Este site utiliza cookies

Salvamos dados da sua visita para melhorar nossos serviços e personalizar sua experiência. Ao continuar, você concorda com nossa Política de Privacidade, incluindo a política de cookie.

x
ExitBanner
Gestão, Pastagens

Entenda os efeitos da utilização de silagem de grãos de milho nos resultados econômicos da atividade

Qual é a influência da utilização da silagem de grãos de milho nos resultados econômicos na pecuária leiteira?

Entenda os efeitos da utilização de silagem de grãos de milho nos resultados econômicos da atividade

Neste segundo artigo, o autor divulga resultados de sua pesquisa intitulada “Uso de silagem de grão úmido/reidratado de milho sobre indicadores técnicos e econômicos em bovinos de leite”. Este estudo foi realizado na Universidade Federal de Lavras como parte do Programa de Pós-Graduação em Ciência e Tecnologia de Produção Animal. A pesquisa focou em indicadores técnicos e econômicos em sistemas de produção que empregam silagem de grãos de milho.

O milho (Zea mays L.), um dos cereais mais cultivados globalmente, desempenha papel importante na economia devido à sua versatilidade. É usado não apenas na alimentação de animais e humanos, mas também na fabricação de produtos tecnológicos, como embalagens biodegradáveis. Além disso, o milho é notável por sua adaptabilidade, com variedades que podem ser cultivadas desde o nível do mar até altas altitudes e em climas que vão desde regiões equatoriais até temperadas.

Na produção de leite, o milho é essencial principalmente como fonte de energia devido ao alto teor de amido em seus grãos. As dietas das vacas leiteiras consistem em 60 a 70% de carboidratos, sendo o amido um componente chave para o fornecimento de energia. A relevância do milho como um insumo estratégico na nutrição animal e na cadeia produtiva leiteira destaca a importância de compreender suas aplicações e benefícios.

Uso do milho em grão

O amido representa cerca de 88% do endosperma e constitui 83% do peso do grão de milho. Esses grânulos de amido são protegidos por proteínas conhecidas como zeínas. A organização desses grânulos permite classificar o grão de milho com endosperma vítreo ou farináceo.

Estudos indicam que híbridos de milho americanos possuem maior disponibilidade de amido devido à sua menor vitreosidade em comparação com os híbridos brasileiros. A maior vitreosidade dos grãos brasileiros resulta em menor degradação ruminal, afetando negativamente a eficiência de seu uso pela pecuária. Diante dessa questão, métodos de processamento do grão, tanto físicos quanto químicos, são considerados para melhorar a digestibilidade e aproveitamento pelo animal. Processos como a moagem aumentam a exposição do grão às bactérias ruminais, beneficiando a degradação inicial. No entanto, técnicas mais complexas e onerosas como laminação e floculação podem oferecer melhorias significativas na disponibilidade do amido. A ensilagem do grão moído também é um método eficaz de processamento.

Ensilagem do milho em grão

A ensilagem melhora a digestibilidade por meio da ação de microrganismos e serve também como método de armazenagem que minimiza perdas causadas por condições climáticas adversas, insetos e roedoresO processo requer técnicas apropriadas de carregamento, compactação, vedação e descarregamento, assegurando a conservação e a eficácia digestiva do material. O grão de milho pode ser ensilado em dois estágios: úmido, na maturidade fisiológica, ou maduro e seco, após ser reidratado. É importante moer o grão antes da ensilagem, pois a redução no tamanho das partículas aumenta a área de superfície, favorecendo a adesão microbiana. Pesquisas indicam que períodos de ensilagem superiores a 200 dias podem diminuir o impacto do tamanho das partículas na degradação ruminal, permitindo o uso de silagens de grãos menos processados. A menor necessidade de processamento no momento da ensilagem pode significar reduções nos custos de moagem.

Além disso, a ensilagem eficaz permite a armazenagem segura do milho na propriedade, facilitando a compra estratégica quando os preços estão mais baixos.

Se liga!

Para saber mais sobre ensilagem, consulte a matéria “Para o alto e avante!”, do mesmo autor, na edição #180 da Revista Leite Integral. Clique aqui!


Consumo de alimentos e eficiência alimentar

A ensilagem do milho melhora a disponibilidade e a fermentação no rúmen, o que aumenta a produção de metabólitos essenciais para a mantença, gestação, o ganho de peso e a produção de leite dos animais. No caso de vacas em lactação, o consumo de alimentos é influenciado pela quantidade desses metabólitos gerados pela fermentação ruminal. Um aumento no fluxo de metabólitos ao fígado pode levar à sensação de saciedade no animal, reduzindo sua ingestão de alimentos.

