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Genética

Conheça estratégias essenciais para enfrentar o estresse térmico nas regiões tropicais

Seleção genética, dados robustos e tecnologias inovadoras são as chaves para enfrentar o estresse térmico e melhorar a eficiência produtiva e reprodutiva do rebanho leiteiro nas regiões tropicais

Conheça estratégias essenciais para enfrentar o estresse térmico nas regiões tropicais

A crescente frequência de ondas de calor no Brasil tem provocado perdas signifi cativas na produção leiteira, com impacto direto no desempenho animal e na rentabilidade das propriedades. Uma característica marcante dos sistemas de produção de leite nacional é o predomínio do regime alimentar a pasto. 

Para contornar os desafios climáticos impostos nesse tipo de sistema em regiões tropicais, duas estratégias podem ser utilizadas: as modificações estruturais do ambiente de produção e a identificação de animais tolerantes ao estresse térmico e seu uso em sistemas de acasalamento. 

As modificações estruturais do ambiente, apesar de promoverem condições de conforto térmico no local onde são instaladas, geralmente requerem alto investimento, constante manutenção e não são herdáveis geneticamente pelos animais. 

Por sua vez, a seleção genética para termotolerância provavelmente é a estratégia mais viável e efetiva, pois representa uma ferramenta que pode melhorar de forma permanente a tolerância do estresse térmico dos animais. Para enfrentar essas condições adversas, estudos inovadores sobre estresse térmico e qualidade do leite estão sendo desenvolvidos na raça Girolando.

Calor: vilão silencioso da produtividade 

O estresse térmico é causado principalmente pela combinação de altas temperaturas e umidade relativa do ar, prejudicando diretamente o consumo de alimento, a produção de leite, a reprodução e até a saúde dos animais. 

Uma importante fonte de informação para avaliar o conforto ou o desconforto (estresse térmico) do animal em relação ao ambiente e, ou, ao clima, é o índice de temperatura e umidade (ITU), o qual combina em uma única variável os valores de temperatura e de umidade relativa do ar. O ITU desempenha papel expressivo na caracterização de diferentes ambientes produtivos e serve como um gradiente ambiental para avaliar o desempenho animal nas diferentes combinações de temperatura e umidade.  

Estudos realizados com base em mais de 650 mil registros de produção leiteira e cerca de 21 mil animais genotipados mostraram que vacas em estresse térmico podem deixar de produzir até 2.000 kg de leite por lactação, o que representa perdas de até 34% da produção e impactam diretamente a rentabilidade da atividade. 

Genética a serviço do produtor 

A partir do banco de dados coletados pelo Serviço de Controle Leiteiro Oficial da raça Girolando, foi possível realizar análises e identificar limites de conforto térmico específicos para cada composição racial do Girolando.

POR SUA VEZ, A SELEÇÃO GENÉTICA PARA TERMOTOLERÂNCIA PROVAVELMENTE É A ESTRATÉGIA MAIS VIÁVEL E EFETIVA, POIS REPRESENTA UMA FERRAMENTA QUE PODE MELHORAR DE FORMA PERMANENTE A TOLERÂNCIA DO ESTRESSE TÉRMICO DOS ANIMAIS  




Os resultados revelaram: 
Vacas 7/8H: tolerância até ITU 77;
Vacas 3/4H: até ITU 78;
Vacas 5/8H, 1/2H e 1/4H: até ITU 80;
Raça Holandês puro-sangue: tolerância até ITU 74. 


Independente da composição genética, os animais Girolando toleram, no mínimo, 5ºC a mais do que animais da raça Holandês. 

No entanto, a diferença pode chegar a 10ºC quando comparamos os limites extremos de tolerância ao calor. Essa diferença é extremamente significativa quando se trata de sistemas de produção a pasto, pois animais Girolando toleram temperaturas mais altas e umidade mais baixa, quando comparadas a raça Holandês. A composição racial 5/8H merece destaque especial, pois lidera, juntamente com os animais 1/2H e os 1/4H, a tolerância ao estresse térmico. 

Além dos limiares de conforto térmico, foi possível predizer o valor genético dos touros Girolando no gradiente ambiental — considerando todas as combinações de temperatura e umidade — e classificá-los em três categorias:

• Robusto: touros cujas filhas mantêm a produção estável em qualquer ambiente; 

• Sensível +: touros cujas filhas diminuem a produção em clima quente ou mais úmidos; 

• Sensível –: touros cujas filhas diminuem a produção em clima frio. 

