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Nutrição

Panorama da qualidade das silagens de milho no Brasil

Panorama da qualidade das silagens de milho no Brasil

Texto: Marcelo Hentz Ramos

 Os cuidados com a silagem de milho devem ir desde a preparação do solo e escolha do híbrido, até o fornecimento da dieta no cocho. Neste artigo, mostramos alguns resultados de análises de amostras de silagem, de praticamente todos os estados brasileiros, discutindo os níveis de qualidade do material final.

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Silagem de milho deve ser caracterizada como um material que foi produzido levando em considerações a correção do solo, plantio adequado, tratos culturais, colheita rápida e com processamento de grãos, ensilado rápido e com densidade correta para gerar um perfil de fermentação que ajudará na minimização da perda de nutrientes nobres, e com um manejo de face que permita uma retirada em que o alimento oferecido seja muito próximo do alimento que está no silo. Esta é uma definição muito interessante de silagem de milho, pois demonstra a preocupação existente desde a amostragem de solos até o material oferecido à vaca. Iremos discutir um pouco sobre a qualidade do material final, lembrando que todos os fatores discutidos acima interagem para alterar os valores dos nutrientes expressos no laudo.

 

Análises e implicações práticas

Importante levarmos em consideração que os resultados aqui discutidos representam amostras de silagens de praticamente todos os estados brasileiros. Na tabela 1 podemos observar os valores mínimos, máximos, média e desvio padrão (DP) das amostras analisadas durante o ano de 2015. O primeiro ponto a ser analisado é a variação existente na porcentagem de matéria seca (MS) do material. Amostras com menos de 30% de MS e acima de 40% de MS não são desejadas. No primeiro caso, por ser muito úmido e apresentar uma perda grande de nutrientes importantes no silo; e no segundo, por dificuldades de compactação.

Então, qual seria a matéria seca ideal? Nós acreditamos que um valor entre 35% e 40% seria ideal. A média brasileira é de 36%, um número que nos agrada.

Quando passamos a analisar o FDN do material, notamos materiais com 35% a 62% de FDN, sendo que esta variação é muito grande e precisamos trabalhar para diminuí-la. Nota-se também um DP do FDN ao redor de cinco unidades. Mas uma silagem com 40% de FDN é melhor que uma silagem com 45% de FDN? Muitos diriam que sim, mas precisamos entender do que este FDN é feito, e neste ponto começamos a discutir mais sobre qualidade de fibra em breve.

Amido, um ponto de extrema importância, deve ser no mínimo de 9% e máximo de 43%. Em algumas regiões, 25% de amido é um número alto; em outras, 35% é um número médio. Quanto mais amido, melhor, sem dúvida. Importante lembrarmos do processamento do mesmo antes de entrar no silo. Depois que o silo foi feito, uma ferramenta que está à disposição do produtor é o tempo de silo: quanto mais tempo, mais leite, pois o amido torna-se mais disponível. Lembre-se que esta afirmação funciona para silos bem feitos; se o mesmo não foi bem compactado, quanto mais tempo pior, pois estaremos perdendo material nobre para produção de ácidos indesejáveis. Com o preço do milho do mercado, certamente queremos aproveitar cada grão da espiga. Ferramentas como balde de água, KPS e amido fecal podem ajudar o nutricionista a identificar oportunidades para o próximo ano. Mas só para o próximo ano!

Com relação ao perfil de fermentação temos que ter uma atenção muito especial. Do que adianta fazer análise de solo, agricultura de precisão, campo experimental para escolher o melhor híbrido, comprar os melhores adubos, controle e monitoramento de pragas, contratar automotriz para colher e depois entender que o silo não ficou bem feito? Temos que entender que a armazenagem do material é um ponto de estrangulamento para produção de silagem no mundo. Estas são palavras do Dr. Undersander, professor da Universidade de Wisconsin, nos EUA, e juiz da Taça Brasil de Silagem de Milho (concurso realizado no Brasil, com divulgação de resultados durante o Interleite Brasil).

Foram mais de 30 anos atuando com vários extensionistas no estado para mostrar e provar para os produtores que o ponto ideal de corte é entre 35% e 40% de matéria seca, e que o processamento do material e fechamento do silo precisa ser em um dia. Sim, um dia! Hoje, 90% das fazendas do estado enquadram-se neste perfil.

Temos que entender que precisamos ter um alinhamento muito grande entre o pessoal que está cortando e o pessoal que está compactando. Principalmente em situações nas quais uma automotriz está trabalhando, o pessoal que está compactando não consegue acompanhar, pois chega muito material rapidamente. Se os compactadores não conseguem acompanhar, não conseguem compactar, o que irá gerar uma estrutura de silo que permite entrada de ar. O restante vocês já conhecem, e trata-se da perda de material nobre.

É possível produzir um silo com 700 kg de MS/m3 e pH abaixo de 4? Sim, e é essencial para o sucesso na atividade, ainda mais em fazendas que não conseguem produzir a forragem que precisam. Perder 20% a 30% de matéria seca no silo não é mais tolerável em um momento de ajuste fino e busca por eficiência em gestão.

Um ponto que focamos muito e que a Taça Brasil de Silagem de Milho está nos ajudando é na qualidade da fibra. Qualidade de fibra pode ser avaliada utilizando: digestibilidade do FDN, kd do FDN, FDNu e TTNDFD. Digestibilidades, kd e FDNu estão relacionados à fermentação da fibra no rúmen somente; já o TTNDFD está relacionado à digestibilidade da fibra no trato gastrointestinal total. Para cada unidade de aumento na digestibilidade do FDN temos um aumento de 180 g de consumo de matéria seca. Esta correlação foi encontrada por pesquisadores que trabalham muito com fibra, e é utilizada em palestras para mostrar a importância da qualidade da fibra no consumo e produção de leite. Estamos buscando a digestibilidade semelhante à hora que esta representa. Um exemplo de meta para digestibilidade de FDN em 24 horas seria 24%, de 30 horas 30% e 48 horas 48%. Observamos que podemos ter material com FDN baixo, exemplo 40%, mas com digestibilidades pobres, um material não desejado para ruminantes. O kd do FDN precisa ser utilizado diretamente nos modelos de formulação de dietas, pois este é o valor que os modelos precisam para estimar a qualidade da fibra do material. Um kd de 2.4 vs. um kd de 4.1, representa uma diferença na produção de aproximadamente 2 litros de leite, sem modificação alguma na dieta (concentrado, volumoso, etc..).

Qual híbrido eu busco? Certamente um material saudável e com maior produção de leite por hectare (vide dois depoimentos), e que esteja adaptado às condições onde o mesmo será cultivado. Sendo assim, procuramos um material que é aprovado nas características agronômicas, que produza muito, com baixa fibra de qualidade e alto amido de qualidade. Existem híbridos que se encaixam nesta classificação. Como fazer a melhor escolha técnica? Faça um campo de comparação de híbridos na fazenda e compare os resultados. Um material que funcione bem no Sul do país pode não funcionar no Centro-Oeste. Como exemplo, a Universidade de Wisconsin possui uma série de campos experimentais no estado. Em cada campo experimental eles mostram os 2-3 melhores híbridos para silagem, estes são os materiais que os produtores compram para plantar nas fazendas.

 

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