Fazenda Riacho dos Porcos e Pedras
Texto: Gustavo F. Carvalho
Free-Stall Tropical: como aproveitar o enorme potencial das forragens no verão e, ao mesmo tempo, proporcionar conforto aos animais?

Introdução
O Brasil é um país continente com extrema capacidade e aptidões de clima, terras férteis e tecnologias desenvolvidas para os trópicos. Enfim, temos uma série de fatores positivos que nos levam a produzir muito leite e sermos um país destaque no cenário mundial, ocupando o quinto lugar em produção.
Existem diferentes sistemas de produção de leite em diferentes partes do mundo. Como exemplo, podemos citar a Nova Zelândia, com produção de leite a pasto e foco em produção de sólidos; a Europa e os EUA, com produção predominante em confinamentos tipo Free-Stall. Países da America Latina, como a Argentina, produzem leite em confinamento e a pasto, com uma grande diferença do Brasil, pois possuem clima temperado e as vacas conseguem pastejar e consumir a quantidade de matéria seca suficiente para produzir leite de maneira satisfatória e rentável, sendo grandes exportadores de lácteos.
Pensando agora no Brasil, e mais especificamente nas regiões de clima quente e chuvoso no verão, e frio e seco no inverno, temos um grande entrave para a produção de leite a pasto. Por um lado, dispomos de excelentes pastagens tropicais, que produzem grande quantidade de alimento mas, por outro, não conseguimos fazer com que essas gramíneas cheguem, em quantidade suficiente, até o rúmem da vaca, pois o calor impede o pastejo durante o dia. Com isso, temos alta produção de forragem e baixa produção de leite na época de maior disponibilidade de pastagens.
Diversas alternativas vêm sendo desenvolvidas para reduzir o estresse térmico dos animais (sombrites, bosques de árvores, sistema silvo pastoril) e, muitas delas, apresentam êxito. Porém, quando avaliamos sistemas de produção com um número maior de vacas, o desafio é muito grande. Ficamos à beira do caos: baixa produção de leite, alto índice de mastite, problemas de casco, baixas taxas de concepção, dentre outros entraves.
Não é raro encontrarmos fazendas nas quais a média de produção de leite das vacas cruzadas atinge 25 kg/dia no período seco do ano e, no verão, apenas 15 kg/dia.
Até poucos anos atrás, o foco principal das palestras técnicas era: precisamos produzir comida para as vacas no verão, caso contrário, faltará alimento no inverno. Naquele tempo, a produção de leite era de 12 kg de leite/vaca/dia no verão, caindo para 4kg no inverno. Passados alguns anos, os produtores de leite profissionais conseguiram se tornar ótimos produtores de alimento, ótimos agricultores, e o inverno, que era a época de redução na produção de leite, se tornou a fase do ano na qual o produtor se sente no paraíso. O inverno é agora caracterizado por sistemas de semi-confinamento, de diversas formas e modelos; boa produção de leite; poucos problemas sanitários; bons índices zootécnicos; e boa rentabilidade. Mas, quando vem o verão e a abundância de pastagens, ponto forte de nosso país tropical, os produtores saem de uma situação favorável, para outra extremamente desconfortável. Os animais perdem peso, a produção de leite cai, e aumentam significativamente os problemas de casco e mastite. As vacas caminham por corredores com muito barro, as chegadas e saídas das salas de ordenha formam enormes piscinas de lama, não há sombra suficiente para todos os animais e, técnicos e produtores, na maioria das vezes, ficam observando este caos e calculando o enorme prejuízo sem saber o que fazer e por onde começar e resolver esse problema.

