Para onde vamos? Produtores revelam o que projetam para 2026 e quais caminham pretendem construir
Produtores de diferentes regiões do país revelam o que projetam para 2026 e quais caminhos pretendem construir
O leite brasileiro se move por muitas rotas. De norte a sul, cada propriedade segue o próprio compasso – clima, solo, genética, sistemas de produção, mão de obra, expectativas e desafios particulares. Ainda assim, há um ponto comum entre elas: a urgência de desenhar estratégias com clareza. Em um setor que reage com velocidade às mudanças econômicas e tecnológicas, 2026 se aproxima exigindo planejamento, foco e capacidade de adaptação.
Para construir esse panorama, a Revista Leite Integral reuniu depoimentos de produtores das mais diversas regiões do país. São vozes que traduzem, cada uma a seu modo, prioridades, inquietações e esperanças de quem produz. Juntas, ajudam a visualizar para onde aponta a bússola da atividade: quais caminhos ganham força, quais preocupações se repetem e quais oportunidades começam a ganhar contorno.
ARMANDO DE PAULA CARVALHO FILHO Agropecuária Arkafla - Castro/PR
“Entramos em 2026 carregando uma pergunta que ronda todo produtor de leite: onde está, afinal, o fundo do poço dos preços? Para quem vive a realidade do sistema Pool Leite, como eu, tudo indica que o pior momento deve se concentrar em janeiro. A partir daí, fevereiro costuma sinalizar uma recuperação, movimento que depende de três fatores que já começam a se desenhar. O primeiro é a própria oferta: preços baixos reduzem investimentos e retraem volumes em muitas regiões. O segundo é o câmbio, cuja recente alta ajuda a frear importações. E o terceiro vem da esfera política: entidades e lideranças têm pressionado por medidas que limitem o impacto do leite importado sobre o produtor brasileiro.
Diante desse cenário, não há espaço para dispersão. É hora de ajustar contas, rever processos e encarar a eficiência como condição de permanência. Em momentos difíceis, a atividade obriga o produtor a ser mais preciso. E esse aperto gera evolução. No campo macroeconômico, enfrentamos outro obstáculo: a taxa de juros. Poucos negócios conseguem operar com o patamar atual. Há expectativa de cortes ao longo do próximo ano, mas 2026 também será um ano eleitoral, o que exige cautela redobrada. O Brasil testa o nosso estômago: é preciso resistir.
Aqui na fazenda, nossa estratégia é clara. A tecnologia entra como ferramenta para diluir custos, organizar informações e sustentar decisões. A consolidação da pecuária leiteira está avançando rápido, e períodos de crise aceleram esse processo. Muitos produtores não conseguem permanecer, e a produção se concentra. O nosso desafio é continuar firmes, sem ficar pelo caminho. Não é simples, não é fácil, mas seguimos trabalhando e usando tudo que está ao nosso alcance para atravessar esse momento.”
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FABIANA SOARES FERREIRA Agro Guia – Vargem Bonita/MG
“Para 2026, não espero um cenário fácil para a pecuária leiteira. A queda acentuada do preço do leite, que não reflete a realidade da produção, aumenta a pressão sobre o produtor e exige uma gestão ainda mais cuidadosa.
Na nossa propriedade, um negócio familiar em sistema Compost Barn, o foco tem sido segurar custos, melhorar a eficiência e evitar desperdícios para atravessar esse momento com mais segurança. A prioridade é manter a atividade organizada e sustentável, evitando passos maiores do que a fazenda permite.
Apesar das dificuldades, acredito que o setor passa por um período de ajuste e tende a se reorganizar. O leite continua sendo um alimento essencial, e quem conseguir enfrentar essa fase com planejamento deve sair fortalecido.”

FERNANDO MACHADO E SILVA Agropecuária Carola & Machado – Coromandel /MG
“Se esta conversa tivesse acontecido há seis meses, minha visão para 2026 seria outra. Naquele momento, nosso plano era crescer em ritmo acelerado, com um investimento robusto já previsto em orçamento. O segundo semestre de 2025 trouxe dois fatores muito graves para o setor. O primeiro, específico da pecuária leiteira, foi a importação em volumes elevados, derrubando o preço do leite a patamares insustentáveis. A rentabilidade praticamente desapareceu no último mês. O segundo fator foi a taxa de juros, que continua muito alta, tornando a captação de recursos escassa e cara. Isso mexe diretamente com qualquer estratégia de investimento.
Diante desse cenário negativo, tivemos que mudar de postura. Não vamos parar de crescer, porque acreditamos no caminho que traçamos, mas estamos desacelerando. O plano original incluía a construção de uma nova ordenha, com sala de espera, ampliação de 14 para 48 conjuntos, e mais três barracões: um para recria jovem, um para recria adulta e outro para as vacas. Esse orçamento estava desenhado até julho de 2026. Agora, em janeiro, teremos de repensar tudo.
Para 2026, o resumo é este: reduzir velocidade, observar o mercado e aguardar algum movimento do governo diante da importação de leite, que hoje distorce totalmente os preços e impede a rentabilidade. Se houver mudança nesse quadro, poderemos retomar o crescimento acelerado que estava previsto. Até lá, prudência.

