Conheça a Cabanha Bridi (Vista Alegre/RS), sempre movida pela coragem de investir no novo
Em três gerações, a família Bridi, transformou um pequeno rebanho de subsistência em uma das propriedades mais tecnológicas do norte gaúcho
Lucas Bridi mostra uma foto marcada pelo tempo. Ele aparece, ainda criança, ao lado do pai e de duas vacas leiteiras, uma vermelha e outra preta e branca. São as mesmas cores vistas no rebanho atual, ainda formado por Holandesas e Jerseys – as mesmas raças que sustentavam a família naquela foto.
Em torno dessas cores, cresceu outra realidade. Na comunidade São Paulo, interior de Vista Alegre, no Médio Alto Uruguai gaúcho, a Cabanha Bridi trabalha com ordenha robotizada, reprodução avançada e cuidado rigoroso com os animais. Lucas, o filho mais velho de Cleomar Bridi, conduz a propriedade ao lado dos irmãos, Luan e Samuel. Exatamente como o pai sonhou.
O gosto pelo novo
A vocação para buscar o novo vem de longe. Em 1973, o avô de Lucas, descendente de italianos, trouxe o primeiro trator para o município. O mesmo trator vermelho permanece na entrada da fazenda. A família o preserva como lembrete de onde vem sua disposição para fazer diferente.
O avô comprava áreas que outros dispensavam. Uma delas era considerada ruim porque, diziam, não havia água. Hoje, está entre as propriedades com maior disponibilidade de água da região. Lucas cresceu escutando essas histórias e aprendendo a reconhecer possibilidades onde outros viam limitações.
“O bonito é ter um legado. Ouço as pessoas contarem que meu avô as ajudou, que era boa gente, e sinto vontade de honrar isso.”
A pecuária leiteira começou pequena, como negócio familiar: algumas vacas para o consumo, queijo feito em casa e, mais tarde, o leite resfriado para ser recolhido pelos antigos caminhões, antes da coleta a granel.
Em 1997, Cleomar começou a inseminar o rebanho. Dois anos depois, construiu uma ordenha com fosso, modelo para a região num tempo em que ainda predominava o sistema balde ao pé. Lucas acompanhou desde criança a passagem do trabalho inteiramente manual para uma estrutura que começava a mudar a rotina da família.
Cleomar também começou a fazer silagem e construiu uma pista de alimentação com canzil quando essas práticas ainda eram novidade na região. Cortar a planta inteira de milho parecia desperdício.

Visão de negócio
Em 2010, Lucas concluiu o curso técnico em agropecuária e foi fazer estágio na região de Humaitá/RS. Encontrou propriedades com três ordenhas diárias, dieta formulada, reprodução organizada e novilhas de primeira cria produzindo perto de 55 litros/dia. “Aquilo me pareceu inacreditável”, diz Lucas. “Na nossa propriedade, eu precisava juntar o leite das duas vacas que mais produziam para encher um tarro. Lá, uma única novilha dava conta sozinha.”
O estágio coincidiu com um desafio lançado pelo pai. Cleomar não queria que nenhum dos três filhos deixasse a propriedade. Aos 18 anos, Lucas procurava investir em uma atividade capaz de sustentar as famílias que ainda seriam formadas. Ele demorou a perceber que a principal possibilidade já estava diante dele. “Eu pensava em tudo o que poderia gerar renda e não percebia que já tinha uma máquina nas mãos. Quando vi aquelas propriedades, entendi o quanto o leite ainda podia crescer aqui.”

Vista aérea da Cabanha Bridi: a propriedade cresceu por etapas até chegar à estrutura atual