A busca por uma solução
Diante deste impasse, resolvemos pesquisar o que poderia ser feito para minimizar as perdas e maximizar os ganhos no verão. Precisávamos fazer as vacas comerem muito capim e, ao mesmo tempo, deixá-las confortáveis a maior parte do dia. Após 5 anos de estudos e pesquisas, encontramos nos Estados Unidos, terra das vacas de alta produção de leite, totalmente confinadas, um sistemas de produção que era a cara do Brasil. Descobrimos uma região com clima quente e muito úmido no verão, e frio e seco no inverno, e partimos para lá. Encontramos o Brasil dentro dos Estados Unidos, em um sistema de produção simples, rentável e, ao mesmo tempo, de alta tecnologia - a fazenda Green Hill Dairy. As vacas são mantidas totalmente a pasto, recebendo suplementação de concentrado na sala de ordenha, e permanecendo 19 horas por dia nas pastagens sob um sistema de climatização que proporciona conforto necessário para produção de leite no pico da lactação. O rebanho, de 600 vacas por módulo, produz 26 kg de leite/dia e 6500 kg por lactação.
Além do clima de verão, semelhante ao nosso, nos sentimos ainda mais “em casa” ao encontrarmos o responsável técnico pela fazenda, um zootecnista, formado na Universidade Federal de Lavras, chamado Cristiano Poncio. Após longas conversas técnicas, fui percebendo a grande interação que havia entre o proprietário, o Cristiano e a equipe da fazenda. Todos estavam muito bem entrosados com o sistema de produção, e focados em propiciar conforto para as vacas e alto consumo de forragem, resultando em animais muito saudáveis, com boa produção de leite e extremamente férteis.
As vacas eram mantidas em pastejo irrigado de Cynodon, no verão, e azevém com trevo, no inverno, e o primeiro pensamento que nos veio em mente é que as regiões quentes do cerrado brasileiro não produzem azevém e trevo. Mas, a Embrapa desenvolveu tecnologia para produção de aveia consorciada com azevém, e já é possível alcançar produção suficiente para suportar 6 vacas por hectare no inverno, durante 4 anos consecutivos, utilizando irrigação, e plantio por meio da técnica de sobre-semeadura. Quando trabalhamos com pastagens bem manejadas e ambientes climatizado no pasto, os animais conseguem ingerir grande quantidade de alimento com alto valor nutritivo, reduzindo o custo total da dieta, pois é necessária menor suplementação de alimentos concentrados.

Free-Stall Tropical
Estudamos, pesquisamos e, em parceria com o médico veterinário Dr. João Luiz Teixeira, especialista em bioclimatologia animal, da cidade de Catita, Minas Gerais, e toda equipe da Fazenda Riacho dos Porcos e Pedras, montamos no Brasil este sistema de produção capaz de proporcionar conforto, ambiente limpo, camas limpas e macias, vacas confortáveis, alegres e com boa produção de leite. Analisando o sistema chegamos a uma denominação - Free-Stall Tropical.
Sabe-se que o estresse calórico é responsável por importantes perdas econômicas nos sistemas de produção de leite, representadas principalmente por:
- Redução na produção;
- Redução da conversão alimentar;
- Falhas reprodutivas (dificuldade de observação de cio, redução na taxa de prenhes, aumento das perdas embrionárias, abortos, aumento do intervalo de partos);
- Depressão do sistema imunológico, desencadeando várias doenças (mastite, metrite, laminite);
- Aumentos das doenças relacionadas ao período de transição (retenção de placenta, deslocamento de abomaso).
De acordo com Dr. Israel Flamenbaum as perdas econômicas devido ao estresse térmico são maiores que as perdas com problemas de mastite e reprodução.
Para reduzir essas perdas, no Free Stall Tropical, as vacas permanecem todo o dia embaixo do pivô central, onde existe um sistema de climatização que permite que, mesmo sob o sol, sem sombra, as vacas fiquem confortáveis durante 24 horas por dia, inclusive nas horas mais quentes.

Sala de espera – Ordenha
Além da climatização do ambiente no pasto, temos que proporcionar também um grande conforto para as vacas nas salas de espera e sala de ordenha. Dependendo da produção, vacas de leite podem produzir de 4.500 a 6.000 BTU por hora, um calor semelhante ao de um secador de cabelo de 1500 Wats. O período no qual as vacas permanecem aglomeradas, aguardando para serem ordenhadas, é um dos momentos de maior estresse calórico. Assim, são necessários projetos adequados para proporcionar o máximo conforto para as vacas nesse momento tão importante, no qual se colhe o produto final de todo o trabalho da fazenda.
Climatização das pastagens
Após serem ordenhadas, todas as vacas devem ter acesso a água. Dessa forma, a indicação é que os bebedouros permitam que todos os animais de um lado da contenção de ordenha possam beber água ao mesmo tempo.
Após a primeira ordenha, geralmente de 6 às 9 horas da manhã, as vacas retornam ao pasto, onde permanecem até a próxima ordenha, que se inicia quando a temperatura ambiente está mais amena, geralmente às 17 horas. Durante todo o dia as vacas têm acesso a névoa de água no pasto. No período da noite, o sistema de Pivô Central inicia o processo de irrigação da pastagem.
Esse sistema permite que um equipamento tenha várias funções: proporcionar conforto térmico para os animais, manter os bebedouros sempre próximos, irrigar as pastagens, realizar adubações e distribuir dejetos.