JOÃO PAULO TIAGO SANTANA Fazenda Lageado – Lagoa Formosa/MG
“A atividade leiteira nunca foi simples. Os desafios aparecem todos os dias e fazem parte da rotina de quem produz. Mesmo assim, acredito que são justamente esses obstáculos que nos mantêm motivados: eles nos dão gás para continuar, melhorar e seguir contribuindo para alimentar o mundo. Para 2026, espero que a fazenda mantenha o ritmo de crescimento dos últimos anos. Trabalhamos para atrair e desenvolver pessoas, porque nada funciona sem equipe. Treinar, capacitar e construir gestão sólida dentro da fazenda é prioridade e é isso que sustenta qualquer avanço.
O nosso foco é evoluir em todos os indicadores, dos zootécnicos aos financeiros. Os próximos anos devem vir com margens mais apertadas, o que exige eficiência, profissionalismo e atenção diária ao detalhe. Acredito que esse é o caminho para atravessar períodos mais difíceis: fazer bem-feito, com responsabilidade e preparo. Se mantivermos esse rumo, continuaremos crescendo, mesmo diante dos desafios que o setor impõe.”

JÚLIO CÉSAR DIAS PEREIRA Fazenda Fazendinha – Três Corações/MG
“Desde que assumi a fazenda ao lado do meu pai, em 2016, nunca vivi um cenário tão desafiador quanto o que se desenha para 2026. Vamos iniciar o ano com o preço do leite praticamente empatado com o custo de produção, sem perspectiva clara de melhora. Essa condição reforça, mais do que nunca, a importância da gestão e da eficiência dentro da porteira. Acredito que 2026 deixará ainda mais evidente a saída de propriedades que não conseguem operar com organização e precisão.
Depois de alguns anos importantes de investimento em crescimento e escala, nosso foco agora é transformar escala em eficiência e eficiência em resultado. Entramos em 2026 com a meta de reduzir o custo por litro sem comprometer desempenho, consolidar os investimentos recentes, fortalecer a gestão de pessoas e produzir mais leite por área. Será um ano exigente, mas acreditamos que esse ajuste fino é o caminho para manter a fazenda preparada para o futuro."

MÁRCIO JOSÉ LEWE Agropecuária Lewe – Saldanha Marinho/RS
“O cenário para 2026 deve ser de cautela. A economia segue instável, com preços de commodities em níveis baixos, taxa de juros muito alta e acesso ao crédito limitado, condições que dificultam decisões de longo prazo e pesam sobre a atividade leiteira. Depois de anos de bom crescimento, a queda brusca no preço do leite, uma das mais fortes das últimas duas décadas, freou grande parte do otimismo. Isso impacta diretamente projetos que vinham sendo planejados, inclusive os nossos.
Aqui, a situação não é diferente do restante do país. Tínhamos uma expansão prevista, mas, diante do custo do dinheiro e da incerteza do mercado, decidimos adotar uma postura mais prudente. O momento pede observação, manutenção e organização da casa, evitando entrar em investimentos pesados em um ano que reúne juros altos e eleição. A prioridade é revisar custos e buscar lucratividade mesmo com preços pressionados. Em tempos favoráveis, alguns gastos passam despercebidos; agora, tudo precisa ser reavaliado. A expectativa, portanto, é que 2026 seja um ano de passos calculados, ajustes e foco no essencial.”

MARIA ANTONIETA GUAZZELLI Agropecuária Rex – Boa Esperança/MG
“Entramos em 2026 com a clareza de que não será um ano fácil para a pecuária leiteira. Os preços seguem em queda, as margens continuam apertadas e tudo indica que 2026 e 2027 serão anos de crise. Crise não significa paralisia. Para mim, ela é o ponto em que a necessidade, a verdadeira mãe da inovação, impulsiona os produtores a buscar alternativas, rever processos e se tornar mais eficientes.
Esse movimento começa dentro das fazendas. Pessoas precisam ser desenvolvidas, engajadas e eficientes; manejos precisam ser revisados com mente aberta, mesmo quando parecem “ótimos”. Cada detalhe da operação deve ser observado com rigor: da ventilação ao trato, da cria à recria, dos equipamentos de ordenha ao uso real das tecnologias já contratadas. O objetivo é simples: eliminar desperdícios, otimizar insumos e ganhar eficiência operacional. O mais importante é que essa eficiência conquistada por necessidade permanece depois que a crise passa.
No entanto, eficiência interna não é suficiente. Em 2026, será fundamental trazer os fornecedores para a conversa, porque eles também precisam ajustar margens e participar do esforço de sustentabilidade econômica do produtor. Da mesma forma, cooperativas e associações de classe terão papel decisivo. Cooperar ativamente, no sentido mais literal, significa contribuir ativamente, democratizar acesso à tecnologia, representar os produtores e ampliar a força coletiva em temas estruturantes, como comércio, defesa setorial e políticas de proteção ao leite brasileiro. Portanto o associativismo é fundamental para a defesa das nossas necessidades de forma organizada e assertiva.
Se a crise é inevitável, o que está ao nosso alcance é transformar esse período em um ciclo de reorganização, melhoria e inovação. É essa a postura com que sigo para 2026.”

