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Fazendas, Gestão

Foco, força e fé: conheça a história da Fazenda Oliveira (Itambacuri/MG)

Com trabalho, visão, inovação e uma boa dose de fé, Toninho transformou desafios em oportunidades e fez da Fazenda Oliveira um modelo de excelência na pecuária leiteira.

Foco, força e fé: conheça a história da Fazenda Oliveira (Itambacuri/MG)

Para alguns, pode parecer sorte. Para outros, destino. Talvez resultado de características inatas, como inteligência ou tino comercial. A trajetória de Antônio Carlos de Oliveira, conhecido como Toninho, desperta esse tipo de comentário pelo simples fato de ser rara. E, por ser rara, carrega beleza singular. O que se pode intuir, no entanto, é que sua vida foi moldada pela soma desses fatores e de mais um, e talvez o mais importante: a fé.

A fala calma contrasta com a impressionante capacidade de resolver problemas, articular estratégias e tomar decisões empresariais. Toninho é o nome por trás das Fazendas Cachoeirinha e Oliveira e da empresa Rações do Vale, em Itambacuri/MG. Mas, antes de se tornar um empresário de sucesso, enfrentou um cenário de desafios que forjou sua determinação.

A vida é bonita

O ambiente rural sempre foi a casa de Toninho. Ele nasceu e cresceu nos arredores de Itambacuri – município mineiro localizado perto da divisa com Bahia e Espírito Santo –, cercado por vacas leiteiras e plantações de milho. O pai trabalhava como vaqueiro em uma fazenda; a mãe, Dona Araci Oliveira, como cozinheira. A vida seguia simples, até que uma brusca mudança alterou a direção do que era tido como certo e seguro.

Aos 9 anos, Toninho perdeu o pai de forma repentina. A mãe, viúva e com quatro filhos, precisou se reinventar. Sem terras e sem garantias, a família deixou a propriedade onde morava e se mudou para uma fazenda vizinha, onde encontrou trabalho. Toninho estudava pela manhã e passava as tardes ajudando na ordenha, no manejo do rebanho e na horta da mãe. O trabalho era duro, mas ele nunca cogitou outro caminho. “Foi nessa fazenda que meu sonho começou”, diz.



Com o tempo, a família deixou a zona rural e foi para a cidade. A mãe conseguiu emprego, e ele, ainda adolescente, começou a trabalhar como balconista em uma loja de ração. “O dono da loja era parente do proprietário da fazenda onde morávamos. Essa relação de confiança foi essencial quando, anos depois, o negócio fechou e eu decidi comprar o estoque e abrir minha própria loja”, conta Toninho.

Sem capital, mas com determinação, encontrou apoio no irmão, Aécio, que já estava em Belo Horizonte trabalhando e conseguiu recursos financeiros para ajudá-lo. “Comecei com 60 sacas de ração. No início, fazia tudo sozinho: vendia, entregava, organizava. Com o tempo, a família inteira se envolveu no negócio – inclusive as minhas irmãs, Adriana e Dilma”. O esforço valeu a pena: a loja prosperou e ele investiu na Rações do Vale, sua empresa de ração animal.

Atualmente, a Rações do Vale emprega 300 funcionários e produz cerca de 3.600 toneladas de ração por mês. O crescimento da empresa foi impulsionado pela visão empreendedora de Toninho, mas sua trajetória não parou por aí. Os frutos desse trabalho abriram caminho para novos sonhos. Ele teve a chance de comprar as duas fazendas onde viveu: a Fazenda Cachoeirinha, onde nasceu, e a propriedade onde cresceu, que ganhou o nome de Fazenda Oliveira para marcar a origem; é nesta que se concentra a produção leiteira.

A ideia não era simplesmente recuperar terras ou resgatar histórias perdidas. Toninho construiu sua trajetória empreendedora baseada no trabalho duro, na persistência e na capacidade de tomar decisões estratégicas. “Se eu tivesse que resumir a jornada em duas palavras, escolheria fé e humildade. Fé para continuar, mesmo diante das dificuldades. Humildade para aprender, ouvir e crescer. Sempre soube que o conhecimento seria essencial. Quem não aprende não avança”, afirma. 

