Um ambiente de trabalho saudável melhora o bem-estar animal e promove a excelência na atividade leiteira
A transformação emocional, começando pelas lideranças, é essencial para criar um ambiente de trabalho saudável, melhorar o bem-estar animal e alcançar a excelência na atividade leiteira
No âmbito da pecuária leiteira, a saúde e o bem-estar dos animais são frequentemente discutidos. E sob a perspectiva dos produtores e das equipes que interagem diariamente com o rebanho? As relações humanas recebem a atenção que merecem? Pesquisas recentes apontam para uma ligação significativa entre o estado emocional dos produtores e o bem-estar dos animais sob seus cuidados, realçando a importância do conceito de “bem-estar único”.
Em vista disso, Marcelo Cabral, consultor na área de gestão de pessoas voltada para o agronegócio, defende que a comunicação eficaz é um instrumento relevante para tornar mais saudável o ambiente de trabalho – emergente preocupação na pecuária leiteira – e mais eficiente a produção leiteira.
O bem-estar único (One Welfare) é um conceito que interliga três tipos de bemestar: o animal, o humano e o ambiental. E ainda promove a colaboração e a comunicação entre diversos setores para enfrentar desafios globais.
Comunicação eficaz
Falhas de comunicação podem criar cenários quase inacreditáveis. Marcelo Cabral conta a história de um sujeito que, em razão de uma falha de comunicação por parte de uma funcionária do escritório, começou a construir sua casa em um lote novo, mas, infelizmente, errado. “Depois de seis meses de construção, e com a obra já bem avançada, o verdadeiro dono do lote apareceu. Surpreso ao ver uma casa surgindo onde não deveria, abordou o construtor. O erro de comunicação havia ido tão longe que a única solução encontrada foi o construtor comprar o lote onde inadvertidamente havia edificado sua casa.”
Essa história, além de arrancar risos, serve como um lembrete claro de que a comunicação precisa ser eficaz. “Existe diferença entre escutar e ouvir. Ouvir é um processo cognitivo, mais profundo e essencial para a gestão dos negócios”, explica Marcelo. Muito além das consequências financeiras que podem advir de uma simples falha de comunicação, essas situações podem ser evitadas com medidas simples, como a verificação dupla das informações compartilhadas.
Dor social nas fazendas leiteiras
No dia a dia das fazendas, o desgaste interpessoal é constante e, se não gerido, pode gerar sofrimento. Marcelo observa que, ao introduzir práticas eficazes de comunicação, planejamento estratégico e divisão clara de responsabilidades, é possível aliviar a pressão. Essa abordagem permite que as equipes comecem a se entender melhor, o que é fundamental para um ambiente de trabalho saudável.
A abordagem da gestão que vai além dos números e dos processos tradicionais foca no desenvolvimento humano e na qualidade de vida. “Já recebi vários feedbacks gratificantes após um trabalho de gestão; muitos afirmando que houve um ganho significativo na qualidade de vida das pessoas envolvidas”, diz Marcelo. Ele ressalta que, quando a gestão é feita com um olhar para o amadurecimento e para as lideranças, o resultado esperado é um ambiente muito mais saudável, tanto para os gestores quanto para as equipes.
Para ilustrar o impacto do desgaste interpessoal, Marcelo introduz o conceito de “dor social”, um termo desenvolvido com base em pesquisas neurocientíficas realizadas nos Estados Unidos. Essas pesquisas submeteram os participantes a situações de dor física enquanto eram monitorados por ressonância magnética, capturando imagens das áreas cerebrais ativadas durante o processo. Em seguida, os mesmos participantes foram expostos a situações de estresse social, como interações interpessoais negativas, falta de validação e desrespeito.
O resultado foi surpreendente: as mesmas regiões do cérebro ativadas durante a dor física também foram ativadas durante o estresse social. Esse achado científico revelou que o cérebro humano interpreta o sofrimento emocional de maneira muito semelhante à dor física. “É como se essas pessoas estivessem sentindo um corte real no corpo”, explica Marcelo. Esse fenômeno, a dor social, demonstra que o sofrimento emocional no ambiente de trabalho pode ser tão devastador quanto qualquer lesão física.
A ABORDAGEM DA GESTÃO QUE VAI ALÉM DOS NÚMEROS E DOS PROCESSOS TRADICIONAIS FOCA NO DESENVOLVIMENTO HUMANO E NA QUALIDADE DE VIDA

