Tecnologia revoluciona o setor leiteiro e otimiza o manejo dos animais
Sensores, inteligência artificial e monitoramento remoto estão revolucionando o setor leiteiro, permitindo que produtores entendam melhor o comportamento do rebanho, otimizem a produção e garantam mais saúde e conforto aos animais
Ouvir e entender os animais sempre foi um desejo antigo dos seres humanos, sendo até mesmo tema central de diversos filmes. Embora ainda não possamos traduzir exatamente o que eles “dizem”, já é possível interpretar parte de sua comunicação por meio do comportamento e do uso de novas tecnologias, que vêm sendo cada vez mais implementadas nas fazendas leiteiras no Brasil e no mundo.
Essas inovações fazem parte do que chamamos de pecuária de precisão, campo que tem impulsionado avanços tecnológicos significativos, aumentando a eficiência e a rentabilidade da produção leiteira. Diante da crescente demanda por alimentos, das pressões ambientais e da necessidade de otimização de recursos, a pecuária moderna busca soluções mais inteligentes para manter a produtividade sem comprometer a sustentabilidade e o bem-estar animal. Nesse cenário, novas ferramentas surgem constantemente no mercado nacional e internacional, transformando o setor leiteiro.
Na produção de leite, todo produtor busca atingir objetivos essenciais: melhorar a qualidade do leite, aumentar a produção, reduzir custos, maximizar a rentabilidade e garantir o bem-estar do rebanho. A tecnologia se tornou aliada fundamental nesse processo de evolução da pecuária leiteira. Ao longo da história, a inovação sempre esteve presente - desde técnicas rudimentares, como o pastejo rotacionado, até avanços mais recentes, como as ordenhadeiras robotizadas. Hoje, sensores, drones e câmeras de monitoramento revolucionam o setor, tornando a atividade ainda mais rentável.
Monitoramento comportamental: tecnologia a serviço da eficiência e do bem-estar animal
Na pecuária de precisão, uma das inovações que mais tem chamado a atenção nas fazendas leiteiras é o monitoramento do comportamento dos animais. Com ferramentas como colares inteligentes, pedômetros, câmeras e drones, os produtores conseguem acompanhar de perto o que está acontecendo com o rebanho, tornando a gestão mais eficiente e melhorando o bem-estar dos animais.
Esses dispositivos captam movimentações e outros parâmetros, que são enviados para programas por meio de antenas instaladas na fazenda e transmitidos via internet para serem interpretados.
Os principais comportamentos analisados por esses sistemas incluem:
• Ruminação: tempo que o animal passa mastigando e digerindo o alimento;
• Atividade: nível de movimentação do animal ao longo do dia;
• Ócio: períodos em que a vaca está parada, sem se mover ou ruminar;
• Ofegação: frequência respiratória, disponível em alguns sistemas.

COM FERRAMENTAS COMO COLARES INTELIGENTES, PEDÔMETROS, CÂMERAS E DRONES, OS PRODUTORES CONSEGUEM ACOMPANHAR DE PERTO O QUE ESTÁ ACONTECENDO COM O REBANHO, TORNANDO A GESTÃO MAIS EFICIENTE E MELHORANDO O BEM-ESTAR DOS ANIMAIS
Detecção de cio: a vaca fala “estou no cio!”
A implementação de tecnologias nas fazendas leiteiras visa melhorar a efi ciência produtiva e a rentabilidade da atividade. Um dos maiores desafios para os colaboradores das fazendas é a detecção do cio, e os sistemas de monitoramento podem ser ferramentas valiosas nesse aspecto. Quando a vaca entra no cio, o sistema identifica aumento na atividade e redução da ruminação, comportamentos que diferem do padrão habitual do animal. Nesse momento, o sistema emite uma notificação via celular ou computador, permitindo que o colaborador avalie o animal e tome as providências para a inseminação no momento adequado.
Os benefícios dessa tecnologia incluem:
• Identificação de vacas vazias e de animais com retorno ao cio;
• Detecção de cios silenciosos, que passariam despercebidos na observação humana;
• Redução do tempo dedicado à observação de cios, otimizando o trabalho dos colaboradores;
• Maior precisão na identificação do cio, reduzindo falhas reprodutivas.
Segundo Schweinzer et al. (2019), os sensores utilizados para identificação de cio apresentam 97% de sensibilidade e 98% de especificidade, demonstrando que essa tecnologia é altamente confi ável para o manejo reprodutivo. No entanto, vale destacar que esses índices podem variar de acordo com fatores como raça, estresse por calor e nível de produção leiteira.
