Entre raízes e horizontes: conheça a história da Agropecuária Palma (Luziânia/GO)
Na gestão de Weslliane Roriz, sócia-proprietária da Agropecuária Palma, em Luziânia/GO, tradição e inovação caminham juntas em um projeto que honra o legado familiar e aposta na força dos dados, da tecnologia e das pessoas
A fé de Weslliane Roriz está inscrita nos anéis que adornam seus dedos, nos colares que lhe envolvem o pescoço e nas imagens que ocupam as paredes da casa-sede da Agropecuária Palma, localizada em Luziânia/GO. Esses símbolos funcionam como lembretes de algo maior, intangível, mas que se torna visível em cada gesto seu.
É na delicadeza com que recebeu a equipe da Revista Leite Integral, nas palavras dirigidas com cuidado à equipe da fazenda, na troca silenciosa de olhares com os animais e na lembrança respeitosa de seu pai, Joaquim Roriz, que a espiritualidade se materializa.
Por esses motivos, conhecer a Agropecuária Palma é também mergulhar em um ambiente de trabalho sereno, onde pessoas e animais são valorizados – cenário que possibilita alcançar metas bem-definidas e, ao mesmo tempo, abrir espaço para a realização de muitos sonhos.
Raízes que sustentam
Os ipês de florada amarela que margeiam a estrada de chão que liga a cidade de Luziânia/GO à Agropecuária Palma fazem parte da vida de Weslliane Roriz e de sua família. Foi nesse território que ela aprendeu a nadar nos córregos e a andar a cavalo. Mais importante ainda: foi ali que ela aprendeu, desde cedo, a lidar com a gestão dos negócios. “Quando chegava da escola, ainda de uniforme, já mergulhava na rotina da fazenda com meu pai. Ele sempre foi muito empreendedor”, recorda.
A vocação da propriedade para o leite vem de gerações anteriores. O avô produzia leite e coalhada na década de 1950, durante a construção de Brasília. Já o pai, Joaquim Roriz, apaixonado pelo rebanho Gir – base para a formação do rebanho Girolando de excelência ainda presente na fazenda –, não demorou a investir na atividade leiteira. Começou de forma simples, com cerca de 2 mil litros por dia, ordenhados manualmente. Mas sua inquietude empreendedora o levou a buscar inovação.

Foi ele quem introduziu mudanças ousadas para a época, como a instalação de uma ordenha rotatória – uma das primeiras do Brasil e considerada até hoje a mais antiga da marca DeLaval em funcionamento. Também investiu em pivôs de irrigação para a produção de silagem e na construção de um laticínio, sempre com o propósito de estruturar o negócio de forma robusta e duradoura. As obras erguidas sob sua gestão foram concebidas para resistir ao tempo, com a visão de que serviriam às próximas gerações. Ainda hoje, parte dessa infraestrutura segue firme, testemunho de sua capacidade de planejar e realizar com grandeza.
Foi nesse ambiente que Weslliane consolidou sua identidade como gestora. Ela sempre demonstrou talento para administração: subia no caminhão do leite, acompanhava as entregas, fazia controle de dieta dos animais e ajudava a organizar as contas. Hoje, mantém a mesma dedicação, mas com um perfil próprio: aprecia os números, orienta-se por resultados e encontra nos dados a base de suas decisões. Outro traço marcante é a divisão de responsabilidades, que combina confiança na equipe com presença constante de consultores em diferentes áreas da empresa. “Conto com a expertise de grandes consultores para alcançarmos nossos objetivos. Para essa conquista, temos equipes que trabalham com muito foco, alinhadas aos nossos valores e propósitos”, explica Weslliane.
Força em dobro
Dois sistemas de produção. Duas raças. Dois centros de custo. Grande em extensão de terra. Pela complexidade da gestão da Agropecuária Palma, a apresentação mais adequada é a sugerida pelo médico-veterinário Danilo Queiroz Cassimiro, um dos responsáveis pela produção: é como se fossem duas propriedades distintas.
“CONTO COM A EXPERTISE DE GRANDES CONSULTORES PARA ALCANÇARMOS NOSSOS OBJETIVOS. PARA ESSA CONQUISTA, TEMOS EQUIPES QUE TRABALHAM COM MUITO FOCO, ALINHADAS AOS NOSSOS VALORES E PROPÓSITOS”