Essas informações foram incorporadas ao Sumário de Touros Girolando a partir de 2022 e servem como ferramenta auxiliar na seleção dos animais, possibilitando o uso de um genótipo mais adequado às diferentes regiões do Brasil. Isso significa que a escolha dos touros deve continuar sendo feita com base na produção de leite e demais características de interesse, utilizando a informação sobre tolerância ao estresse térmico como critério suplementar na tomada de decisão.


INDEPENDENTE DA COMPOSIÇÃO GENÉTICA, OS ANIMAIS GIROLANDO TOLERAM, NO MÍNIMO, 5ºC A MAIS DO QUE ANIMAIS DA RAÇA HOLANDÊS 

Genética adaptada ao trópico: fruto de seleção direcionada, o Girolando reúne rusticidade, produtividade e resistência ao calor — qualidades essenciais para a pecuária leiteira em clima tropical 


Se liga! O Controle Leiteiro Oficial da raça Girolando é realizado por técnicos credenciados pela Associação Brasileira dos Criadores de Girolando. Eles coletam dados de produção e amostras de leite, fundamentais para garantir avaliações genéticas confiáveis e decisões mais precisas no rebanho


Qualidade do leite também entra na conta 

Além da tolerância ao calor, outro avanço importante foi a inclusão, no Sumário de Touros, da primeira avaliação genética da qualidade do leite da raça Girolando, lançada oficialmente em 2023. Os dados foram coletados pelo Serviço de Controle Leiteiro Oficial da raça Girolando, desde 2008. 

Foram consideradas características como teor e produção de gordura e proteína, além da contagem e escore de células somáticas - indicadores fundamentais da qualidade do leite e saúde da glândula mamária. Até 2023, as médias das características ligadas à qualidade do leite da raça e, por composição genética, disponíveis na literatura, utilizavam informações oriundas de um pequeno número de animais e de propriedades. 

A análise da Tabela 1 mostrou que a composição racial impacta significativamente a qualidade do leite. Nesse sentido, é importante ter claro o objetivo de criação (volume ou qualidade) e aproveitar essa vantagem competitiva, especialmente para produtores que priorizam qualidade, rendimento e bonificação por litro de leite.  




A seleção de animais para qualidade do leite gera benefícios para toda a cadeia produtiva. Além das normativas vigentes que regem a qualidade do leite, os benefícios estão relacionados à melhor gestão da propriedade, saúde animal, política de preços (precificação, bonificação e incentivo), rendimento industrial e relação direta com o tempo de prateleira dos produtos. No entanto, para usufruir de todos os benefícios da informação, é necessário um contínuo e intenso trabalho de coleta de dados. 

Ferramentas genômicas: um novo horizonte para a pecuária tropical 

A incorporação de novas metodologias e tecnologias permite identificar com maior acurácia animais com maior potencial produtivo, reprodutivo e tolerante ao calor, promovendo um avanço significativo em produção de leite em clima tropical. 

Com essas informações em mãos, o produtor pode: 

• Selecionar touros mais adaptados à sua realidade climática; 

• Reduzir perdas produtivas com vacas mais tolerantes ao calor; 

• Melhorar a qualidade do leite e aumentar os ganhos com bonificações; 

• Contribuir para uma pecuária mais sustentável, eficiente e resiliente frente às mudanças climáticas.


A vaca do futuro já está no campo. A raça Girolando representa o que há de mais moderno na pecuária tropical. Com ciência, é possível produzir mais, respeitando o bem-estar dos animais e o meio ambiente. 

A seleção para tolerância ao calor, além de ser uma ferramenta de bem-estar animal, contribui para sistemas mais sustentáveis e com menor emissão de metano por litro de leite, em sintonia com os compromissos ambientais da pecuária nacional. 


A VACA DO FUTURO JÁ ESTÁ NO CAMPO. A RAÇA GIROLANDO REPRESENTA O QUE HÁ DE MAIS MODERNO NA PECUÁRIA TROPICAL. COM CIÊNCIA, É POSSÍVEL PRODUZIR MAIS, RESPEITANDO O BEM-ESTAR DOS ANIMAIS E O MEIO AMBIENTE

Referências 

NEGRI, R., et al. Inclusion of bioclimatic variables in genetic evaluations of dairy cattle. Asian-Australasian Journal of Animal Sciences, v. 34, p. 163-171, 2021. NEGRI, R., et al. Genomic-enhanced breeding values for heat stress tolerance in Girolando cattle in Brazil. Livestock Science, v. 278, p. 105360, 2023  

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