Identificação precoce de doenças: a vaca diz “não estou bem!”
Outro benefício essencial da tecnologia de monitoramento é a detecção precoce de doenças, evitando que problemas de saúde evoluam para casos graves ou crônicos.
A tecnologia possibilita identificar alterações comportamentais sutis, como:
• Redução no tempo de ruminação;
• Diminuição da atividade;
• Aumento do tempo de ócio e ofegação.
Essas mudanças indicam um animal mais apático, que não está ruminando e se alimentando adequadamente. Diversos estudos validaram a eficácia dessa tecnologia para a detecção precoce de doenças.
• No caso da mastite, o estudo de Unold (2020) revelou que 80% dos casos clínicos ou subclínicos foram identificados pelo sistema antes da manifestação clínica da doença;
• Para mastite subclínica, vacas afetadas apresentaram redução de 5,3% no tempo de ruminação em comparação com vacas saudáveis;
• Para mastite clínica, a queda foi ainda mais expressiva, chegando a 15% menos tempo de ruminação;
• No estudo de King (2018), verificou-se que a redução na ruminação ocorre de uma a duas semanas antes do aparecimento dos sinais clínicos nos casos de mastite;
• Para metrite, estudos demonstraram que vacas afetadas já apresentam alterações no comportamento ainda no pré-parto, reforçando a importância do monitoramento contínuo.

A observação do comportamento aliado à tecnologia aumenta a taxa de acerto na identificação do cio, otimizando a eficiência reprodutiva
Problemas de casco: a vaca fala “está difícil caminhar!”
As tecnologias de monitoramento também auxiliam na identificação de problemas de casco por meio de sensores e câmeras associadas à inteligência artificial (IA).
• O monitoramento via sensores apresenta 82,6% de sensibilidade e 81,5% de especificidade;
• Quando combinados câmeras e IA, os índices são ainda mais precisos, com 91,4% de sensibilidade e 94,6% de especificidade.
Essa tecnologia avalia a amplitude dos movimentos e categoriza o escore de locomoção, permitindo uma identificação precisa e precoce de problemas podais, evitando prejuízos à produtividade e ao bem-estar animal. É importante ressaltar que os sensores não substituem um diagnóstico veterinário, mas servem como ferramenta para identificar quais animais precisam de atenção, permitindo uma intervenção mais rápida e reduzindo perdas sanitárias no rebanho.
Estresse por calor: a vaca fala “está muito quente!”
Além da reprodução e da saúde, os sensores ajudam a monitorar o estresse por calor, analisando o comportamento dos animais em relação às condições climáticas.
• Vacas em ambientes muito quentes apresentam aumento da ofegação, redução da ruminação e menor tempo de alimentação. A ofegação, ou respiração acelerada, acontece porque é a forma mais eficiente que as vacas têm para liberar o calor acumulado nos momentos mais quentes do dia. Como elas não transpiram bem, usam a respiração para se resfriar e manter a temperatura do corpo equilibrada;
• O Índice de Temperatura e Umidade (ITU ou THI) é um parâmetro importante para avaliar o desconforto térmico. Na literatura, valores acima de 65–68 já são considerados estressantes para bovinos;
• A medição desses índices pode ser feita por sensores ambientais ou estações meteorológicas próximas à fazenda. Ao identificar esses padrões, o produtor pode ajustar estratégias de manejo, como intensificação do resfriamento e ajustes nutricionais, melhorando o conforto e o desempenho do rebanho.
Nutrição: a vaca fala “minha dieta mudou!”
Os sistemas de monitoramento também auxiliam na avaliação nutricional, fornecendo dados sobre:
• Tempo de ruminação;
• Tempo de alimentação;
• Número de refeições diárias.
Isso permite ao produtor acompanhar a aceitação da dieta pelos animais e avaliar o impacto de mudanças na alimentação, como variações na qualidade dos silos ou ajustes no manejo nutricional. Além disso, também é possível analisar como fatores ambientais, como estresse por calor, afetam o consumo e, consequentemente, a produção de leite.

Ao integrar informações sobre comportamento e bem-estar animal, as tecnologias de monitoramento proporcionam uma tomada de decisão mais precisa, permitindo ao produtor:
• Melhorar o manejo reprodutivo;
• Antecipar problemas de saúde;
• Ajustar o conforto térmico do rebanho;
• Otimizar a nutrição dos animais. Com isso, a fazenda se torna mais tecnificada, produtiva e rentável, alinhando-se às exigências do mercado e garantindo maior eficiência na gestão do rebanho. Além de aumentar a rentabilidade, a pecuária de precisão representa uma transformação cultural, tornando a produção mais sustentável e alinhada às demandas da agropecuária moderna.