O ambiente de trabalho reflete a importância da gestão emocionalmente equilibrada e das condições de trabalho adequadas, essenciais para o sucesso das operações na fazenda e para o desenvolvimento saudável dos animais.
Marcelo alerta que o volume de desgaste e dor social presente no cotidiano das fazendas é assustadoramente alto. Esse sofrimento, muitas vezes invisível, se manifesta em interações cotidianas e na maneira como as responsabilidades são distribuídas e geridas. Quando a gestão ignora esses aspectos humanos, os trabalhadores podem se sentir desvalorizados, angustiados e sobrecarregados, o que afeta a saúde mental e prejudica a eficiência e a harmonia no trabalho. “À medida que vamos falando sobre comunicação, planejamento e organização dos papéis, as pessoas começam a se entender”, destaca ele. Essa compreensão mútua e o alívio da dor social podem resultar em equipes mais coesas, motivadas e capazes de enfrentar os desafios do dia a dia com maior resiliência.
O elo entre gestão de pessoas e bem-estar animal
A atitude no ambiente de trabalho é formada por três componentes essenciais: o pensar, que é o aspecto cognitivo; o sentir, relacionado ao componente emocional; e o agir, que diz respeito ao comportamento. Entre esses elementos, o componente emocional é o que exerce maior influência na atitude das equipes. Todos os processos operacionais, como os manejos diários, são diretamente impactados pelo estado emocional dos operadores. Isso significa que o bem-estar emocional dos trabalhadores é crucial para garantir a eficiência e a qualidade do trabalho realizado nas fazendas.
Marcelo sublinha que a motivação, um componente afetivo e emocional, é fundamental para a operação diária nas fazendas. Ele explica que um funcionário motivado tende a ser mais cuidadoso, paciente e atencioso no desempenho de suas funções, o que se reflete diretamente no bem-estar dos animais sob sua responsabilidade: “Faz muita diferença na operação do dia a dia; o bem-estar das pessoas vai afetar diretamente o bem-estar animal, porque elas vão lidar com os animais com muito mais carinho e paciência”.
Essa relação simbiótica entre o bem-estar das equipes e o bem-estar animal mostra que investir na saúde emocional dos trabalhadores não é apenas uma questão de melhorar o ambiente de trabalho, mas também uma estratégia eficaz para garantir a qualidade do cuidado com os animais e, por extensão, a qualidade dos produtos derivados, como o leite.

O BEM-ESTAR EMOCIONAL DOS TRABALHADORES É CRUCIAL PARA GARANTIR A EFICIÊNCIA E A QUALIDADE DO TRABALHO REALIZADO NAS FAZENDAS
Capacitação e treinamento
Por mais que tenhamos entendido que a atitude é composta por três partes – cognitiva, emocional e comportamental –, não existe uma medida exata para determinar a proporção de cada um desses componentes na formação da atitude de uma pessoa. Mesmo assim, é amplamente aceito que o componente emocional desempenha um papel preponderante. “Provavelmente, mais da metade da atitude está ligada ao lado emocional”, comenta Marcelo, enfatizando que a importância do emocional é inegável e significativa.
Marcelo faz ainda uma distinção importante entre capacitação e treinamento: “Capacitação é frequentemente associada ao processo de agregar conhecimento, de fornecer novos conteúdos e detalhes específicos, atuando principalmente no componente cognitivo, ou seja, no pensar”. No entanto, Marcelo alerta que essa abordagem é muitas vezes superficial quando comparada à necessidade real de treinamento.
O treinamento, por outro lado, vai além de simplesmente ensinar algo novo. “Um time de futebol de primeira linha não treina para aprender a jogar bola; eles já sabem jogar”, explica Marcelo. O foco do treinamento é o refinamento das habilidades já existentes, a melhoria contínua por meio da prática e do aperfeiçoamento.
Marcelo chama a atenção para a necessidade do treinamento contínuo nas fazendas de leite. Assim como um time de futebol treina quase diariamente para manter e melhorar seu desempenho, as equipes nas fazendas também precisam de oportunidades regulares para refinar suas habilidades. Esse refinamento não é apenas técnico; envolve igualmente desenvolvimento emocional e comportamental, o que é primordial para melhorar a atitude como um todo. “Sem esse treinamento contínuo, as fazendas se afastam das melhores práticas de desenvolvimento humano e operacional”, afirma o consultor. O foco excessivo na capacitação, sem a complementação com um treinamento adequado, deixa lacunas significativas no desenvolvimento das equipes.

O cuidado com a ordenha reflete o impacto da capacitação adequada e do treinamento contínuo, fundamentais para garantir tanto a qualidade do leite quanto o bem-estar dos animais
Liderança e desenvolvimento emocional
“Para alcançar um impacto positivo e duradouro nas fazendas, é essencial que o desenvolvimento emocional, a capacitação e o treinamento sejam tratados como prioridade, começando pelos níveis mais altos da hierarquia. O sucesso na gestão e no desenvolvimento emocional das equipes deve ser conduzido por proprietários, gerentes e supervisores, liderando pelo exemplo. Investir em capacitação e treinamento sem um acompanhamento maduro por parte da liderança pode alienar as equipes, especialmente quando elas percebem que estão mais preparadas e conscientes do que os próprios gestores. O resultado disso é a insatisfação e, eventualmente, a perda de talentos para outros lugares que ofereçam um ambiente de trabalho mais alinhado com suas expectativas.
Portanto, para melhorar as operações e garantir o bem-estar dos animais, é imprescindível que a gestão desenvolva sua capacidade emocional, criando um ambiente em que tanto os trabalhadores quanto os animais possam prosperar. Quando a liderança está comprometida com esse desenvolvimento, o impacto positivo é imediato e abrangente, influenciando todos os aspectos da produção e do bem-estar dentro da fazenda”, conclui Marcelo.
ADRIANA VIEIRA FERREIRA - Equipe Revista Leite Integral
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Autor
Adriana Vieira Ferreira
EDITORA EXECUTIVA
Economista, DSc. em Economia Rural
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