Com a terra garantida, a questão passou a ser outra: como fazer a fazenda prosperar de maneira sustentável, moderna e eficiente?  



Entre o campo e os negócios, Toninho construiu um modelo de gestão guiado por trabalho, visão e propósito 

Modernizar para crescer

Quando Toninho comprou a Fazenda Oliveira, a produção de leite começou de imediato, seguindo o modelo tradicional de leite a pasto. O curral ficava no ponto mais alto da fazenda, o que exigia que as vacas percorressem longas distâncias diariamente para a ordenha. Nos períodos chuvosos, o excesso de lama tornava o manejo desafiador, afetando a sanidade e a eficiência da produção.

A necessidade de modernização tornou-se evidente. Em 2016, Toninho investiu na construção de um galpão com o sistema Cross Ventilation, buscando melhorar o conforto térmico e otimizar a produtividade do rebanho. No início, os resultados foram positivos, mas, com o tempo, surgiram desafios: a umidade excessiva prejudicava a secagem da cama, comprometia a sanidade das vacas e reduzia a eficiência do sistema. “Quando implementei o galpão, o rebanho era todo Holandês, mas a taxa de mortalidade foi tão alta que, de todas as vacas daquela época, restou apenas uma”, lembra Toninho

A solução foi converter o galpão para o sistema Compost Barn, garantindo melhor ventilação e condições mais adequadas para os animais. “Depois que abrimos o galpão, a cama secou e a produção voltou a crescer.” Além do primeiro galpão, com capacidade para 240 animais, há um segundo, que comporta 80 animais e atualmente é utilizado para a recria de bezerras e novilhas em idade reprodutiva.

Há três anos, o médico veterinário Daniel Ferreira de Souza teve um papel essencial na reestruturação da fazenda ao assumir o cargo de gerente. Formado pelo Centro Universitário de Viçosa (Univiçosa) e com ampla experiência de trabalho na região, Daniel trouxe uma abordagem técnica voltada para gestão, sanidade e eficiência produtiva.

Simultaneamente à modernização estrutural, a fazenda adotou rigoroso processo de seleção genética, focado em animais mais produtivos e adaptados ao sistema. Hoje, o rebanho é majoritariamente meio-sangue Girolando, resultado de um trabalho contínuo de melhoramento. 

A implementação de protocolos sanitários mais rígidos, os ajustes nutricionais e a capacitação da equipe foram determinantes para a retomada do crescimento. A nutrição do rebanho passou a ser planejada estrategicamente, com dieta balanceada composta por silagem de milho, capim de alta qualidade, alimentos concentrados proteicos e suplementação mineral. Além disso, a fazenda produz parte da própria ração, assegurando padronização e controle sobre os insumos utilizados. “Uma nutrição bem ajustada reflete diretamente na saúde e na produtividade das vacas, reduzindo desafios sanitários e aumentando a eficiência alimentar”, destaca Daniel. Como resultado desse conjunto de medidas, a produção estabilizou em 33,5 litros de leite por vaca/dia, avanço significativo em relação ao passado.


No sistema Compost Barn da Fazenda Oliveira, as vacas desfrutam de um ambiente cuidadosamente projetado para promover conforto e saúde.

Ordenha de alta tecnologia: mais eficiência e qualidade

A modernização da Fazenda Oliveira trouxe avanços significativos para a ordenha. Com a aquisição de um sistema DeLaval de linha média, a propriedade passou a contar com 11 conjuntos de ordenha e lavagem automática, garantindo mais eficiência e sanidade no processo, em que 186 vacas são ordenhadas diariamente. “A nova ordenhadeira reduziu o tempo de trabalho e aumentou a produtividade dos animais”, destaca Daniel.  “Conseguimos controlar mastite e outras infecções com mais eficiência, além de manter a contagem padrão em placa (CPP) e a contagem de células somáticas (CCS) dentro dos padrões ideais”, explica Daniel. A ordenhadeira garante extração mais uniforme, proporcionando mais conforto para as vacas e reduzindo o estresse durante o processo.  