Girolando: rusticidade que produz
Segundo Danilo, os animais da raça Girolando da fazenda são formados a partir de doadoras Gir e touros Holandeses de alto mérito genético, resultando em bezerras meio-sangue. Durante muito tempo, as principais doadoras não eram utilizadas nos cruzamentos, mas essa lógica foi transformada pela gestão de Weslliane: as melhores vacas passaram a ser aspiradas para a formação de animais Girolando, aproveitando plenamente o potencial genético. Parte das bezerras é vendida; parte é retida para consolidar a reposição interna e garantir sustentabilidade genética ao rebanho.
Essas crias permanecem com as receptoras até a desmama, por volta dos sete meses. Depois, ficam cerca de seis meses em confinamento, recebendo silagem e ração; e outros seis meses a pasto, de acordo com a estação. Quando se aproximam do parto, são transferidas para o pré e o pós-parto e, por fim, entram no pivô, onde atingem alta produção.
O sistema de pasto é manejado com pastejo rotacionado em áreas irrigadas por pivô, divididas em piquetes que permitem descanso adequado e oferta de forragem de qualidade ao longo do ano. Essa estratégia é aprimorada com apoio técnico e garante regularidade na produção mesmo em condições desafiadoras. “Acertar o manejo do pasto não é simples, mas, com acompanhamento e planejamento, ele se torna um pilar da produção”, ressalta Weslliane.
“O Girolando é um rebanho mais rústico, que se adapta muito bem ao desafio ambiental do cerrado e, mesmo sem grandes estruturas de sombra, consegue manter produtividade e boa efi ciência reprodutiva”, explica Danilo. Essa característica garante eficiência no manejo e estabilidade nos resultados, reforçando o papel estratégico da raça dentro da fazenda.
Do ponto de vista produtivo, o rebanho Girolando do pivô é ordenhado duas vezes ao dia. Essa frequência, adequada ao sistema e à genética dos animais, contribui para manter a saúde do úbere e a longevidade das vacas sem comprometer o desempenho. Os índices obtidos impressionam: vacas com alto potencial genético conseguem expressar produção robusta mesmo sob condições ambientais desafiadoras graças à rusticidade herdada do Gir.
Outro aspecto técnico relevante é a eficiência reprodutiva. Os animais Girolando da Agropecuária Palma apresentam bons intervalos entre partos e taxas de concepção satisfatórias, fatores que reduzem custos e aumentam a sustentabilidade do sistema. A associação entre manejo estratégico, genética consistente e adaptação ao clima tropical faz do Girolando um rebanho fundamental dentro da estrutura de produção da fazenda, equilibrando resultados econômicos e resiliência produtiva.
“ACERTAR O MANEJO DO PASTO NÃO É SIMPLES, MAS, COM ACOMPANHAMENTO E PLANEJAMENTO, ELE SE TORNA UM PILAR DA PRODUÇÃO”


Eficiência construída no detalhe
As visitas do consultor e professor Adilson de Paula Almeida Aguiar, da Consultoria e Planejamento Pecuário (Consupec), à Agropecuária Palma coincidem com as mudanças de estação. Essa cadência marcou uma transformação visível no pivô irrigado dedicado ao rebanho Girolando. O trabalho constante de acompanhamento e treinamento da equipe trouxe avanços significativos no manejo da pastagem, no controle de pragas e plantas daninhas, na irrigação e na correção do solo. As práticas passaram a ser conduzidas com precisão, resultando em forragem de melhor qualidade e disponibilidade ao longo do ano.
Os números confirmam essa evolução. Desde o início da consultoria, em outubro de 2022, o rebanho em lactação passou de 320 para 485 vacas, um crescimento de 52%. A produção por vaca aumentou de 20 para 24 litros/ dia, enquanto a produção total saltou de 6.400 para 11.640 litros/dia – um incremento de 82% em apenas três anos.
Quando comparado à média nacional e à de Minas Gerais, maior bacia leiteira brasileira, o desempenho impressiona ainda mais: a produtividade por hectare no pivô é mais de 20 vezes superior; e a produção diária chega a ser 115 vezes maior que a de uma fazenda média (Tabela 1).

Tabela 1. Comparação entre a média brasileira/Minas e o sistema do pivô 1
Para Adilson, o segredo está no “básico bem-feito”. Ele explica: “Não há nada mirabolante. O que faz a diferença é executar os fundamentos com consistência. Planejar, medir, treinar e ajustar”. Esse caminho, segundo ele, permite alcançar resultados expressivos e sustentáveis.
Essa disciplina colocou o sistema de pastagem irrigada da Palma em um patamar de destaque, mostrando que, com conhecimento e dedicação, é possível produzir mais e melhor, preservando recursos e garantindo a solidez econômica do projeto.