Além disso, a regulação do consumo também pode acontecer pela ingestão de alimentos ricos em fibras. Esses alimentos, por serem de digestão mais lenta, ocupam mais espaço no rúmen e assim limitam fisicamente a quantidade de alimento que o animal pode consumir. Portanto, apesar de o milho ensilado oferecer maior digestibilidade, isso não necessariamente resulta em aumento da produção de leite. Em vez disso, pode contribuir para uma redução no consumo de alimentos, mantendo a produção e, consequentemente, melhorando a eficiência alimentar. Esse conceito é apoiado por diversas pesquisas que destacam os benefícios da ensilagem na nutrição de vacas leiteiras.

A ENSILAGEM DO MILHO MELHORA A DISPONIBILIDADE E A FERMENTAÇÃO NO RÚMEN, O QUE AUMENTA A PRODUÇÃO DE METABÓLITOS ESSENCIAIS PARA A MANTENÇA, GESTAÇÃO, O GANHO DE PESO E A PRODUÇÃO DE LEITE DOS ANIMAIS

Cenário econômico no período da pandemia

O uso da silagem de grãos de milho na pecuária leiteira tem mostrado impactos significativos tanto nos indicadores técnicos quanto econômicos. Os dados, oriundos da plataforma Educampo do SEBRAE-MG, cobriram variáveis como ano, região e sistema de produção. Esse período, de 2019 a 2021, foi fortemente influenciado pela pandemia da covid-19, afetando diretamente a economia e, consequentemente, a atividade leiteira.

Estudos que analisaram o poder de compra na atividade leiteira, no período da pandemia de covid-19, destacaram o desequilíbrio causado pelo aumento dos preços dos insumos, como farelo de soja e milho, em contraste com o valor do salário mínimo. Apesar do aumento do preço do leite, esse cenário prejudicou a relação de troca para os produtores.

Um aumento acentuado nos preços dos insumos foi registrado no final de 2020, com o farelo de soja mantendo preços altos até o primeiro trimestre de 2021. Os preços do milho, embora tenham aumentado, não voltaram aos níveis anteriores ao aumento.

O uso crescente da silagem de grão úmido/reidratado (GUR) é notável, com aumento de 40% nas fazendas que adotaram essa prática de 2019 para 2021, dentro da plataforma Educampo Sebrae/MG. Esse aumento reflete não apenas o aumento no custo dos insumos, mas também a maior conscientização sobre os benefícios dessa tecnologia, como a possibilidade de produção própria, reduzindo a dependência de compras externas e melhorando a gestão de custos e logística.

Análise dos indicadores técnicos e econômicos

Os indicadores de escala mostram que as fazendas que usaram a silagem de GUR eram cerca de 20% maiores e produziam 59% mais leite diariamente do que aquelas que não usaram. Esse melhor desempenho é atribuído ao uso intensivo de tecnologias avançadas, melhorias na infraestrutura, programas reprodutivos mais desenvolvidos e uma maior qualidade das forragens. A utilização eficiente da terra, que é um recurso crucial na produção leiteira, foi otimizada pelas fazendas que adotaram o GUR, resultando em maior produção por hectare.

OS INDICADORES DE ESCALA MOSTRAM QUE AS FAZENDAS QUE USARAM A SILAGEM DE GUR ERAM CERCA DE 20% MAIORES E PRODUZIAM 59% MAIS LEITE DIARIAMENTE DO QUE AQUELAS QUE NÃO USARAM

O “Estoque de capital por litro de leite”, indicador da eficiência produtiva baseado no capital total investido dividido pela produção diária de leite, foi mais alto nas fazendas que não adotaram o GUR. Isso indica que as fazendas que utilizaram o GUR alcançaram maior produtividade por vaca e por hectare, utilizando a terra de forma mais eficiente para melhores resultados econômicos.

A produção por vaca em lactação por dia tendeu ser maior nas fazendas que utilizaram GUR (Gráfico 1), ilustrando a eficiência produtiva nessas fazendas.


Os teores de gordura do leite não foram diferentes entre os dois grupos de fazendas. O teor de proteína do leite diferiu apenas no sistema de produção confinado sem estrutura, com valores maiores em fazendas que utilizaram GUR (Gráfico 2).



A análise dos indicadores econômicos mostra que a diferença no preço do leite entre fazendas que utilizaram e não utilizaram GUR foi significativa apenas em 2019, com valores mais altos pagos às fazendas com GUR, sugerindo que a maior escala de produção influenciou os preços (Gráfico 3). Em 2020 e 2021, os preços foram impactados pela pandemia, com aumentos abruptos e equilíbrio nos preços pagos, independente do volume produzido.



Sistemas que adotaram GUR tiveram preços menores por quilo de concentrados, beneficiados por estratégias de compras e produção própria de insumos (Gráfico 4). Além do maior preço, fazendas que não utilizaram GUR tiveram maior variação no preço do quilo do concentrado ao longo do ano, mostrando-se mais susceptíveis às oscilações de mercado.


