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Nutrição

Teor de proteína na dieta, eficiência produtiva e o impacto ambiental

Teor de proteína na dieta, eficiência produtiva e o impacto ambiental

Texto: Alexandre M. Pedroso

A adoção do conceito de nutrição de precisão pode mudar a vida de fazendas leiteiras, melhorando significativamente a margem de lucro das operações e contribuindo significativamente para reduzir o impacto ambiental da emissão de nitrogênio no ambiente. E é importante ressaltar que isso não implica em nenhum investimento ou gasto significativo, apenas em trabalhar da forma correta e investir um pouco mais em análises dos alimentos e de leite, para que o nutricionista possa ter informações mais precisas para fazer um bom trabalho.

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Há algum tempo eu tenho difundido o conceito da nutrição de precisão, com ênfase na questão da eficiência de uso do nitrogênio por vacas leiteiras. Trata-se de tema da maior importância, tanto pelo impacto financeiro quanto pelos possíveis danos que o uso excessivo de proteínas pode causar ao ambiente. Cada vez mais temos visto exemplos interessantes de que é possível elevar os padrões de exigência com relação ao manejo alimentar com o objetivo de utilizar os alimentos e nutrientes com maior eficiência, evitando desperdícios.

Felizmente a repercussão desse tema tem sido excelente, e é preciso enfatizar que a base para se aplicar corretamente o conceito da nutrição de precisão é produzir forragens de alta qualidade. Em qualquer tipo de sistema de produção. Quando a forragem tem elevado valor nutricional, há muito mais facilidade para formular dietas mais eficientes e econômicas. Vejamos alguns exemplos emblemáticos.

Em trabalho recente, realizado no Sistema de Produção de Leite da ESALQ, em Piracicaba, testou-se 3 concentrados diferentes para vacas em lactação mantidas em pastagens de capim elefante de elevada qualidade. A forragem apresentava 18,5% PB, 60,3% NDT, 58,7% FDN e 75,9% de digestibilidade. Os concentrados testados continham 8,7, 13,4 e 18,1% PB, respectivamente. Foram utilizadas 33 vacas no terço médio de lactação (11 em cada tratamento), as quais pastejavam juntas e recebiam concentrado individualmente, à base de 3 kg de leite para cada kg de concentrado. Os dados de produção e composição do leite encontram-se na Tabela 1.

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Os dados mostram de forma contundente que o aumento na oferta de proteína no concentrado, na forma de farelo de soja, não resultou em benefício algum. O único parâmetro que apresentou alguma diferença significativa foi o teor de nitrogênio ureico no leite (NUL), que aumentou à medida que o teor de proteína do concentrado aumentou, o que indica claramente menor eficiência de uso do nitrogênio (N) pelas vacas que receberam mais farelo de soja. Além disso, as vacas que receberem o concentrado com mais proteína excretaram em média 46g de nitrogênio a mais (via urina) do que as que receberam o concentrado menos proteico. Esse dado da excreção foi obtido em ensaio de metabolismo com vacas secas canuladas no rúmen, mas se extrapolarmos essa diferença para as 33 vacas em lactação, considerando um período médio de utilização do pasto de 210 dias na estação das águas, a redução total na excreção de nitrogênio seria da ordem de mais de 310 kg, valor bastante representativo.

Se analisarmos a resposta econômica dessa substituição veremos uma situação bastante interessante. Vejamos os dados na Tabela 2.

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Como pode ser observado, o aporte de farelo de soja na dose mais elevada resultou em custo adicional de R$ 163,70 por vaca/dia, o que representa R$ 5.402,00 a mais nos 210 dias de pastejo. Se aplicarmos essa diferença a um rebanho com 100 vacas o valor salta para R$ 16.370,00.

Esse resultado só foi possível porque o pasto era de alta qualidade. Com a proteína disponível no pasto, não há razão para dar mais concentrado. Esse conceito pode, e deve, ser aplicado em qualquer situação. Obviamente, os parâmetros mudam de rebanho para rebanho, especialmente em função do nível de produção das vacas, mas as práticas de nutrição de precisão sempre podem ser aplicadas a fim de ganhar eficiência de uso dos nutrientes. Infelizmente, mesmo nesta época em que a importância da eficiência de uso das fontes proteicas consumidas pelas vacas é cada vez mais reconhecida, não é raro encontrarmos fazendas que usam proteína em excesso nas formulações das dietas. E hoje, a utilização do nitrogênio tem que ser encarada como uma questão crucial do manejo alimentar, considerando o custo das fontes proteicas e a necessidade de reduzir a emissão de poluentes nas fazendas. O fornecimento de proteína em excesso, via de regra, resulta em custos alimentares desnecessários, sem retorno em produção de leite. Além disso, a maior parte de N em excesso da dieta é excretado na urina, com grande potencial para poluir o ambiente.