Monitoramento nutricional: tempo de alimentação, ruminação e número de refeições diárias são analisados para garantir que as vacas consumam a dieta ideal e mantenham uma produção eficiente
ALÉM DE AUMENTAR A RENTABILIDADE, A PECUÁRIA DE PRECISÃO REPRESENTA UMA TRANSFORMAÇÃO CULTURAL, TORNANDO A PRODUÇÃO MAIS SUSTENTÁVEL E ALINHADA ÀS DEMANDAS DA AGROPECUÁRIA MODERNA
Impactos da tecnologia na pecuária brasileira
Atualmente, a chamada “Pecuária 4.0”, em referência à 4ª Revolução Industrial, demonstra que o futuro do campo será cada vez mais planejado e hiperconectado com tecnologias que prometem facilitar o desenvolvimento das fazendas. E essas mudanças já estão em curso.
A utilização das tecnologias de monitoramento animal está crescendo dentro das fazendas brasileiras, impulsionando um mercado tecnológico que está em pleno crescimento. Essas inovações atuam como facilitadoras no monitoramento da saúde animal, abrangendo diferentes frentes, como brincos e colares eletrônicos, drones e IA. Esses dispositivos são capazes de identificar o tempo de ruminação, ócio e atividade dos animais, gerando alertas quando detectam alguma anormalidade e auxiliando na tomada de decisão. Além disso, proporcionam agilidade na transmissão das informações, permitindo respostas rápidas dentro do manejo.
A adoção dessas tecnologias varia de acordo com os recursos disponíveis e o nível de tecnificação das fazendas. Algumas propriedades utilizam plataformas digitais integradas, que permitem gerenciar desde a produção de alimentos e manejo dos animais até a gestão de dados e logística, incluindo sistemas de rastreabilidade.
Vantagens e desafios da tecnologia no campo
A implementação de novas tecnologias traz benefícios significativos, entre eles:
✅ Aumento da produtividade e lucratividade, pois o acesso remoto e em tempo real aos dados da produção possibilita decisões mais precisas;
✅ Maior eficiência no manejo, com alertas automáticos que facilitam a identificação precoce de problemas no rebanho;
✅ Otimização da gestão agropecuária, permitindo ao produtor direcionar melhor seu tempo e seus recursos.
O INTENSO PROCESSO DE MECANIZAÇÃO DO CAMPO EXIGE TREINAMENTO CONTÍNUO PARA QUE OS TRABALHADORES POSSAM OPERAR E INTERPRETAR CORRETAMENTE OS DADOS GERADOS PELAS NOVAS FERRAMENTAS
Entretanto, o avanço tecnológico também traz desafios, especialmente no que diz respeito à capacitação dos colaboradores rurais. O intenso processo de mecanização do campo exige treinamento contínuo para que os trabalhadores possam operar e interpretar corretamente os dados gerados pelas novas ferramentas.
No cenário atual, a pecuária de precisão deixou de ser tendência e se tornou realidade em expansão, tornando o setor mais eficiente, sustentável e competitivo no Brasil e no mundo.
Além do que as vacas nos contam: novas tecnologias do agro
Em 2024, a produção de leite no Brasil manteve a trajetória de crescimento do ano anterior. No quarto trimestre, os estabelecimentos sob inspeção sanitária adquiriram 6,75 bilhões de litros de leite - aumento de 4,1% em relação ao mesmo período de 2023, conforme dados do IBGE. No acumulado do ano, o setor registrou avanço expressivo, impulsionado pela valorização do preço do leite, que alcançou aproximadamente R$ 2,80 por litro no terceiro trimestre –aumento de 20,7% em comparação a 2023. Esse crescimento contínuo reflete a evolução da cadeia produtiva e a crescente adoção de novas tecnologias, que ampliam a escala de produção e a rentabilidade para os produtores.
Entre as inovações mais presentes na pecuária leiteira, destacam-se monitores de qualidade da água, sistemas de monitoramento por vídeo e colares equipados com sensores para análise individual do comportamento dos animais. Mas o que a ciência diz sobre essas novas ferramentas?
a) Monitoramento da qualidade da água: tecnologia a serviço da sanidade animal
Os bebedouros para os animais estão frequentemente sujeitos ao acúmulo de sujeira e, muitas vezes, ficam fora do campo de visão dos responsáveis, especialmente quando os animais estão no pasto. No entanto, garantir água de qualidade é essencial para a saúde e o desempenho do rebanho, assegurando seu máximo potencial produtivo e condições ideais de sanidade e bem-estar para a produção de leite seguro.