Lucas voltou disposto a mudar a produção, mas encontrou pouca informação disponível. Precisou visitar fazendas, observar acertos e erros e testar caminhos na própria rotina. Da dificuldade, tirou uma regra que conserva até hoje. “O começo foi muito desafi ador”, relembra. “Os produtores não costumavam compartilhar o que estava dando certo, então precisei aprender observando. Foi ali que tomei uma decisão: tudo o que eu puder fazer para ajudar outro produtor, eu vou fazer. Há caminhos que podem ser encurtados.”
Cleomar foi entregando as responsabilidades aos poucos: primeiro, as bezerras; por último, o financeiro. As instalações também avançaram em etapas. Em 2010, a família ergueu apenas a parte superior dos galpões; o dinheiro não permitia concluir o restante. Três anos depois, veio a parte de baixo. Em 2014, o rebanho finalmente ocupou a nova estrutura: eram 65 vacas, uma ordenha com seis conjuntos e uma pista de alimentação para 86 animais, com ventilação e aspersão.
O avanço e o limite
Em 2019, o rebanho já havia passado de 120 animais e o sistema de semiconfinamento tinha deixado de acompanhar o crescimento. A escolha do novo sistema foi o Compost Barn. A sala de ordenha passou de seis para nove conjuntos e a pista de alimentação foi ampliada. O novo ambiente melhorou o manejo e mostrou que o rebanho tinha capacidade para responder mais.
Em 2020, a média estava próxima de 32 litros por vaca quando surgiu a possibilidade de fazer uma terceira ordenha. A conversa não virou projeto para o mês seguinte. A família começou naquele mesmo dia. “Decidimos experimentar e começamos na hora. Se era para dar certo, precisava começar”, comenta Lucas.
Nos melhores meses, a média ultrapassou 42 litros por vaca/dia. No primeiro ano, a propriedade produziu quase 500 mil litros adicionais. Lucas faz questão de não atribuir o salto a uma única medida. Genética, alimentação, reprodução, ambiência e maior frequência de ordenha precisaram avançar juntas.
A produção aumentou, mas a rotina se tornou pesada. Era Lucas quem fazia a ordenha todos os dias. Ele saía do galpão de madrugada e ainda acompanhava partos e imprevistos. “Chega um ponto que o corpo pede socorro. Não tinha fim de semana. E havia um custo ainda maior: eu não estava vendo meu filho crescer”, recorda Lucas.
“OS PRODUTORES NÃO COSTUMAVAM COMPARTILHAR O QUE ESTAVA DANDO CERTO, ENTÃO PRECISEI APRENDER OBSERVANDO. FOI ALI QUE TOMEI UMA DECISÃO: TUDO O QUE EU PUDER FAZER PARA AJUDAR OUTRO PRODUTOR, EU VOU FAZER. HÁ CAMINHOS QUE PODEM SER ENCURTADOS”
Tecnologia para cuidar
A solução foi reorganizar o trabalho. Uma nova etapa de modernização começou em 2021 pelo bezerreiro. A família instalou um amamentador automático e construiu a nova área de pré-parto no ponto de maior circulação da propriedade. A escolha foi deliberada: do escritório, dos galpões ou no caminho entre uma tarefa e outra, sempre há alguém próximo das vacas. “É aqui que tudo começa. Quando a vaca passa bem pelo parto e se recupera adequadamente, produz melhor e emprenha novamente mais cedo”, explica Lucas.
O protocolo das bezerras começa com colostro equivalente a 10% do peso vivo, fornecido em até duas horas após o parto e por sonda quando necessário. Quando a qualidade não é sufi ciente, a fazenda recorre ao banco de colostro congelado ou ao produto em pó. Depois, os animais permanecem de 10 a 15 dias em casinhas individuais. A família observou que a permanência mais próxima dos 15 dias reduz a ocorrência de problemas respiratórios na passagem para o coletivo.
No amamentador, o leite é fornecido aquecido e dividido em quatro ou cinco mamadas diárias. A máquina acompanha a curva de cada bezerra: eleva o volume até o pico, mantém e inicia a redução gradual entre os 50 e os 72 dias. Nesse intervalo, há o aumento de consumo de ração e feno. Assim, o desaleitamento deixa de acontecer de uma só vez.
Os robôs de ordenha chegaram em 2023, com a instalação de duas unidades robóticas e a preparação da estrutura para receber uma terceira, incorporada no ano seguinte. O sistema passou a funcionar 24 horas por dia e a registrar informações de produção, frequência de ordenha, saúde e comportamento, usadas nas decisões sobre cada animal.

A ESCOLHA FOI DELIBERADA: DO ESCRITÓRIO, DOS GALPÕES OU NO CAMINHO ENTRE UMA TAREFA E OUTRA, SEMPRE HÁ ALGUÉM PRÓXIMO DAS VACAS