Um bom exemplo de como um programa nutricional focado nos conceitos da nutrição de precisão pode mudar a vida de uma fazenda foi mostrado em um artigo publicado na Hoard’s Dairyman, no final de 2011. Depois de  um ano de adoção de um programa de nutrição de precisão, a Ridgedale Farm, do estado de New York, nos EUA, conseguiu aumentar a média de produção das vacas em 5,9kg/dia. O primeiro passo desse programa foi melhorar a qualidade dos volumosos utilizados que, sem dúvida nenhuma, é o passo mais importante para trabalhar com nutrição de precisão. Além desse aumento na produção de leite, a fazenda passou a apurar uma receita menos os custos dos alimentos (RMCA) de U$ 2,00 a mais por vaca dia. Esse valor é o que sobra da receita total com a venda do leite, depois de pagos os alimentos, incluindo volumosos. Com relação ao impacto ambiental, houve redução nas emissões de N e P da ordem de 2.803 e 355 kg ao ano, respectivamente. Esse ganho só foi possível graças à mudança de postura na condução do manejo da alimentação desse rebanho. A produção de volumosos de melhor qualidade foi o ponto chave do processo, e é exatamente isso que recomendo enfaticamente em todos os artigos, palestras e cursos de que participo.

Outro exemplo de como a nutrição de precisão pode melhorar a eficiência de uso do N em uma fazenda leiteira foi mostrado em artigo publicado em 2012 na “The Professional Animal Scientist”, importante revista científica internacional. Foram relatados dois estudos de campo, desenhados para avaliar o impacto da adoção da nutrição de precisão em rebanhos comerciais de alta produção.

Foram escolhidos dois rebanhos leiteiros com média de produção acima dos 36 kg leite/vaca/dia, manejo de alto nível, mas com oportunidade para fazer ajustes na dieta das vacas em lactação. O primeiro passo foi uma tomada de dados detalhada nas fazendas – descrição minuciosa das dietas, análise bromatológica completa de todos os volumosos, aferição cuidadosa do consumo de matéria seca (CMS), produção e composição do leite de todas as vacas (teores de gordura, proteína, NUL, CCS, CBT), além de dados ambientais e das instalações.

As novas dietas foram formuladas de acordo com a variação observada na composição dos volumosos (silagem de milho e feno pré-secado de alfafa) ao longo do tempo. Isso é um aspecto bastante importante, pois efetivamente podem haver mudanças significativas na composição de um alimento volumoso na fazenda e, ignorar esse aspecto, pode reduzir bastante a eficiência de uso dos nutrientes.

As novas rações foram formuladas para atingir os requerimentos das vacas por proteína e energia metabolizáveis. A fazenda A usava 3 lotes de produção, que recebiam o mesmo concentrado, mas proporções diferentes de volumosos, de acordo com a produção de leite. A fazenda B usava 4 lotes de produção, que recebiam a mesma ração completa, em diferentes quantidades de acordo com a produção.

Na Tabela 3 estão os dados de composição da dieta, antes e após as modificações efetuadas, bem como alguns dados de eficiência de uso do N. A Tabela 4 mostra os dados de produção e composição do leite e análise econômica de ambas as fazendas antes e após o estudo. O objetivo principal foi avaliar o impacto das mudanças no manejo da alimentação sobre o RMCA.

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A adoção das novas dietas resultou em um ganho no RMCA de 18,7 e 3,97%, respectivamente, nas fazendas A e B, o que, considerando o número total de vacas em lactação em cada uma (400 e 600, respectivamente), significa ganhos anuais de U$ 144.540,00 para a fazenda A e U$ 41.610,00 para a fazenda B. Isso se deveu, principalmente, à redução no custo dos alimentos, mas é muito interessante notar que a Fazenda B, mesmo observando queda na  produção média de leite, conseguiu melhorar o RMCA. A redução no teor de proteína das rações levou a um ganho bastante interessante em eficiência de uso do N, em ambas as fazendas. Observou-se redução na excreção desse elemento, o que significa emitir menos 7.154 e 6.132 kg de N ao ano, respectivamente.

Esses exemplos mostram, de forma muito clara, como a adoção do conceito de nutrição de precisão pode mudar a vida de fazendas leiteiras, melhorando significativamente a margem de lucro das operações e contribuindo significativamente para reduzir o impacto ambiental da emissão de N no ambiente. E é importante ressaltar que isso não implica em nenhum investimento ou gasto significativo, apenas em trabalhar da forma correta e investir um pouco mais em análises dos alimentos e de leite, para que o nutricionista possa ter informações mais precisas para fazer um bom trabalho.

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