Prejuízos e controle: saiba tudo sobre a tristeza parasitária bovina e seus agentes causadores
Entenda como os agentes envolvidos na tristeza parasitária bovina afetam o desempenho dos animais e o que fazer para controlar essa grande ameaça na pecuária
A tristeza parasitária bovina (TPB) é um complexo de doenças de grande impacto na pecuária, gerando perdas econômicas e prejuízos na criação. Esse complexo envolve duas principais enfermidades: a babesiose, causada por dois protozoários (Babesia bovis e Babesia bigemina); e a anaplasmose, causada por uma bactéria (Anaplasma marginale). Esses agentes parasitam as hemácias do animal, que são células do sangue responsáveis pelo transporte de oxigênio pelo corpo. Todos os três agentes são transmitidos ao bovino por meio da picada do carrapato do boi (Rhipicephalus microplus), o qual, ao se alimentar de sangue, introduz os agentes na corrente sanguínea do animal. No caso de A. marginale e B. bovis, outra forma de transmissão é quando a vaca infectada passa os agentes para o feto durante a gestação, o que representa grande importância na criação de bezerras. Além disso, a bactéria A. marginale pode ser transmitida por moscas e mosquitos que se alimentam de sangue e pela utilização de instrumentos e agulhas contaminadas.
A tristeza no rebanho
Apesar das diferentes formas de transmissão, o carrapato do boi merece destaque, pois, a ocorrência e distribuição da TPB está intimamente relacionada à sua presença. Devido às condições climáticas que permitem que a população do carrapato se desenvolva durante todo o ano, observa-se esta distribuição principalmente em áreas tropicais e subtropicais, onde predominam temperaturas mais quentes.
Ao contrário do que se pensa, o contato com o carrapato e com os agentes por ele transmitidos pode ser a solução para problemas clínicos gerados pela TPB. Permitir que as bezerras sejam parasitadas pelo carrapato do boi de forma controlada e tenham contato com os agentes nos primeiros meses de vida, e durante toda a vida, é importante para o desenvolvimento do sistema imunológico. Ou seja, o contato estimula a defesa do organismo, tornando-as capacitadas para combater a doença e evitar sinais clínicos mais graves.
Por outro lado, aqueles bovinos que estabeleceram contato tardio ou permaneceram muito tempo sem o carrapato, irão apresentar a doença de forma mais grave, pois seu sistema imune não está apto para combater os agentes. Por esse motivo, em regiões onde o carrapato não se desenvolve durante todo o ano, devido a condições climáticas desfavoráveis, a TPB é um problema maior. Essas regiões são caracterizadas como zonas de instabilidade.
No Brasil observamos este comportamento principalmente em regiões dos estados do sul do país, em que a estação fria do ano não permite o desenvolvimento do carrapato e, por consequência, os bovinos passam longos períodos sem o contato com os agentes da TPB, tornando-se adultos sensíveis. Outro fator de risco ocorre quando o animal nasce e cresce em zonas de instabilidade e, posteriormente, já adulto, é transferido para áreas onde o carrapato é muito frequente. Nesses casos, ao entrar em contato com os agentes sem um sistema de defesa adequado, os animais podem desenvolver quadros graves da doença.
Em contrapartida, as áreas de estabilidade são aquelas em que há equilíbrio entre a imunidade dos animais e a presença da doença, sendo que a maior parte deles se torna portadora assintomática dos agentes da TPB. Essa condição é favorecida pela infecção precoce — isto é, quando os bovinos entram em contato com os agentes ainda como bezerros — e pela manutenção controlada da população do carrapato do boi durante todo o ano.
Além das condições climáticas, outros fatores interferem na epidemiologia da doença. A raça do animal, por exemplo, é um fator que influencia a suscetibilidade dos animais à ocorrência de sinais clínicos. Sabe-se que os taurinos são mais sensíveis aos carrapatos e, por consequência, também são mais sensíveis à TPB. Os zebuínos, por outro lado, são naturalmente mais resistentes. A idade também é um ponto importante neste contexto. Animais mais jovens tendem a ser mais resistentes, pois receberam anticorpos da mãe por meio do colostro, apresentam uma maior produção de hemácias e uma resposta imune mais rápida. Além disso, outros fatores como a ocorrência de doenças concomitantes, estado nutricional do animal e estresse, que comprometem o sistema imune, podem estar associados a quadros mais graves da doença.
