Conheça a Fazenda Brejo Alegre (Itaúna/MG) onde a tecnologia traz mais precisão ao trabalho e melhora os resultados
O tempo certo da tecnologia
Numa manhã de domingo, Bruna Silper caminhava pela Fazenda Brejo Alegre quando um detalhe a fez parar: o silêncio. Pouco tempo antes, encontrar as vacas no cio exigia observar uma a uma; cerca de 500 delas. Naquele dia, o rebanho seguia direto para o galpão após a ordenha. Agora, quem apontava os animais que precisavam de atenção era o colar Alta COW WATCH, tecnologia desenvolvida pela Nedap. A quietude dizia, melhor do que qualquer número, o que havia mudado ali.
Quem narra a cena é a própria Bruna e ela sabe reconhecer uma boa história. Durante alguns anos, ocupou o lugar de quem ouvia, apurava e escrevia sobre os projetos de outros produtores – época em que atuava como editora da Revista Leite Integral. Receber nossa equipe em sua fazenda, em Itaúna/MG, teve o sabor de reencontro com os papéis invertidos: desta vez, era ela quem abria as porteiras para apresentar o projeto que ajudou a construir.
Uma fazenda construída a muitas mãos Médica-veterinária, com doutorado no exterior, Bruna dedicou seus estudos ao monitoramento individual de vacas; o mesmo tema que, anos depois, organizaria uma parte importante do seu trabalho na pecuária leiteira. A carreira acadêmica chegou a ser uma possibilidade, mas o que a movia era outra coisa: ver a tecnologia funcionando nas propriedades. “Vivenciei o potencial da tecnologia nas pesquisas acadêmicas e queria levar isso aos produtores”, recorda. Depois, acumulou experiência em grandes empresas do setor.
Mais tarde, veio a mudança, e por um motivo: a pandemia. A fazenda da família era o lugar óbvio para atravessar o período. O plano era ficar três meses e pensar nos próximos passos. “Foi vivenciando o dia a dia da fazenda que decidi ficar”, diz Bruna. A escolha foi formalizada como se contrata qualquer profissional. “Assumi um compromisso, com tempo de dedicação combinado, responsabilidades definidas e remuneração.”
De um lado, o conhecimento técnico e a vontade de executar de Bruna. Do outro, a coragem de investir e a curiosidade de Pedro Nunes, seu padrasto e dono da Brejo Alegre desde 1998. Médico de formação, ele comprou a propriedade movido por um sonho antigo de produzir leite. Primeiro, o investimento em vacas Girolando. Depois, nas Holandesas puras e registradas, que chegaram quando a atividade ainda começava a ganhar estrutura.
A visão de negócio tomou forma ao contratar o serviço de consultoria Rehagro. Juntos, concluíram que aquele espaço tinha vocação para o leite a pasto. Vieram as primeiras novilhas e a irrigação em malha. No começo dos anos 2000, o plano mirava 200 vacas em lactação.
A CARREIRA ACADÊMICA CHEGOU A SER UMA POSSIBILIDADE, MAS O QUE A MOVIA ERA OUTRA COISA: VER A TECNOLOGIA FUNCIONANDO NAS PROPRIEDADES

Uma mudança de sistema
Por cerca de 15 anos, o pasto sustentou a fazenda e formou o rebanho que ocupa os galpões. Era lucrativo, mas tinha limites: o calor castigava as vacas e as chuvas prejudicavam os cascos e os úberes.
A mudança começou em setembro de 2015. Interessado em conhecer outras realidades, Pedro visitou fazendas que usavam o Compost Barn e resolveu implantar o sistema na Brejo Alegre. Aproveitou a pista de trato de um dos módulos de pastejo e ergueu o primeiro barracão. “A mastite e os problemas de casco reduziram. A produção aumentou, em média, 10 litros de leite por vaca ao dia”, conta Pedro. Dali em diante, cada pista de trato deu lugar a um novo barracão.


