Conheça a Agropecuária Carola e Machado (Coromandel/MG), o relicário da produção leiteira
Na Agropecuária Carola e Machado, em Coromandel/ MG, a trajetória que começou com a ocupação pioneira do cerrado evolui para um sistema produtivo conduzido com base em dados
Um recorte de jornal, amarelado pelo tempo e preservado na moldura, materializa algumas das palavras de Sebastião Antônio da Silva, conhecido como Sebastião Carola. Trata-se de uma matéria com o título “Produtor Rural do Mês”, publicada na década de 1980. No ritmo de perguntas e respostas, ele deixava em evidência o seu olhar para aquelas terras antes que outros entendessem o potencial do cerrado: “Sendo considerado pioneiro na região, conseguimos produzir pastagens […] que mantêm um rebanho estável […] e (esse rebanho) me rende uma média diária de mais ou menos 2.000 litros de leite, obtidos da ordenha de 800 matrizes”.
Essa produtividade e esse perfil de rebanho ficaram no tempo, assim como a presença física de Sebastião Carola. O que permanece é o perfil das escolhas que orientaram a construção da fazenda, ainda reconhecível nos valores e na coragem, características da gestão dos netos Henrique e Fernando Machado e Silva. Os números atuais da Agropecuária Carola e Machado, em Coromandel / MG, certamente arrancariam um sorriso orgulhoso do avô.
“Atrás do filho, vem o pai e o avô”
Antes de existir a Agropecuária Carola e Machado como ela se apresenta hoje, houve um homem disposto a chegar antes. Sebastião Carola começou negociando queijos de fazenda em fazenda, num tempo em que o trabalho dependia mais do tino comercial e da resistência. Chegava antes dos outros compradores. Foi assim que apurou o olhar e reconheceu valor onde quase ninguém via. Apostou no cerrado quando aquelas terras ainda não carregavam o prestígio produtivo que ganhariam mais tarde.
Não é preciso dizer muito para entender esse começo. Há, nessa origem, esforço e firmeza de decisão que ajudaram a definir o rumo da família. Casado, teve três filhos. Enfrentou perdas duras demais e cedo demais, dessas que rompem a ordem esperada da vida. Os três filhos faleceram, em épocas diferentes, mas todos por volta dos 50 anos, por problemas cardíacos. Ainda assim, a fazenda seguiu. E seguiu sem romper com o traço inicial: a seriedade diante do trabalho, a proximidade com a lida e a grande paixão pela pecuária leiteira.
Com o falecimento de Sebastião Carola, os netos assumiram a partilha dos bens. Henrique e Fernando conduzem a propriedade que passou a se chamar Agropecuária Carola e Machado. Esse pedaço de chão ainda guarda um modo de ser e de ver a vida. Está no compromisso com a operação, na transferência gradual de responsabilidades para a equipe e na confiança construída a ponto de a fazenda seguir seu ritmo com autonomia.
“O horizonte anuncia”
A estrutura societária herdada exigiu reorganização. Eram muitos envolvidos, diferentes interesses, patrimônio relevante e dívidas acumuladas. Houve momentos de restrição severa de caixa. A continuidade, mais uma vez, dependeu de decisão e da dedicação integral à construção de um novo projeto.
A reestruturação começou a ganhar forma a partir de 2013, com a consolidação da Agropecuária Carola e Machado sob a condução direta dos dois irmãos: Henrique, que assumiu a agricultura, e Fernando, médico-veterinário, que agregou à produção o conhecimento técnico. Guilherme, o irmão mais velho, não participa diretamente do negócio.
A partir de 2015, um novo eixo se impôs: as decisões passaram a ser orientadas por leitura econômica e financeira, e não apenas por critérios técnicos. Foi a primeira vez que o negócio foi estruturado para entender, com precisão, custo, margem e resultado. Esse movimento redesenhou a forma de conduzir a fazenda.
“A presença da consultoria da Rehagro mudou a forma de condução do negócio”, conta Fernando. “A gente não tinha noção se ganhava ou perdia dinheiro. Quando começamos a trabalhar com orçamento e entender os números, ficou claro que não era o mercado que estava tão ruim nem a nossa estrutura. O problema era o passivo acumulado.”
A consolidação do foco do negócio nos resultados econômicos e financeiros foi reforçada com a presença de Rebeca Pauletti, esposa de Fernando e responsável pela gestão financeira. “A Rebeca trouxe ainda mais disciplina para essa parte. Ela acompanha tudo muito de perto e não deixa passar nada, o que nos dá segurança para decidir melhor”, afirma Fernando.
Entre os elementos que sustentaram essa transição, a genética ocupou um papel decisivo. O rebanho atual tem origem naquele que foi formado pelo avô, que já carregava uma base produtiva sólida. No decorrer dos anos, esse material genético foi sendo trabalhado por meio da reprodução e da seleção contínua.
Esse ponto se torna ainda mais evidente quando o sistema evolui. A partir da adoção de melhorias estruturais – com destaque para a implantação do Compost Barn, iniciada no final de 2018 e em operação desde 2019 –, o rebanho respondeu rapidamente. “Até então, a produção permanecia estável, em torno de 16 litros por vaca ao dia, com pouca variação ao longo dos anos. Com a nova estrutura, o que antes girava em torno de 13 litros no verão passou a superar 30 litros no mesmo período, alcançando médias mensais acima de 40 litros por vaca/dia, com picos de 43,3 litros”, explica Fernando.
Os ganhos de produtividade vieram da capacidade de expressão de um material genético preexistente. O que se observa é resultado de uma base bemconstruída, associada a manejo ajustado e ambiente adequado. O avanço segue contínuo, com incrementos mensais que, somados, sustentam um crescimento próximo de 10% na produtividade e de cerca de 20% no volume total de leite.
A intensificação do sistema trouxe uma variável que não pode ser ignorada: o volume de dejetos. A resposta veio na forma de investimento. Foi instalado recentemente um biodigestor, que começou a operar faz pouco tempo. Por meio desse sistema, o resíduo é transformado em gás, com potencial para reduzir, de forma significativa, a dependência energética da operação.
A expectativa é alcançar entre 70% e 80% de autonomia energética, com o biogás assumindo papel central e a energia fotovoltaica, já existente na fazenda, atuando de forma complementar.
O processo, no entanto, não elimina o desafio. O biodigestor trata, mas não encerra o ciclo. O material segue para uso na lavoura, e a próxima etapa já está em avaliação, com possibilidades de fertirrigação e integração mais direta com as áreas agrícolas.