Entenda os prejuízos para o rebanho
Embora os sinais clínicos sejam parecidos em todas as faixas etárias, a gravidade pode ser maior em animais adultos que nunca tiveram contato prévio com os agentes, como é o caso daqueles que foram recriados em ambientes não favoráveis ao vetor biológico, o carrapato do boi.
Ainda que os três agentes envolvidos causem sinais clínicos semelhantes nos seus hospedeiros como anemia, febre, icterícia (mucosas amareladas), falta de apetite, prostração, pelo arrepiado e outros, existem alguns sinais que se apresentam mais evidentes na infecção por cada agente. Em infecções por B. bovis, por exemplo, os sinais neurológicos tendem a ser mais frequentes devido a sua predileção pelo sistema nervoso, podendo provocar descoordenação e, em casos mais graves, quedas e movimentos de “pedalagem”.
Por outro lado, B. bigemina é frequentemente associada à hemoglobinúria (presença de “sangue” na urina) devido à anemia intensa que leva ao rompimento das células sanguíneas dentro dos vasos, resultando em urina de coloração escura, conhecida popularmente como “urina de coca-cola”. Já A. marginale provoca anemia autoimune severa, caracterizada por coloração pálida das mucosas e rápida baixa de volume globular (porcentagem do sangue composta por hemácias) do animal.
Animais infectados com os agentes da TPB podem ainda apresentar problemas reprodutivos, como abortos, afetando a capacidade do rebanho de se reproduzir de forma eficiente com dificuldades para conceber ou manter a gestação até o fim, resultando no aumento do intervalo de partos e, consequentemente, menor número de bezerras na propriedade. Mesmo quando a doença não resulta em morte dos animais, podem haver sequelas, como queda da sua qualidade produtiva, seja carne ou leite. Em resumo, isso significa menos leite para vender e mais comida para engordar, impactando diretamente na rentabilidade da propriedade.
O controle dos vetores da TPB apresenta desafios significativos para os produtores rurais. Uma das maiores dificuldades está na capacidade de perpetuação desses parasitas no ambiente, bem como no desenvolvimento de resistência aos medicamentos quando utilizados de forma inadequada. Sabe-se que apenas um carrapato pode ser suficiente para transmitir os agentes causadores da TPB. Embora o foco muitas vezes esteja no controle de carrapatos, é igualmente importante não negligenciar moscas e mosquitos, que também podem desempenhar papel relevante na transmissão de patógenos, como A. marginale e até mesmo Trypanosoma vivax.
A TPB pode causar prejuízos de até 500 milhões de dólares por ano, e estima-se que cerca de 5% dos animais acometidos morram em decorrência da doença. Por isso, medidas preventivas são essenciais, pois um rebanho bem monitorado e manejado adequadamente tende a reduzir significativamente o risco de surtos.
O CONTROLE DOS VETORES DA TPB APRESENTA DESAFIOS SIGNIFICATIVOS PARA OS PRODUTORES RURAIS. UMA DAS MAIORES DIFICULDADES ESTÁ NA CAPACIDADE DE PERPETUAÇÃO DESSES PARASITAS NO AMBIENTE, BEM COMO NO DESENVOLVIMENTO DE RESISTÊNCIA AOS MEDICAMENTOS QUANDO UTILIZADOS DE FORMA INADEQUADA
Como tratar a TPB?
O sucesso do tratamento contra a TPB depende diretamente da fase em que a doença é diagnosticada. Quando identificada precocemente, o período de convalescença, ou seja, a recuperação após a fase aguda, tende a ser mais curto. Por isso, o monitoramento constante dos animais pertencentes ao grupo de risco é fundamental. O tratamento deve ser realizado com medicamentos específicos, seguindo rigorosamente as doses recomendadas, a fim de evitar efeitos colaterais e o desenvolvimento de resistência.
O uso massivo e repetido desses medicamentos, comum em fazendas onde não é feito o diagnóstico correto, pode levar à resistência dos parasitos aos tratamentos disponíveis. Além disso, a TPB pode ser confundida com pneumonia, já que ambas apresentam sintomas como febre, aumento da frequência respiratória e apatia. Essa confusão leva, muitas vezes, a tratamentos incorretos, agravando a situação de saúde do animal.
