Conheça a grandiosa história da Associação Brasileira dos Criadores de Bovinos da Raça Holandesa (ABCBRH)
Com quase um século de história, a Associação Brasileira dos Criadores de Bovinos da Raça Holandesa se reinventa com dados, diálogo e inovação, fortalecendo o elo entre produtores, técnicos e instituições em nome do avanço genético da raça mais produtiva do mundo
Antes de assumir a presidência da Associação Brasileira dos Criadores de Bovinos da Raça Holandesa (ABCBRH), Armando Rabbers já ocupava um lugar de referência no setor leiteiro; não por cargos institucionais, mas pela ousadia de suas escolhas. Filho de produtores e herdeiro de uma história familiar ligada ao campo, Armando transformou radicalmente o rumo da propriedade ARM Genética ao apostar, em 2010, na pecuária leiteira como atividade principal. E não foi qualquer aposta: dois anos depois, ele se tornava o primeiro produtor da América Latina a implantar um sistema de ordenha robotizada.
Armando foi convidado para assumir a liderança da ABCBRH. Aceitou o desafio com humildade, mas também com a robustez de quem constrói suas decisões embasadas no conhecimento técnico, na escuta ativa e na coragem. Atualmente, preside a entidade nacional ao mesmo tempo em que atua como vice-presidente da Associação Paranaense dos Criadores de Bovinos da Raça Holandesa (APCBRH). “Gosto de buscar desafios e de construir união entre as partes”, afirma.
Talvez esta seja a marca mais evidente de sua gestão: um olhar inovador que valoriza tanto a tecnologia quanto o diálogo – entre produtores, núcleos regionais, pesquisadores e órgãos reguladores. Para Armando, conduzir a associação é, antes de tudo, exercer a escuta de quem está na base da cadeia. E devolver, com ações concretas, o reconhecimento pela confiança recebida.
Uma rede conectada
Embora a ABCBRH concentre a representação oficial da raça perante o Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA), seu alcance prático se dá por meio de uma teia capilarizada de filiadas e núcleos regionais. São essas entidades estaduais que fazem a ponte diária com os produtores, organizam os registros genealógicos, coordenam os programas de controle leiteiro, conduzem avaliações morfológicas e disseminam informações técnicas sobre a raça.
Paraná, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, São Paulo, Minas Gerais, Goiás, Espírito Santo e Pernambuco: todos esses estados têm estruturas associativas locais interligadas à associação nacional. Nessas unidades, o trabalho técnico e de extensão com os criadores ganha contornos específicos, respeitando as particularidades regionais sem perder de vista os parâmetros da entidade central.
Cabe à ABCBRH, portanto, garantir a coerência técnica, zelar pelo cumprimento das normativas oficiais, manter os contratos atualizados com o MAPA e, sobretudo, consolidar os dados que embasam o melhoramento genético da raça no Brasil. “As filiadas são o elo direto com os produtores. A nacional organiza, valida e estrutura esse trabalho para garantir solidez institucional e avanços genéticos consistentes”, resume Armando.
O modelo federativo, que une instâncias locais e nacionais, favorece a agilidade das ações técnicas e fortalece a governança da raça em todo o território brasileiro. E é essa articulação bem-sucedida que tem permitido à associação avançar em frentes como o genoma nacional e as novas certificações oficiais.

CABE À ABCBRH, PORTANTO, GARANTIR A COERÊNCIA TÉCNICA, ZELAR PELO CUMPRIMENTO DAS NORMATIVAS OFICIAIS, MANTER OS CONTRATOS ATUALIZADOS COM O MAPA E, SOBRETUDO, CONSOLIDAR OS DADOS QUE EMBASAM O MELHORAMENTO GENÉTICO DA RAÇA NO BRASIL

Um legado de mais de 90 anos
Fundada há nove décadas, a ABCBRH carrega a responsabilidade de ter moldado, ao longo do tempo, os rumos do melhoramento genético de uma das raças mais importantes para a pecuária leiteira nacional. Em outubro deste ano, a entidade completa 91 anos de existência. Uma trajetória marcada por desafios técnicos, por avanços regulatórios e pela constante modernização de seus processos.
Desde os primeiros registros da raça no país, a associação tem sido guardiã de uma base de dados que hoje se equipara às maiores do mundo em volume e confiabilidade. Esses dados – obtidos por meio do controle leiteiro, da classificação linear, da tipificação dos animais e das avaliações morfológicas - permitiram que o Brasil entrasse, com consistência, na era genômica. E garantiram que os criadores brasileiros tivessem acesso a ferramentas de seleção com a mesma robustez das disponíveis nos Estados Unidos, no Canadá ou nos países da Europa.
Armando reconhece o papel dos que vieram antes: “Tenho certeza de que os primeiros criadores enfrentaram desafios muito maiores. Se hoje temos um banco genético forte, isso é mérito da visão deles. Eles sabiam que era preciso documentar, registrar, classificar. E deixaram para nós esse patrimônio técnico e histórico”.
A longevidade da ABCBRH é mérito institucional e simbólico. Representa a resistência e a persistência de famílias que, geração após geração, acreditaram no potencial da raça Holandesa e ajudaram a moldar a pecuária leiteira brasileira – da genética de ponta ao associativismo estratégico.