Trabalhar com o quilo do concentrado mais barato, atrelado a maiores produções, garantiu um custo com concentrado por litro de leite menor para fazendas que utilizaram GUR no ano de 2021 (Gráfico 5), período em que o preço dos insumos no mercado foi mais alto. Esse comportamento evidencia a importância das compras estratégicas e oportunidades de produção dentro da fazenda.




O Custo Operacional Total por litro (COT_ATIV) foi maior nas fazendas que não utilizaram silagem de grão úmido/reidratado (GUR). Esse indicador é composto por vários itens de custo, sendo fortemente influenciado pela produtividade geral da fazenda. Notavelmente, as despesas com alimentos concentrados e volumosos representam cerca de 60% do custo total. A maior produtividade por vaca por dia observada nas fazendas que utilizaram GUR, atrelada a um menor custo com concentrado por litro de leite, pode explicar a diferença no COT_ATIV em comparação com as fazendas que não utilizaram a tecnologia.

A Receita Descontando Custo com Alimentação por vaca em lactação (RDCA_VL) foi maior para as fazendas que utilizaram GUR (Gráfico 6). O efeito do uso ou não uso de GUR no indicador RDCA_VL pode estar associado à maior produtividade por vaca e ao custo alimentar mais equilibrado.

A margem líquida foi calculada subtraindo o Custo Operacional Total da renda bruta, e atrelada ao item de produção vaca em lactação. A margem líquida por vaca em lactação, maior em fazendas que utilizaram GUR, sugere que animais mais produtivos geram um retorno financeiro superior para a fazenda, conforme Gráfico 7.



O gasto com concentrado pela renda bruta (GAS_CON_RB), no banco avaliado, foi superior nas fazendas que não utilizaram GUR apenas no ano de 2021 (Gráfico 8). Nesse ano o preço do leite não foi diferente entre os dois grupos, fator importante para a construção da renda bruta. A maior produtividade por vaca para o grupo que utilizou GUR é ponto importante de avaliação pelo seu impacto na renda bruta. Outro fator importante para a diferença encontrada no GAS_CON_RB, é a busca por eficiência dentro da propriedade num mercado de insumos com preços mais altos. Traçar estratégias de compras, uso de subprodutos e melhora no uso dos recursos geram impactos econômicos.



Finalmente, fechando as avaliações econômicas, a taxa de remuneração do capital sem terra (TRCST), maior para as fazendas que utilizaram GUR no ano de 2021 (Gráfico 9), é um resultado que contempla boa parte dos indicadores econômicos avaliados, por isso é influenciada por aumento de produtividade, valor de venda de produtos, custos obtidos na atividade e uso eficiente ou não dos bens disponíveis para a produção.



CONCLUSÃO

Os sistemas de produção de leite que adotaram o uso de silagem de grão úmido/reidratado de milho demonstraram gestão de custos mais eficiente, particularmente em relação ao preço por quilo de alimento concentrado na matéria natural. Essa eficiência é indicativo claro da vantagem de produzir o insumo internamente e de implementar estratégias de compra do milho durante períodos de preços mais favoráveis.

Além disso, esses sistemas apresentaram indicadores econômicos relacionados à alimentação significativamente melhores em comparação com as fazendas que não utilizaram essa tecnologia, especialmente durante os períodos de aumento nos preços do milho. A silagem de grão úmido/reidratado é estratégia eficaz para melhorar a sustentabilidade financeira da atividade leiteira em tempos de volatilidade de mercado.

A estratégia para a adoção da ensilagem de grãos de milho deve ser planejada detalhadamente dentro da propriedade, considerando diversos fatores. É essencial avaliar a forragem utilizada na dieta, a oportunidade de produção própria ou a compra estratégica, assim como a capacidade de armazenagem e o fluxo de caixa da propriedade. Esses pontos devem ser analisados criteriosamente para que a prática da ensilagem seja vantajosa.

OS SISTEMAS DE PRODUÇÃO DE LEITE QUE ADOTARAM O USO DE SILAGEM DE GRÃO ÚMIDO/ REIDRATADO DE MILHO DEMONSTRARAM GESTÃO DE CUSTOS MAIS EFICIENTE, PARTICULARMENTE EM RELAÇÃO AO PREÇO POR QUILO DE ALIMENTO CONCENTRADO NA MATÉRIA NATURAL






Autor: 

GUSTAVO GRACIANO MUNDIM - Consultor Sebrae Educampo

SARAH LAGUNA CONCEIÇÃO MEIRELLES - Professora de Melhoramento Genético Animal, UFLA


Tags

Compartilhar:


Comentários

Enviar comentário


Artigos Relacionados