PÉRICLES AFONSO MONTEZUMA JÚNIOR NZ Agro – Umirim/CE
“Na minha avaliação, o primeiro trimestre de 2026 será tão desafiador quanto o segundo semestre de 2025. O preço do leite deve continuar pressionado. Mesmo com a taxação sobre as importações de leite em pó, o efeito real só deve aparecer cerca de 30 dias depois que os estoques excedentes se encerrarem.
Quanto ao nosso negócio, seguimos avançando. O plano para 2026 e 2027 é ampliar a produção total e a produção por vaca. Acredito que essa crise, que atravessou 2025 e deve se prolongar em 2026, trará ganhos reais para quem persistir, especialmente para quem tem gestão sólida e projetos bem estruturados.”

PAULO HENRIQUE MARTINS GARCIA Fazenda São João / True Type – Inhaúma/MG
“Diante do cenário econômico atual, marcado por consumo desaquecido, aumento da produtividade, crédito limitado pelos juros altos (mesmo que haja redução para algo próximo de 12%, ainda é um patamar elevado), importações de leite muito intensas e as incertezas de um ano político, nossa estratégia para 2026 é não realizar grandes investimentos. Vamos concentrar esforços na redução consistente de custos e na melhoria contínua da eficiência produtiva. É um momento que exige cautela, gestão precisa e decisões calculadas.”

RICARDO FERREIRA GODINHO Agropecuária Tucaninha – São João Batista do Glória (MG)
“O setor chega a 2026 carregando impactos importantes de 2025. A produção cresceu de forma expressiva, e muitos atribuem esse aumento apenas aos bons preços de 2024. Mas, na minha visão, isso não explica tudo. Houve avanço real em gestão de processos, tecnologia e assistência técnica, fatores que sustentam ganhos mais consistentes. Essa combinação, somada ao aumento das importações desde 2022, resultou em excesso de oferta justamente no momento em que o preço do leite passou a cair com força.
Também chama atenção a distribuição das margens dentro da cadeia. Produtor e indústria vêm absorvendo as perdas, enquanto o varejo mantém suas margens praticamente inalteradas. E, mesmo assim, quando o preço ao consumidor sobe, é sempre o produtor que vira alvo, como se fosse o único responsável. Isso precisa entrar no debate: não há solução para o leite sem discutir todos os elos.
Para 2026, espero um ano desafiador. As propriedades que já trabalham com gestão sólida e controle de processos tendem a suportar melhor o período, mas eficiência deixou de ser diferencial e virou premissa básica de sobrevivência. O setor precisa, de fato, discutir a cadeia como um sistema integrado. Não adianta cobrar profissionalização apenas do produtor se indústria, atacado e varejo não estiverem na mesma conversa.
Na nossa propriedade, o foco será continuar aprimorando gestão e processos. Fazer o básico muito bem-feito, sem aceitar o “mais ou menos”, é o ponto de partida; depois disso, aperfeiçoar e avançar. Melhorar processos de forma contínua é o caminho que escolhemos para permanecer competitivos em um mercado cada vez mais exigente.”

VALÉRIA GOMES DA SILVA MARÇAL Fazenda VR – Orizona/GO
“Não espero que 2026 seja um ano simples. O agronegócio deve enfrentar desafios importantes: mudanças tributárias, juros altos, calendário eleitoral cheio de incertezas e muitos feriados prolongados, que sempre afetam o ritmo das atividades. Na pecuária leiteira, os custos de produção continuarão elevados, pressionando ainda mais a rentabilidade.
Diante desse cenário, nosso plano é manter um controle rigoroso dos custos e buscar eficiência em cada detalhe do trabalho. Vamos concentrar esforços naquilo que está ao nosso alcance. Fazer o melhor da porteira para dentro e segurar os investimentos maiores enquanto o mercado não dá sinais mais claros de estabilidade.”

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