Animais infectados ficam debilitados e o tratamento suporte é fundamental, contribuindo para a recuperação e evitando complicações secundárias, como pneumonia. A associação dos medicamentos específicos com fluidoterapia, ajustada conforme o grau de desidratação e a condição clínica do animal, é essencial para o sucesso do tratamento, reduzindo a probabilidade de complicações.
O uso de medicamentos na profilaxia pode ser ferramenta útil no programa de monitoramento, especialmente quando aplicada em animais de grupos de risco. Contudo, essa abordagem apenas ameniza os sinais clínicos, não prevenindo totalmente o desenvolvimento da doença. O uso contínuo e sem estratégia adequada pode resultar em resistência e intoxicação.
Monitoramento e controle da TPB
Para o estabelecimento de estratégias de controle de qualquer doença, é imprescindível compreender a enfermidade e identificar seus fatores de risco. Fator de risco é qualquer característica ou comportamento relacionado ao ambiente, agente causador da doença ou ao animal hospedeiro que pode aumentar a probabilidade de ocorrência da doença. Dessa forma, é necessário identificar e corrigir falhas de manejo, estruturas ou procedimentos que comprometam a saúde dos animais. Para assegurar a detecção dos indivíduos infectados, torna-se indispensável a realização de monitoramento criterioso.
Para o estabelecimento de uma metodologia e de uma rotina de monitoramento, é necessário realizar um estudo da epidemiologia da doença na propriedade. Devem ser considerados fatores como a época do ano com maior número de casos, a faixa etária mais acometida e a quantidade de animais dentro desse grupo de interesse. Com essas informações, torna-se possível determinar qual categoria deverá ser priorizada no monitoramento e definir uma rotina adequada para o procedimento. Diversas metodologias de monitoramento da TPB podem ser utilizadas, e a escolha deve basear-se no estudo específico da fazenda, ajustando-se à demanda existente. Assim, cada propriedade contará com protocolos e rotinas próprios, adequados às suas necessidades.
O monitoramento clínico diário dos animais é fundamental, não apenas para a TPB, mas também para outras enfermidades veterinárias. Esse acompanhamento deve ser realizado por colaborador devidamente treinado, responsável por observar diariamente os animais e identificar possíveis alterações de comportamento e/ou parâmetros fisiológicos. Quando houver suspeita de doença, os sinais clínicos observados devem orientar a definição do diagnóstico provável e a instituição do tratamento adequado. No caso da TPB, esse tipo de monitoramento baseado em sinais clínicos requer que os animais suspeitos sejam tratados contra ambos os agentes — Anaplasma e Babesia — uma vez que não é possível determinar o agente específico envolvido.
Existem ainda formas de monitoramento mais direcionadas à detecção da TPB, que aumentam a precisão diagnóstica. Uma das estratégias consiste no monitoramento rotineiro da temperatura retal dos animais. Para isso, a rotina deve ser previamente estabelecida, com divisão dos animais em grupos, de modo a possibilitar a aferição nas primeiras horas do dia, quando a temperatura ambiente é mais amena. São considerados suspeitos os animais que apresentarem temperatura retal superior a 39,5 ºC. A frequência das aferições deve ser ajustada conforme o tamanho do rebanho, sendo que quanto maior a frequência, maior a eficiência do monitoramento.
Outra estratégia consiste na avaliação rotineira do volume globular (VG). Para essa análise, coleta-se uma amostra de sangue em vaso sanguíneo da orelha, utilizando capilar de micro-hematócrito contendo anticoagulante (Figura 1). O procedimento envolve a punção superficial com agulha individual e descartável, o preenchimento do capilar com sangue, sua vedação (com massa específica para capilares ou em chama) e posterior centrifugação. Alternativamente, a coleta pode ser realizada em tubos a vácuo com anticoagulante; nesse caso, a amostra deve ser homogeneizada antes do preenchimento do capilar, seguindo-se o mesmo protocolo de centrifugação e leitura.

Após a centrifugação das amostras de sangue em capilares para micro-hematócrito, utiliza-se o cartão de leitura específico, que permite obter o valor percentual de hemácias (Figura 2). São considerados anêmicos e, portanto, suspeitos de enfermidade, os animais que apresentarem volume globular (VG) menor ou igual a 24%. Esses animais devem ser tratados para anaplasmose e babesiose. Essa técnica apresenta maior especificidade em relação ao monitoramento clínico e à aferição da temperatura retal, uma vez que a principal causa de anemia em animais na fase de recria é a TPB.