O Compost Barn concluído em 2025 abriga parte das vacas em lactação
A Brejo Alegre não tem a cara de uma fazenda desenhada na prancheta; suas instalações guardam as etapas do próprio crescimento. “É um sonho construir uma fazenda do zero, toda planejada. Não foi a nossa realidade. Aqui, a gente vai acompanhando a história do crescimento”, afi rma Bruna.
No caminho vieram o software de rebanho, o controle financeiro mensal – ativo há mais de uma década – e os pivôs de irrigação. Também investiram na compra de 250 hectares de outras fazendas para garantir alimento volumoso de qualidade.
Concluído em 2025, o barracão mais recente foi o primeiro planejado inteiramente para o sistema e abriga 400 vacas em produção.
Uma escolha estudada
A ideia dos colares de monitoramento rondava a propriedade havia tempo, e Bruna faz questão de uma distinção: a necessidade da tecnologia não nasceu de um problema. Os índices estavam bons e buscava-se aperfeiçoar o manejo, dar informações mais precisas à equipe e conter e examinar menos vacas todos os dias.
A nova sala de ordenha trouxe um portão de separação. Somados os alertas dos colares à seleção automática, seria possível tirar do fluxo apenas os animais que de fato precisassem de atendimento. Para Bruna, este era o ponto decisivo: dar atenção individual às vacas sem mexer com o rebanho inteiro.
A experiência acadêmica e profi ssional de Bruna ajudou a fixar os critérios. O sistema precisava de uma base ampla de dados, alertas confi áveis, integração com os programas da fazenda e durabilidade, sem esquecer a disponibilidade de peças, a implantação e o suporte. “Eu queria um equipamento em que pudesse realmente confi ar no alerta, e essa confi ança vem da base de dados: quanto mais informações o sistema reúne e processa, maior pode ser a precisão”, explica Bruna.
A escolha foi pelo sistema de monitoramento Alta COW WATCH, tecnologia criada e desenvolvida pela Nedap, empresa holandesa consolidada mundialmente, que começou a ser trabalhada pela Alta Genetics no Brasil em 2024. A relação estabelecida com a empresa também foi determinante. “Não era a Alta Genetics trazendo um equipamento que ninguém conhecia, nem uma empresa desconhecida trazendo uma tecnologia na qual confi ávamos. A combinação dessas duas coisas – empresa e tecnologia conhecidas e confi áveis – foi importante”, resume Pedro. Para ele, o valor de uma tecnologia não termina na compra: depende de como a fazenda vai incorporá-la à rotina.
No mercado brasileiro, a presença da Nedap se estrutura por meio de parcerias fortes, como com a Alta Genetics. O modelo privilegia a integração tecnológica e a proximidade com o produtor, permitindo que o monitoramento seja incorporado às rotinas já consolidadas nas fazendas, sem rupturas operacionais. A atuação da empresa no setor se sustenta por tecnologias de monitoramento individual, com destaque para os colares que acompanham, de forma contínua, o comportamento e alguns indicadores fisiológicos das vacas.
Para Anna Luiza Belli, gerente da Nedap Brasil, essa presença de longo prazo explica a relação de confiança construída com o produtor rural: “Na pecuária, especialmente quando falamos de tecnologias de longo ciclo de vida, confiança é o elemento central. O produtor sabe que está adotando um sistema que fará parte da rotina da fazenda por muitos anos”.

O colar Alta COW WATCH, tecnologia da Nedap, reúne, em um só lugar, informações de cio e de saúde
“EU QUERIA UM EQUIPAMENTO EM QUE PUDESSE REALMENTE CONFIAR NO ALERTA, E ESSA CONFIANÇA VEM DA BASE DE DADOS: QUANTO MAIS INFORMAÇÕES O SISTEMA REÚNE E PROCESSA, MAIOR PODE SER A PRECISÃO”
Tecnologia colocada à prova
A implantação dos colares Alta COW WATCH seguiu um roteiro. A ordenha nova entrou em operação em setembro de 2024; os colares, cerca de 15 dias depois. A equipe da Alta Genetics instalou os dispositivos e, propositalmente, nada foi alterado na rotina. O aplicativo chegou aos celulares da equipe com uma única orientação: observar, sem deixar de trabalhar como sempre.
Lucas Oliveira, médico-veterinário, conduziu a transição ao lado da equipe, liderada por Geraldo Assis, gerente da Brejo Alegre e de Fábio de Sousa, responsável pela reprodução. Em vez de simplesmente aposentar o bastão, Lucas propôs uma comparação. “Decidimos fazer a transição devagar. Durante um mês, anotamos quais vacas apareciam em cio pelo colar, quais eram identifi cadas pelo bastão e quais apareciam pelos dois métodos”, conta.
O levantamento mostrou que 85% dos animais foram identifi cados pelas duas formas. Outros 7% apareceram somente pelo bastão; e 8%, apenas pelo colar. Com os números em mãos, a equipe ganhou confiança para mudar. Primeiro, o bastão caiu para duas vezes por semana. Depois, ficou só no dia do manejo reprodutivo. Por fim, saiu de cena.
O uso dos colares mudou o ponto de partida da decisão. Cada alerta de cio chega com o melhor horário para inseminar aquela vaca, a probabilidade de fertilidade daquele cio e o comportamento do animal nas horas anteriores. A equipe passou a trabalhar com um conjunto de informações, sem prender o rebanho e sem gastar a manhã inteira nessa função.
A adesão se mediu em novas compras. As vacas em produção estão todas monitoradas e mais 100 colares foram adquiridos para as novilhas em reprodução, categoria que Bruna decidiu incluir depois de acompanhar os resultados.
Do alerta à conduta
Com os colares Alta COW WATCH, o portão de separação passou a organizar o dia. Cada dia da semana tem sua programação – secagem, reprodução, protocolos, mudança de lote. Fora isso, todo animal em cio ou com alerta importante de saúde é separado para avaliação.
Os alertas chegam pelo aplicativo, nos celulares da equipe, e a plataforma conversa com o DairyComp, o software de gestão da fazenda. Assim, o comportamento de cada vaca é cruzado com seu histórico, sem sistemas isolados nem lançamento repetido de dados. “A integração era uma exigência. Eu não queria um equipamento que criasse retrabalho para a equipe. O sistema precisava ‘conversar’ com o software que já usávamos”, explica Bruna.
Diante de um aviso, a equipe abre o cadastro da vaca e consulta produção de leite, contagem de células somáticas, estágio da lactação e histórico sanitário para guiar a conduta a ser tomada junto com o exame clínico. O alerta não determina o tratamento. Aponta qual animal merece atenção. O exame e a decisão continuam com as pessoas.
“A INTEGRAÇÃO ERA UMA EXIGÊNCIA. EU NÃO QUERIA UM EQUIPAMENTO QUE CRIASSE RETRABALHO PARA A EQUIPE. O SISTEMA PRECISAVA ‘CONVERSAR’ COM O SOFTWARE QUE JÁ USÁVAMOS”
No início, Lucas acompanhava a leitura dos avisos todos os dias, para ajudar os funcionários a entender o que o sistema mostrava e o que exigia pressa. Aos poucos, o conhecimento passou para a equipe. “No começo, acompanhávamos os alertas todos os dias para aprender o que fazer com cada animal. Depois, fomos passando isso para a equipe. Hoje, eles mesmos olham, avaliam o que precisa ser examinado e nos chamam quando é necessário”, conta Lucas.
A tecnologia não elimina a observação direta. Lucas faz questão de continuar caminhando entre as vacas e confrontando os dados com o que encontra nos lotes. O aplicativo aponta onde olhar; o diagnóstico e a decisão permanecem com a equipe.