Rebanho Holandês: precisão e potência
Se o Girolando é símbolo de rusticidade e adaptação ao cerrado, o rebanho Holandês representa tecnologia, manejo intensivo e produtividade em escala. Os animais, provenientes de inseminação artificial, são criados durante a fase de aleitamento no bezerreiro do tipo tropical e, após a desmama, seguem em piquetes até a fase final da gestação, quando são transferidas para o pré-parto. A partir daí, entram no sistema de Free Stall, onde passam a vida produtiva. Nesse sistema, as vacas são ordenhadas três vezes ao dia, na ordenha rotatória DeLaval, em atividade há 25 anos, aproveitando ao máximo o potencial genético da raça, reconhecida mundialmente pela alta produção de leite.
O confinamento exige precisão absoluta na nutrição. Por isso, a Agropecuária Palma utiliza ferramentas como o programa OnFeed, que monitora desde a carga e descarga dos ingredientes até o tempo de mistura e o fornecimento no cocho. Essa checagem garante que a dieta formulada pelo nutricionista chegue exatamente como planejada aos animais, sem desvios que comprometam desempenho. Ao lado da alimentação, a sustentabilidade também orienta a rotina: os dejetos líquidos do Free Stall são destinados à fertirrigação das áreas de produção de alimento volumoso, enquanto a fração sólida é aproveitada nas lavouras, fechando o ciclo de nutrientes. Os barracões contam com flushing, complementado por máquinas para limpeza, e um novo projeto de reciclagem de areia está em implantação, trazendo economia e redução de impactos ambientais.
Os colares SenseHub Dairy, da MSD Saúde Animal, foram implementados há cerca de um ano e se mostraram especialmente valiosos. Eles permitem monitorar tanto os animais individualmente quanto o rebanho como um todo, fornecendo informações como detecção de cio, melhor momento para inseminação e saúde dos animais, o que possibilita a identificação precoce de vacas em risco de doença.

A integração do SenseHub com vários sistemas de gestão facilita o acesso às informações dos animais. Os brincos de identificação eletrônica, que se comunicam com o sistema de ordenha DelPro, reconhecem cada animal na entrada da rotatória e registram automaticamente a produção individual. “Os colares antecipam nossa percepção clínica: antes mesmo de vermos qualquer alteração no animal, o sistema já aponta que algo não vai bem”, afirma Danilo.
Para Weslliane, os colares representam uma ferramenta indispensável na tomada de decisão. “Eu vibro com os dados, porque eles nos dão segurança. Não tomamos decisão alguma sem olhar os números. Os colares ajudam a identificar antes o que o olho não consegue ver”, destaca. Wagner Ramos, consultor em Pecuária da MSD Saúde Animal, reforça: “O maior ganho para a Agropecuária Palma foi na saúde do rebanho e no monitoramento do pré e do pós-parto. O SenseHub Dairy oferece informações rápidas e objetivas, permitindo agir no momento certo e evitar perdas”.
“O MAIOR GANHO PARA A AGROPECUÁRIA PALMA FOI NA SAÚDE DO REBANHO E NO MONITORAMENTO DO PRÉ E DO PÓS-PARTO. O SENSEHUB DAIRY OFERECE INFORMAÇÕES RÁPIDAS E OBJETIVAS, PERMITINDO AGIR NO MOMENTO CERTO E EVITAR PERDAS”



Rebanho Holandês em manejo intensivo: precisão nutricional garantida pela tecnologia embarcada no projeto
Da sala de aula à Agropecuária Palma
A médica-veterinária Andressa Carolayne Sousa Rodrigues, que hoje integra a equipe da Agropecuária Palma, começou sua trajetória como estagiária na fazenda. “Antes do estágio, eu nunca tinha tido contato com vaca. Foi aqui que aprendi tudo. Eu me apaixonei pelo trabalho, pelo jeito como o Danilo ensina e pela forma como a Weslliane me impulsiona”, conta.
A experiência de três meses foi decisiva: acompanhou manejos em diferentes setores, aprendeu inseminação e casqueamento, participou de todas as rotinas. O interesse e a dedicação chamaram a atenção de Danilo, que recomendou a contratação a Weslliane.
Dois anos depois, Andressa é responsável pela sanidade do rebanho, participa ativamente da reprodução e acompanha todas as consultorias externas, além de gerenciar insumos e atividades de áreas específicas. “Conheço a fazenda inteira e tenho dados de tudo. Continuo aprendendo todos os dias, e isso é o mais valioso”, afirma.

Sonho, fé e futuro
“Meu pai era um sonhador. Eu também tenho sonhos, mas tenho os pés no chão – e os joelhos sempre dobrados em oração.” É assim que Weslliane segue sua trajetória como gestora: reverente às suas origens e atenta ao presente, conduzindo a Agropecuária Palma ao futuro com equilíbrio.
Esse futuro passa pela consolidação do Laticínios Palma, construído por Joaquim Roriz, atualmente responsável por processar apenas uma pequena parte dos mais de 1 milhão de litros de leite produzidos mensalmente. A meta é ampliar a industrialização, modernizar as embalagens e reposicionar a marca própria no mercado, aproveitando a proximidade de Brasília como um dos principais centros consumidores do país.
A Agropecuária Palma se reinventa a cada dia: mantém viva a memória de quem a sonhou grande e aposta na força dos dados, da tecnologia e das pessoas para sustentar novos passos.
A AGROPECUÁRIA PALMA SE REINVENTA A CADA DIA: MANTÉM VIVA A MEMÓRIA DE QUEM A SONHOU GRANDE E APOSTA NA FORÇA DOS DADOS, DA TECNOLOGIA E DAS PESSOAS PARA SUSTENTAR NOVOS PASSOS

Produção do Laticínios Palma: mais valor agregado ao leite, com industrialização crescente e marca própria em expansão
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Autor
Adriana Vieira Ferreira
EDITORA EXECUTIVA
Economista, DSc. em Economia Rural
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