Na sala de espera da ordenha, as vacas encontram conforto térmico garantido por sistema de aspersão de água e ventilação


Tecnologia a serviço da qualidade: a ordenha automatizada da DeLaval na Fazenda Oliveira assegura monitoramento individual das vacas, controle de tempo de ordenha e higiene rigorosa em todas as etapas  


No escritório da Fazenda Oliveira, o gerente Daniel Ferreira utiliza dados zootécnicos e indicadores de desempenho para orientar as decisões do dia a dia

Tecnologia para precisão no manejo: a adoção dos colares inteligentes Datamars

A reprodução e a saúde do rebanho são dois pilares essenciais para a produtividade da Fazenda Oliveira. No entanto, identificar corretamente os períodos de cio e monitorar o bem-estar dos animais sempre foram desafios, especialmente considerando as limitações da observação manual. Foi nesse contexto que a adoção dos colares inteligentes Datamars trouxe novo nível de precisão e eficiência para a fazenda.

Antes da tecnologia, a equipe conseguia detectar os cios naturais, mas a maioria das inseminações era feita via inseminação artificial em tempo fixo (IATF), com menor controle sobre as vacas que entravam em cio espontâneo, principalmente durante a noite. “Percebemos que muitas vacas apresentavam cio durante a madrugada; e como não há monitoramento humano nesse período, estávamos perdendo oportunidades importantes”, conta Daniel.  A solução foi implementar os colares inteligentes Datamars, que monitoram atividade física, comportamento e padrões reprodutivos, enviando alertas em tempo real para um aplicativo. A solução foi implementar os colares inteligentes Datamars, que monitoram atividade física, comportamento e padrões reprodutivos, enviando alertas em tempo real para um aplicativo. 

Com o uso dos colares, a taxa de detecção de cio aumentou consideravelmente, permitindo maior precisão nas inseminações. “Agora conseguimos identificar os animais que realmente estão em estro, sem a necessidade de métodos adicionais, como o uso de bastão marcador”, explica Daniel. Além disso, os colares foram incorporados à rotina de IATF, otimizando os protocolos hormonais e reduzindo custos operacionais.

Monitoramento da saúde e bem-estar animal

Além de otimizar a reprodução, os colares inteligentes Datamars fornecem dados detalhados sobre o comportamento dos animais, auxiliando na identificação precoce de possíveis problemas de saúde. “Os colares enviam alertas quando detectam variações no comportamento, como redução na ruminação ou movimentação atípica, o que contribui para a detecção de doenças”, ressalta Daniel. “Quando recebo uma notificação no celular, acompanho a evolução do quadro antes de qualquer intervenção.”

A tecnologia se tornou aliada estratégica no manejo da fazenda, reduzindo a necessidade de observação manual e permitindo abordagem mais precisa na tomada de decisão.

“Ao combinar a experiência do produtor com nossas soluções tecnológicas, proporcionamos uma gestão mais eficiente e resultados mensuráveis no campo”, destaca Walfredo Zamprogno, gerente regional da Datamars. “O monitoramento contínuo permite a detecção precoce de alterações na saúde dos animais, possibilitando intervenções mais rápidas. O resultado é um rebanho mais saudável, melhor desempenho reprodutivo e manejo mais eficiente dentro da fazenda”, acrescenta.

 “O MONITORAMENTO CONTÍNUO PERMITE A DETECÇÃO PRECOCE DE ALTERAÇÕES NA SAÚDE DOS ANIMAIS, POSSIBILITANDO INTERVENÇÕES MAIS RÁPIDAS. O RESULTADO É UM REBANHO MAIS SAUDÁVEL, MELHOR DESEMPENHO REPRODUTIVO E MANEJO MAIS EFICIENTE DENTRO DA FAZENDA” 



Monitoramento individual e contínuo: os colares Datamars coletam dados sobre ruminação, movimentação e sinais de cio, permitindo identificar alterações sutis na saúde e no ciclo reprodutivo de cada animal


Manejo de bezerras: do nascimento ao desenvolvimento saudável

O cuidado com as bezerras é um dos pontos-chave na Fazenda Oliveira. O sistema adotado é o bezerreiro argentino, modelo que permite melhor controle sanitário e nutricional nos primeiros meses de vida.