OS GANHOS DE PRODUTIVIDADE VIERAM DA CAPACIDADE DE EXPRESSÃO DE UM MATERIAL GENÉTICO PREEXISTENTE. O QUE SE OBSERVA É RESULTADO DE UMA BASE BEMCONSTRUÍDA, ASSOCIADA A MANEJO AJUSTADO E AMBIENTE ADEQUADO



O biodigestor integra o sistema ao transformar dejetos em energia, com potencial para ampliar a autonomia energética da fazenda
Gestão orientada por dados
Os colares de monitoramento SenseHub Dairy, da MSD Saúde Animal, integram a rotina da Agropecuária Carola e Machado. Em uma operação estruturada, com decisões orientadas por dados, a ferramenta ampliou a capacidade de leitura do rebanho, com cerca de 600 vacas em lactação, especialmente nos aspectos ligados à sanidade e à reprodução.
Com o monitoramento contínuo, alterações de atividade e variações de padrão são registradas em tempo real. O que antes dependia exclusivamente da observação direta passa a ser identificado com antecedência, permitindo intervenções mais rápidas e melhor sincronização dos manejos.
Na prática, os colares encurtam a distância entre o que acontece no lote e a tomada de decisão. “Os números obtidos com os colares organizam o manejo. Eles indicam o que precisa ser feito, tanto na sanidade quanto na reprodução, antes mesmo de isso se tornar evidente no lote”, afirma Fernando.
O impacto aparece de forma complementar. Na sanidade, permite identificar desvios antes da manifestação clínica, reduzindo a gravidade dos quadros e aumentando a capacidade de recuperação dos animais. Na reprodução, o acompanhamento contínuo do ciclo torna mais preciso o momento da inseminação e amplia a capacidade de intervenção sobre vacas que não “ciclaram” ou retornaram antes do diagnóstico de gestação.
Bruno Andrade, consultor de pecuária da MSD Saúde Animal, resume esse efeito: “O colar direciona o trabalho da equipe, potencializa a atuação dos médicos-veterinários e permite agir antes, tanto na saúde quanto na reprodução. Isso melhora a taxa de serviço e aumenta a capacidade de manter mais animais produtivos no rebanho.”
Em uma operação com grande volume de animais e três ordenhas diárias, manter o padrão de manejo durante todos os turnos é um desafio. Nesse contexto, a tecnologia organiza o fluxo de trabalho e direciona a mão de obra.
Na fazenda, os colares também acompanham vacas secas e animais em pré-parto, fases críticas em que o conhecimento do comportamento impacta diretamente a saúde, a fertilidade e o desempenho futuro do rebanho.
OS COLARES DE MONITORAMENTO SENSEHUB DAIRY, DA MSD SAÚDE ANIMAL, INTEGRAM A ROTINA DA AGROPECUÁRIA CAROLA E MACHADO. EM UMA OPERAÇÃO ESTRUTURADA, COM DECISÕES ORIENTADAS POR DADOS, A FERRAMENTA AMPLIOU A CAPACIDADE DE LEITURA DO REBANHO, COM CERCA DE 600 VACAS EM LACTAÇÃO, ESPECIALMENTE NOS ASPECTOS LIGADOS À SANIDADE E À REPRODUÇÃO
Pura semente
“A lavoura responde diretamente ao leite. ”Henrique conduz essa frente com a percepção de que a agricultura é suporte e ganha escala. “A primeira coisa que a gente faz é priorizar o leite. O milho ocupa a melhor janela de plantio, no início de novembro, pensado para silagem e qualidade de dieta. A soja entra depois, como segunda cultura.”
A escolha define o desempenho do sistema. Ao antecipar o plantio do milho, a fazenda garante volume e qualidade de alimento, reduzindo risco ao longo do ano. A soja, embora tenha crescido em área, hoje já superior à destinada à silagem, não altera essa hierarquia.
Com o tempo, a lavoura também evoluiu tecnicamente. A escolha de híbridos passou a considerar a produção de grãos; a adubação foi ajustada; a produtividade avançou. Em algumas áreas, os resultados já superam 80 sacas por hectare, reflexo de um manejo mais preciso.
Henrique administra essa expansão totalmente alinhado com Fernando: crescer, desde que o sistema sustente.