O rebanho contado em gráficos
O Alta COW WATCH também apoia decisões relacionadas à ambiência. Em períodos quentes, além dos banhos na sala de espera, a fazenda acionava a aspersão na pista de alimentação por cerca de meia hora, em dois resfriamentos extras ao longo do dia. Quando as temperaturas cederam, Lucas consultou o gráfico de estresse térmico antes de suspender o manejo. “Vi pelo gráfico que as vacas não estavam entrando na zona de estresse. Interrompemos a aspersão e continuamos monitorando para saber quando será necessário retomá-la”, conta.
O painel também deixa visível o efeito de certos manejos sobre o rebanho. Depois de algumas vacinações, por exemplo, a equipe percebe mudanças no consumo e no desempenho dos animais.
O acompanhamento também deixa a equipe revisar o próprio trabalho. Quando uma vaca adoece, dá para ver se foi algo súbito ou se houve mudança gradativa no quadro do animal. O gráfico não aponta apenas a vaca a examinar; mostra também se a resposta veio na hora certa e como está o comportamento do animal após um tratamento.
Suporte para manter o sistema em uso
Desde a implantação, a conversa com a Alta Genetics ocorre por um canal direto com a equipe da fazenda. As atualizações da plataforma chegam à medida que fi cam prontas; dúvidas sobre gráficos e alertas se resolvem com uma imagem da tela.
Para Bruna, a implantação foi facilitada pela clareza das orientações iniciais. A equipe sabia que os alertas não sairiam de imediato, porque o sistema precisava antes construir o padrão de comportamento de cada vaca.
“A Alta Genetics deixou muito claras as expectativas: quando começariam os alertas de saúde, quando viriam os de cio e como cada colar deveria ser vinculado ao animal, o que tornou a implantação muito tranquila”, afirma.
A fazenda recorreu poucas vezes ao suporte, algo que Bruna credita à simplicidade de uso da ferramenta e ao modo como o sistema foi apresentado. A comunicação, porém, segue ativa, sobretudo para anunciar novidades e esclarecer a leitura dos dados. “Na maior parte das implantações, criamos um grupo de WhatsApp com a fazenda. Quando surge alguma difi culdade para interpretar um gráfi co, o produtor envia uma imagem.

No corredor do Compost Barn, Pedro Nunes e Bruna Silper observam as vacas que utilizam o colar Alta COW WATCH – a tecnologia da Nedap que reorganizou a rotina da Brejo Alegre
Autor
Adriana Vieira Ferreira
EDITORA EXECUTIVA
Economista, DSc. em Economia Rural
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