Uma inovação nessa área é o H2O Alert, iniciativa da empresa holandesa BeKoSENSE BV. Esse sistema de monitoramento acoplado a um aplicativo transfere dados para dispositivos móveis em tempo real, disparando alertas sempre que necessário. O dispositivo, instalado sobre o reservatório de água, mede e documenta continuamente parâmetros como qualidade e temperatura da água, garantindo que o produtor tenha acesso a informações relevantes para análises gerenciais e conformidade sanitária em toda a cadeia produtiva. Essa inovação foi reconhecida com diversos prêmios, incluindo o Prêmio de Inovação Innov’SPACE em 2017.
b) Monitoramento da locomoção: IA na prevenção da claudicação
A claudicação é uma das principais causas de queda no bem-estar das vacas e, consequentemente, de redução na produção de leite. No entanto, muitos produtores ainda identificam o problema apenas durante o casqueamento ou de forma ocasional, ao observarem os animais durante atividades rotineiras, como a movimentação entre piquetes ou a ida à sala de ordenha. Embora a avaliação visual da locomoção seja ferramenta útil, ela demanda tempo, mão de obra especializada e está sujeita à subjetividade. Nesse contexto, o monitoramento por vídeo e IA surge como inovação importante e tem sido amplamente utilizado para diversas aplicações na pecuária leiteira.
Estudos mostram que sistemas de IA aplicados ao monitoramento por vídeo conseguem detectar precocemente diferentes graus de claudicação, tanto em estágios iniciais quanto avançados. Com essa tecnologia, o produtor pode identificar vacas com dificuldades de locomoção de forma mais eficiente, permitindo a intervenção rápida do médico veterinário e minimizando perdas produtivas
Considerações finais
Diante dos avanços apresentados, fica evidente que a tecnologia vem se consolidando como grande aliada da pecuária moderna. Seja por meio de colares de monitoramento, sensores, drones ou softwares de gestão, essas inovações têm impactado positivamente a produção, promovendo maior produtividade, bem-estar animal e sustentabilidade nas propriedades leiteiras.
A capacidade de coletar e analisar dados em tempo real permite tomadas de decisão mais rápidas e precisas, tornando o manejo mais eficiente e reduzindo perdas. No entanto, o impacto da tecnologia vai além dos números e do desempenho produtivo. Representa uma nova abordagem na condução da pecuária, exigindo dos profissionais do setor constante atualização e adaptação.
Além disso, a integração da tecnologia com práticas tradicionais de manejo marca uma nova era no campo, na qual conhecimento científico e inovação caminham juntos para atender às demandas de um mercado cada vez mais exigente. O futuro da atividade está diretamente ligado à capacidade de incorporar novas soluções de forma estratégica, respeitando as particularidades de cada sistema de produção e garantindo uma pecuária cada vez mais eficiente, sustentável e competitiva.
SEJA POR MEIO DE COLARES DE MONITORAMENTO, SENSORES, DRONES OU SOFTWARES DE GESTÃO, ESSAS INOVAÇÕES TÊM IMPACTADO POSITIVAMENTE A PRODUÇÃO, PROMOVENDO MAIOR PRODUTIVIDADE, BEM-ESTAR ANIMAL E SUSTENTABILIDADE NAS PROPRIEDADES LEITEIRAS
AUTORES:
JOÃO DE PAULA GONÇALVES FREIRE Cocoordenador do GEMP, Graduando em Medicina Veterinária, UFMG
PEDRO PIMENTA DE SOUSA Integrante do GEMP, Graduando em Medicina Veterinária, UFMG
EMANUELLE FERNANDES GONÇALVES Integrante do GEMP, Graduanda em Medicina Veterinária, UFMG
ISABELA CRISTINA SILVA CARDOSO Integrante do GEMP, Graduanda em Medicina Veterinária, UFMG
STELLA ASSUNÇÃO DE ALMEIDA COSTA Integrante do GEMP, Graduanda em Medicina Veterinária, UFMG
THALLYSON THALLES TEODORO DE OLIVEIRA Mestrando em Ciência Animal, Clínica de ruminantes, UFMG
RODRIGO MELO MENESES PROFESSOR DA ESCOLA DE VETERINÁRIA, UFMG
Autor
GEMP
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