O nascimento ocorre no galpão de pré-parto, onde as vacas próximas ao parto são monitoradas de perto. Assim que a bezerra nasce, o funcionário responsável pelo bezerreiro conduz o animal para a estrutura específica, onde são realizadas a cura do umbigo e a administração do colostro. “A ordenha do colostro é feita imediatamente. Se for de uma vaca primípara, com menor volume de produção, utilizamos o colostro armazenado no banco da fazenda”, detalha Daniel.

Nos primeiros cinco dias, as bezerras permanecem em uma estrutura individual, recebendo colostro e leite integral. Depois desse período, inicia-se a transição para o sucedâneo e os animais passam a ser alimentados com ração inicial, estimulando o desenvolvimento ruminal.  “O período de aleitamento dura 90 dias, e acompanhamos o desempenho das bezerras por meio do ganho médio diário (GMD). Atualmente, nossa média é de 630 gramas por dia, indicador que buscamos melhorar continuamente”, destaca Daniel. 

Quando desaleitadas, as bezerras são transferidas para piquetes coletivos, onde continuam o desenvolvimento em grupo, mantendo o acompanhamento nutricional e sanitário. “Nosso objetivo é garantir um crescimento saudável, preparando os animais para se tornarem vacas altamente produtivas no futuro”, finaliza Daniel.



Os colares inteligentes da Datamars monitoram, em tempo real, a atividade, o comportamento e os dados reprodutivos de cada vaca



Na Fazenda Oliveira, o bezerreiro tropical – também conhecido como modelo argentino – oferece às bezerras espaço para que se exercitem, corram e mantenham contato visual com outros animais, favorecendo o desenvolvimento motor, cognitivo e social
 

Visão de futuro: expansão e genética própria

Nos próximos anos, Toninho pretende ampliar a capacidade produtiva da Fazenda Oliveira e consolidar um programa de melhoramento genético próprio. A produção média gira em torno de 6.300 litros de leite por dia, mas a meta é alcançar 8 mil litros em curto prazo e futuramente chegar aos 10 mil litros diários. Para acompanhar esse crescimento, há planos de expandir a estrutura dos galpões. 

Outro grande foco da fazenda para os próximos anos é produzir a própria genética. Embora ainda utilize material genético de outras fazendas, a meta é que a seleção e a multiplicação dos melhores animais sejam feitas internamente. “Esse é o nosso objetivo para um futuro muito próximo. Já começamos a avançar nesse sentido e, neste ano, a prioridade é fortalecer esse trabalho”, explica Toninho.

Atualmente, a fazenda realiza a transferência de embriões, mas está avançando para um novo nível de tecnologia reprodutiva. Toninho acrescenta: “Agora, estamos iniciando a aspiração folicular para produzir nossos animais meio-sangue aqui na fazenda”.

Nos últimos meses, Toninho passou a contar com um apoio ainda mais próximo. Além dos irmãos, que atuam nos diferentes negócios da família, sua esposa, Kamilla Áurea, passou a integrar a gestão da fazenda.

Muito além dos números e do alcance das metas, a Fazenda Oliveira é o reflexo da força de uma família. A história de Toninho é bonita. É a prova de que trabalho, humildade e confiança no futuro são os verdadeiros alicerces do crescimento. 

Guiado pela determinação, Toninho segue construindo, evoluindo e compartilhando o sucesso – com a família, os funcionários, a comunidade e todo o setor leiteiro. E isso é raro.


Olhar para o futuro: investir em bem-estar animal e tecnologia é construir em um amanhã mais produtivo, sustentável e equilibrado





 


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