Uma das estratégias mais eficientes na detecção da TPB hoje é a associação da aferição da temperatura retal com a coleta de esfregaço sanguíneo para análise em microscópio. Nesse monitoramento, a aferição da temperatura é realizada como triagem e a microscopia utilizada como método confirmatório para a doença. Na aferição da temperatura, todo animal que apresentar temperatura retal maior ou igual a 39,5ºC deverá ter uma amostra de sangue periférico coletada e realizado esfregaço. Para isso, com agulha hipodérmica individual e descartável, perfura-se a ponta da cauda do animal, e o sangue é prontamente depositado em uma lâmina para realização do esfregaço, conforme esquema da Figura 3.


Após a secagem, o esfregaço deve ser submetido a coloração e posteriormente analisado em microscópio (Figura 4). Nesse exame, é possível visualizar as células em busca dos agentes causadores da TPB (Figura 5). Essa técnica é a única que possibilita o tratamento específico contra Anaplasma, Babesia ou ambos, pois se baseia no diagnóstico direto pela observação do parasito. O diagnóstico da anaplasmose é estabelecido pela determinação da porcentagem de células parasitadas (parasitemia), enquanto, para babesiose, basta a identificação do parasito, sendo ainda possível diferenciar animais positivos para B. bovis e/ou B. bigemina. Além de detectar a doença, essa metodologia permite o acompanhamento clínico, possibilitando o monitoramento da redução da parasitemia por A. marginale e da presença ou ausência de Babesia, o que contribui para avaliar a eficácia dos protocolos terapêuticos.
A utilização da microscopia como metodologia confirmatória constitui não apenas a estratégia mais específica, mas também a mais desejável. O tratamento direcionado para os agentes identificados possibilita o uso racional de antimicrobianos, uma vez que apenas os animais com diagnóstico confirmado são tratados. Esse enfoque contribui para retardar o desenvolvimento de resistência dos patógenos às bases medicamentosas utilizadas, além de reduzir custos com tratamento, aumentar a eficiência diagnóstica e acelerar a recuperação dos animais acometidos. Entretanto, por se tratar de uma metodologia que exige maior nível de tecnificação, requer investimentos em estrutura, equipamentos, treinamento especializado e acompanhamento por médico-veterinário responsável.

Figura 4. Visualização de esfregaços sanguíneos em microscópio óptico para pesquisa dos agentes da TPB

Estratégias de monitoramento e manejo sanitário
Cada estratégia de monitoramento apresenta vantagens e limitações, podendo exigir investimentos em infraestrutura, capacitação da equipe ou aquisição de equipamentos específicos. O estudo detalhado da propriedade e a definição de uma metodologia adaptada à sua realidade são fundamentais para assegurar a eficiência e a rentabilidade do procedimento.
O estabelecimento de um protocolo de monitoramento da TPB não exclui a necessidade de um manejo sanitário planejado e bem executado, do controle efetivo de vetores e da investigação de outras doenças que possam acometer o rebanho. As estratégias de diagnóstico e monitoramento devem sempre priorizar a detecção precoce, prevenindo a evolução para quadros graves e reduzindo a mortalidade.
CADA ESTRATÉGIA DE MONITORAMENTO APRESENTA VANTAGENS E LIMITAÇÕES, PODENDO EXIGIR INVESTIMENTOS EM INFRAESTRUTURA, CAPACITAÇÃO DA EQUIPE OU AQUISIÇÃO DE EQUIPAMENTOS ESPECÍFICOS. O ESTUDO DETALHADO DA PROPRIEDADE E A DEFINIÇÃO DE UMA METODOLOGIA ADAPTADA À SUA REALIDADE SÃO FUNDAMENTAIS PARA ASSEGURAR A EFICIÊNCIA E A RENTABILIDADE DO PROCEDIMENTO
Agradecimentos
Os autores agradecem ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPq e à Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado de Minas Gerais – FAPEMIG pelas bolsas concedidas, bem como à FAPEMIG, processos RED-00132-22, APQ-00708-21 e APQ-02531-24, pelo apoio financeiro.
Autor
LeiteInova
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