Com três ordenhas diárias, a rotina exige organização para sustentar desempenho e regularidade produtiva
Desde o início
O cuidado com o bezerreiro passou por mudanças estruturais nos últimos anos. Até 2018, o sistema adotado era o tropical. A primeira alteração veio em 2020, com a implantação de casinhas suspensas – ao todo, 48 unidades, organizando melhor o manejo dos animais mais jovens.
O avanço seguinte foi mais recente. Em 2025, foi construído um novo bezerreiro, em baia no chão, com capacidade para 96 bezerras. A mudança de estrutura foi acompanhada por ajustes na condução dos animais, especialmente na alimentação.
A revisão da dieta veio depois de uma viagem aos Estados Unidos, como parte das iniciativas do Dairy Club, da MSD Saúde Animal. A partir dessa experiência, que promoveu palestras técnicas e visitas a propriedades leiteiras, Fernando entendeu que, para a realidade da fazenda, seria ideal retirar a silagem da alimentação das bezerras até os 5 meses de idade e inserir ração composta por feno de alta qualidade, cerca de 5% de caroço de algodão e alimento concentrado.
Segundo Fernando, o ganho de peso mudou de forma significativa. A resposta apareceu primeiro com a nova estrutura e se intensificou a partir dos ajustes na dieta.


Adriano Cassimiro de Castro, gerente da Agropecuária Carola e Machado, acompanha a rotina operacional e o manejo diário que sustentam o desempenho da atividade leiteira
Prosperar e crescer
Se há uma coisa que os irmãos Henrique e Fernando sabem bem é que a vida e, portanto, os negócios não operam em linha reta. Talvez por isso a busca seja por equilíbrio entre o trabalho e a dedicação à família; entre crescer e sustentar o que foi construído.
Embora a fazenda tenha mudado de patamar e o potencial produtivo do rebanho tenha condições propícias para se expressar, o que define o momento atual é a forma como escolhem crescer.
A experiência recente, bem como a observação de outros sistemas, impõe alguma cautela. “A gente viu fazendas dobrando o número de vacas para ficar no mesmo lugar”, comenta Fernando. Por isso, o crescimento é conduzido com medida. O ritmo acompanha o que a fazenda sustenta. Os avanços virão sustentados por estrutura e ajuste fino.
Quando o sistema produtivo funciona, o crescimento passa a ser condição para permanecer no setor. Ainda assim, há um limite e ele não é apenas técnico. “Nosso objetivo não é crescer por crescer. É manter o que a gente tem”, afirma Fernando.
Relicário é o lugar onde se guardam coisas preciosas, aquilo que merece ser preservado e atravessar o tempo. A Agropecuária Carola e Machado cumpre essa função. Conserva valores, força de trabalho e dedicação ao negócio, sem perder de vista aquilo que a sustenta: as relações familiares.
Se a origem foi edificada a partir do movimento de chegar antes e reconhecer valor onde ainda não havia, essa lógica hoje se traduz em outra forma de condução: sustentar o que foi construído, com atenção ao equilíbrio e ao controle daquilo que está ao alcance. A sintonia entre os irmãos Henrique e Fernando é reflexo direto dessa base. É nela que se apoia a continuidade da fazenda e a solidez de um projeto conduzido com responsabilidade e respeito à própria história.

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Autor
Adriana Vieira Ferreira
EDITORA EXECUTIVA
Economista, DSc. em Economia Rural
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