Certificação, dados e tecnologia a serviço do futuro
Desde que assumiu a presidência da associação, Armando tem trabalhado para fortalecer a governança técnica da entidade e ampliar sua credibilidade perante os órgãos reguladores e os produtores. Uma das conquistas mais relevantes desse período foi a regularização e consolidação dos contratos com o MAPA, tanto por parte da entidade nacional quanto das filiadas.
Outro marco recente foi a obtenção do certificado do Programa Nacional de Melhoramento Genético da Raça Holandesa, que reconhece oficialmente o trabalho de coleta e validação dos dados zootécnicos realizados ao longo de décadas. A certificação abrange atividades como o registro genealógico, o controle leiteiro, a classificação linear e as avaliações genéticas e genômicas.
“A certificação é, ao mesmo tempo, reconhecimento e ferramenta”, explica Rabbers. “Ela mostra ao mercado que a raça Holandesa tem um sistema de acompanhamento técnico confiável, validado, que pode sustentar programas de melhoramento genético de longo prazo.”

A raça se constrói em rede: com atuação técnica e presença no campo, a associação acompanha de perto as práticas que moldam o presente e o futuro da pecuária leiteira
Além disso, a associação atua como catalisadora de inovações. Um exemplo é o SmartGen, programa de predição genética baseado em inteligência artificial, desenvolvido pela APCBRH em parceria com a GenMate. A tecnologia analisa o pedigree dos animais (pai, avô e bisavô maternos) e utiliza algoritmos avançados de machine learning para estimar com alto grau de confiança o valor genético dos indivíduos. São consideradas características como produção de leite, teores de gordura e proteína, fertilidade, saúde e longevidade.
A ferramenta está disponível para associados que registram seus animais, democratizando o acesso a decisões genéticas mais precisas. “Trata-se de uma ficção científica que virou realidade no campo”, ressalta Armando.
O compromisso da entidade com dados confiáveis, rastreabilidade genética e inovação tecnológica é o que permite transformar informação em estratégia e estratégia em progresso. Na prática, isso significa colocar o melhoramento genético ao alcance de todos, com ciência, transparência e resultados.
Se liga! O SmartGen surge como mais uma ferramenta à disposição do produtor, permitindo a predição do desempenho de bezerras ainda não nascidas, o planejamento de acasalamentos estratégicos com base em dados técnicos e decisões livres de interferência comercial
O que sustenta o futuro é a união
Para Armando, o maior desafio da ABCBRH não é apenas técnico; é relacional. “Precisamos estar cada vez mais próximos das filiadas e dos produtores. Mais do que tecnologia, é a coesão entre as partes que constrói o futuro da raça”, afirma.
A associação nacional aposta em um modelo de governança compartilhada com as filiadas e os núcleos regionais, reconhecendo o papel de cada território na consolidação da raça no país. A ampliação da base de dados, o fortalecimento dos registros genealógicos e o avanço do genoma nacional – desenvolvido em parceria com a Embrapa Gado de Leite – são metas que exigem cooperação permanente.
Além do banco genético e do índice de seleção genômica, a presença da associação em feiras, seminários e encontros técnicos tem sido estratégica para manter o diálogo com os produtores e acompanhar, de perto, as transformações do setor. “A raça Holandesa está em evolução constante. Mas ela só avança quando há confiança entre as pessoas”, reforça Armando.
Essa confiança também se expressa na capacidade da associação de se adaptar aos novos tempos sem perder sua identidade: uma entidade técnica, séria e profundamente comprometida com quem está na base – o produtor. O futuro, segundo seu presidente, é feito com dados, mas também com vínculos. “Não se faz melhoramento genético sem gente. E não se faz associação sem escuta.”
“A RAÇA HOLANDESA ESTÁ EM EVOLUÇÃO CONSTANTE. MAS ELA SÓ AVANÇA QUANDO HÁ CONFIANÇA ENTRE AS PESSOAS”

Atualmente, a ABCBRH promove premiações em nível nacional, todas dedicadas à valorização da raça Holandesa. Um dos principais eventos promovidos pela associação é o “Melhores do Ano”, que, nos últimos anos, vem sendo realizado no formato online, com transmissão ao vivo pelo YouTube, em parceria com o Canal do Leite. Durante a exibição, além da entrega dos prêmios, o público acompanha conteúdos informativos sobre o trabalho da associação e os avanços da raça no Brasil.
Entre as categorias de destaque está o prêmio “Criador Supremo”, que reconhece os criadores cujos animais obtiveram alto desempenho ao longo do ano. A seleção leva em consideração critérios como o número de animais registrados, a produção em lactações encerradas no período e a pontuação obtida na classificação linear de tipo.
Outro reconhecimento importante é o prêmio “Recordista Nacional”, concedido às vacas que alcançaram os maiores volumes de produção dentro de sua classe, divisão e tipo de ordenha. Já o “Circuito Nacional da Raça Holandesa - CNRH” contempla os animais que se destacaram nas pistas de julgamento ao longo do ano, premiando campeãs e reservadas nas exposições oficialmente participantes do circuito.
Autor
Adriana Vieira Ferreira
EDITORA EXECUTIVA
Economista, DSc. em Economia Rural
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