclo se complete”, destaca Tonico. 

Nesse contexto, a parceria com a FS ganhou relevância. O uso do High Protein Dried Distillers Grains (HPDDG), coproduto do processamento de etanol de milho, foi incorporado às dietas e trouxe ganhos importantes. “Nós estamos extremamente satisfeitos com o uso dessa matéria-prima. Ela tem uma qualidade diferenciada dos demais produtos do mercado; isso é fato. E agrega bastante”, comenta Tonico. 

Segundo Victor Trenti, diretor comercial da FS, o diferencial está no processo produtivo, que separa a parte fibrosa do milho e resulta em um coproduto visualmente atrativo, com maior teor proteico e composição nutricional bastante estável ao longo do ano. "Um dos grandes diferenciais do HPDDG da FS é a sua consistência: mantém sempre a mesma cor e qualidade nutricional, o que garante mais precisão e segurança na dieta dos animais", destaca. 

Na prática, essa padronização confere segurança ao nutricionista e ao produtor. Além disso, o ingrediente é uma fonte comprovada de proteína bypass, elemento essencial para sistemas de alta performance como o da Canto Porto.

"UM DOS GRANDES DIFERENCIAIS DO HPDDG DA FS É A SUA CONSISTÊNCIA: MANTÉM SEMPRE A MESMA COR E QUALIDADE NUTRICIONAL, O QUE GARANTE MAIS PRECISÃO E SEGURANÇA NA DIETA DOS ANIMAIS"  




Bezerreiro e recria 

Entre todas as categorias do rebanho, apenas o bezerreiro ainda não está totalmente confinado. Hoje, as bezerras permanecem em gaiolas individuais até os 30 dias de vida, quando passam para bezerreiros coletivos, com cerca de 20 a 25 animais por grupo. Nesse sistema, permanecem até os 90 dias de idade, quando são integradas às fases seguintes do confinamento. 

O objetivo da fazenda é fechar essa lacuna. As obras para adaptar o bezerreiro a um modelo de confinamento total já estão orçadas e devem ser iniciadas em breve. A meta é que todas as fases de desenvolvimento – do nascimento à lactação – estejam alinhadas a um mesmo padrão de infraestrutura e bem-estar. 

Atualmente, o sistema de aleitamento coletivo é realizado com alimentadores automáticos, mas a fazenda planeja retornar ao uso de mamadeiras. A decisão foi tomada depois de constatarem que, independentemente da tecnologia, o manejo manual oferece maior controle individual sobre a ingestão e o desempenho das bezerras.

Bezerreiro coletivo: estrutura planejada para contribuir para o bem-estar desde os primeiros dias de vida



Simplicidade e sustentabilidade 

Para quem se dedica à condução do Condomínio Rural Canto Porto, o futuro não significa rupturas, mas aperfeiçoamento contínuo. A filosofia é clara: quanto mais se estuda, investe e inova, mais se confirma a necessidade de manter a simplicidade como essência. “O futuro, às vezes, parece contraditório, mas não é. É mais do mesmo: continuar pesquisando, inovando, investindo em genoma, em genética. Temos muitos pontos para melhorar, mas é com humildade, perseverança, resiliência e disciplina que vamos seguir”, afirma Tonico. 

Os gestores entendem que o setor leiteiro será cada vez mais pressionado por metas ambientais e de produtividade. Questões como emissão e retenção de carbono, eficiência por hectare e produção mínima de leite por área já fazem parte do horizonte. A sustentabilidade, portanto, não é vista como luxo ou capricho, mas como necessidade prática e inevitável. 

Ao mesmo tempo, há confiança de que o caminho está em harmonia com a terra e com os animais, garantindo bem-estar e eficiência produtiva. A adoção de tecnologias como colares, softwares próprios e inteligência artificial é considerada estratégica, mas sempre subordinada ao princípio de que são as pessoas que tomam decisões e fazem a diferença. “A simplicidade vai continuar sendo a alma da eficiência. A gente já usa tecnologia, mas por trás de tudo estão as pessoas. São elas que tomam as decisões, são elas que têm as ações”, destaca Tonico.



“O FUTURO, ÀS VEZES, PARECE CONTRADITÓRIO, MAS NÃO É. É MAIS DO MESMO: CONTINUAR PESQUISANDO, INOVANDO, INVESTINDO EM GENOMA, EM GENÉTICA. TEMOS MUITOS PONTOS PARA MELHORAR, MAS É COM HUMILDADE, PERSEVERANÇA, RESILIÊNCIA E DISCIPLINA QUE VAMOS SEGUIR”

Na Canto Porto, liderar é ouvir, argumentar e decidir com base em conhecimento. Uma gestão construída a muitas mãos 


Construída a muitas mãos 

A trajetória do Condomínio Rural Canto Porto mostra que não há fórmulas únicas para o sucesso, mas caminhos trilhados com disciplina, inovação e visão coletiva. Da primeira ordenha em 1988 à atual estrutura de confinamento de mais de duas mil vacas holandesas, a fazenda sempre soube transformar desafios em oportunidades. 

Os pilares que sustentam o negócio – humildade, resiliência, disciplina e foco – estão presentes em cada decisão: na gestão de equipes, no cuidado com o rebanho, na adoção de novas tecnologias e na aposta em genética de ponta. 

Essa filosofia ganhou nome próprio dentro da fazenda: “argumentocracia”. É a ideia de que o bem da Canto Porto deve estar acima dos interesses individuais e que as decisões precisam ser tomadas pela força dos argumentos, não pela hierarquia. 

Ao olhar para frente, a Canto Porto projeta um futuro de mais conhecimento, mais inovação e mais simplicidade. Simplicidade entendida não como ausência de sofisticação, mas como clareza: fazer bem-feito, todos os dias, em todos os detalhes. 

Assim, o Condomínio Rural Canto Porto segue sendo construído a muitas mãos, encontrando no coletivo a sua força e no leite a sua razão de existir.  




Compartilhar:


Autor

Adriana Vieira Ferreira

Adriana Vieira Ferreira

EDITORA EXECUTIVA
Economista, DSc. em Economia Rural


Comentários

Enviar comentário


Artigos Relacionados