A dieta precisa chegar à vaca
Junto com os primeiros robôs veio o aproximador automático de alimento. O equipamento percorre a pista uma vez a cada hora. Antes, mesmo com Lucas retornando ao galpão durante a noite, a comida era aproximada no máximo seis vezes. “Com o equipamento, temos a segurança de que a dieta formulada pelo nutricionista permanece ao alcance das vacas”, ressalta Lucas.
Nem todo alimento que sobra no cocho é excesso; parte só ficou fora do alcance das vacas. Todas as manhãs, o remanescente é retirado, pesado e registrado. Somente depois desse controle é que se avalia a necessidade de ajustar a quantidade fornecida. Sem essa leitura, corre-se o risco de reduzir a dieta por engano ou de manter um excedente que aquece e perde qualidade, resultando no desperdício de mineral, ração e farelo.
O cuidado com a alimentação faz parte de um trabalho nutricional iniciado em 2014, hoje conduzido em parceria com a Agroceres Multimix. A empresa participa da formulação das dietas, acompanha a resposta do rebanho e fornece o mineral utilizado na Cabanha Bridi. As visitas ocorrem semanalmente ou a cada 15 dias, conforme a necessidade, e incluem a revisão do que está funcionando, a identificação de desvios e a discussão de ajustes antes que eles cheguem ao cocho.
Lucas valoriza recomendações que caibam nas possibilidades da fazenda. A dieta é formulada a partir dos ingredientes disponíveis e do investimento que a atividade comporta, sem acrescentar custos que a produção não consiga pagar. “Gosto de trabalhar com o que temos à disposição. Não adianta incluir ingredientes e elevar o custo quando a rentabilidade já está apertada”, afirma ele.
Cada ajuste é discutido com a família e acompanhado no rebanho. Não basta olhar apenas para os litros: as vacas precisam emprenhar, e o custo da alimentação deve permanecer sob controle. Essa leitura acompanhou o salto obtido com a terceira ordenha e ganhou mais detalhes quando os robôs passaram a fornecer dados de cada animal. “As vacas passaram a produzir mais, a emprenhar e a dar lucro. Quando conseguimos reduzir o custo e aumentar a produção, sobrou mais no fim da conta”, destaca Lucas.

A dieta da Cabanha Bridi é formulada com os ingredientes disponíveis na propriedade, em parceria com a Agroceres Multimix

Vacas da Cabanha Bridi identifi cadas para o sistema de ordenha robotizada
O avanço entre gerações
O melhoramento genético ganhou novo impulso no início da década passada, depois de um incentivo de Cleomar que Lucas ainda guarda: “Se eu fosse você, experimentava”. Era hora de dar um choque na genética.
Os primeiros resultados apareceram no bezerreiro, com animais cada vez mais uniformes. “Antes, em cada lote, havia a terneira boa, a mediana e aquela que fi cava para trás. Com o trabalho genético, essa diferença diminuiu. Hoje eu faço um desafio: entre no bezerreiro e tente encontrar a terneira ruim do lote”, comenta Lucas.
Desde 2016, a seleção foi intensifi cada com o uso de touros do Canadá e dos Estados Unidos. Todos os animais passam por testes genômicos, com amostras enviadas ao exterior, e os acasalamentos são dirigidos. Os dados registrados pelos robôs ajudam a acompanhar os resultados também na produção. “Esperamos que as fi lhas alcancem, já na primeira lactação, de 85% a 90% da produção das mães. Houve um período em que as novilhas chegaram a 54 litros, enquanto as vacas produziam 52. Foi a confi rmação de que estávamos no caminho certo”, explica Lucas.


Os três irmãos – Lucas, Luan e Samuel – dividem as funções e realizam o desejo do pai de vê-los juntos
Três irmãos, uma missão
O desafio de Cleomar se cumpriu. Lucas assumiu a gestão da propriedade: cuida dos bancos, dos documentos, dos investimentos; e das lavouras, da compra dos insumos à colheita. Samuel, o caçula, é responsável pelas bezerras, pela reprodução e pelo acompanhamento veterinário, funções que recebeu gradualmente, como ocorreu com Lucas na transição conduzida pelo pai. Luan se dedica aos trabalhos externos, como o feno, os caminhões e a compra de maravalha. Também cuida das redes sociais da cabanha. Cleomar permanece presente todos os dias. Pela manhã, é ele quem assume o trator para revolver a cama do Compost Barn.
A quarta geração já circula pela fazenda. O pequeno Lucas, de 4 anos, percorre os caminhos da propriedade inventando brincadeiras – os mesmos caminhos que o pai conheceu ainda menino, acompanhando o trabalho dos funcionários. Maria Clara, de 2 anos, pega os visitantes pela mão para mostrar as bezerras.
Se um dia Lucas fizer aos filhos o mesmo pedido que Cleomar fez aos três irmãos, talvez nem precise esperar pela resposta. Ela já cresce ali, entre uma vaca vermelha e outra preta e branca

Autor
Adriana Vieira Ferreira
EDITORA EXECUTIVA
Economista, DSc. em Economia Rural

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