Cama
Camas macias e limpas são fundamentais para assegurar a saúde dos cascos, da glândula mamária, e a produção de leite. Os sinais abaixo são indicativos claros de que as vacas não estão confortáveis em suas camas:
- Vacas de pé paradas ou caminhando como se buscassem algo que não existe;
- Aumento dos problemas de casco;
- Aumento da contagem de CCS e mastite clínica;
- Redução na produção de leite;
- As vacas preferem deitar a pastejar quando entram em um piquete novo e limpo.

Índices reprodutivos
Um dos principais desafios da pecuária de leite é aumentar a produção de leite por vaca, sem prejudicar muito a fertilidade dos animais. Trabalhos científicos têm demonstrado que, se a nutrição, o manejo e o conforto dos animais for evoluindo junto com a produção de leite, as perdas em fertilidade se tornam menores. A Tabela 1 traz informações de fertilidade e produção de leite de vacas mantidas a pasto sob sistema de climatização. Pode-se observar que, no período de 60 dias iniciais da estação de monta, das 170 vacas de alta produção (média de 33,6 kg de leite/dia), 109 ficaram prenhes. O mesmo ocorreu no grupo com produção de 16,6 kg de leite/dia, no qual 109 de 170 animais ficaram prenhes. Isso demonstra que a climatização foi eficiente, tanto para as vacas de baixa, quanto para as de alta produção, dentro desse sistema.

Os dados da tabela 1 comprovam que mesmo as vacas de alta produção (170 vacas com 33,6 kg de leite dia em média) tiveram alta taxa de concepção nos primeiros 60 dias de estação de monta, com 109 de 170 vacas prenhes em 60 dias, totalizando 63,6%. Isso demonstra que vacas de alta produção em sistema à pasto, quando bem confortadas sob o ponto de vista de conforto térmico, não perdem fertilidade quando comparadas a vacas de baixa produção. Isso demonstra que a produção de leite não interfere de forma negativa na fertilidade de vacas de leite especializadas, quando bem manejadas, mesmo em sistema 100% a pasto. Essas informações estão de acordo com dados publicados pelo Dr. Israel Flamembaum (Tabelas 2 e 3), pesquisador e consultor na área de ambiência para vacas leiteiras mantidas em confinamentos, nos quais ele demonstra a interferência de sistemas de climatização mais intensos e menos intensos sob aspectos produtivos e reprodutivos das vacas.

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Em trabalho de campo, realizado no Estado de Kansas (EUA), foram comparados dois grupos de 6000 vacas, e observou-se diferença de 4,5 kg de leite a mais no grupo que foi resfriado com água e ventiladores, quando comparado àquele que era resfriado apenas com ventiladores.
No sistema de resfriamento sob pivô, utilizando nebulização, as vacas permanecem todo o dia sob uma fina névoa de água e expostas ao vento natural, proporcionando total conforto no pasto durante todo o dia.

Conclusões
O sistema de produção de leite à pasto, climatizado com névoa e vento natural, proporciona um ambiente de temperaturas amenas, cama limpa e macia de capim. Este sistema já existe há mais de 15 anos em outros países e, sob nosso acompanhamento, há 2 anos no Brasil. Com alta eficiência em proporcionar um ambiente muito agradável aos animais.
Mas, “a diferença dos sistemas de produção de sucesso está nas pessoas”. Ao visitar outras fazendas na mesma região nos EUA pude me deparar com um sistema de produção idêntico, pivô, 600 vacas, 3 funcionários, 3 horas de ordenha, tudo muito semelhante. Porém, a média de produção era de 14 kg vaca/dia e metade das vacas não estavam prenhes. Visitar esta fazenda com índices piores foi tão importante quanto visitar a fazenda administrada pelo Cristiano, que possui índices formidáveis e boa rentabilidade. Pude perceber que o sistema é uma alternativa muito viável, mas não é somente copiar, é preciso dominar o sistema. Para isso estamos estudando, aperfeiçoando e já conseguimos bons resultados. Mas a interação vaca/homem/ambiente tem que ser muito boa. Lá, as pessoas conseguem perceber que as vacas não estão confortadas e rapidamente tomam as devidas providências, mas sempre com soluções simples, de investimentos possíveis e de bom retorno para a vaca e o dono. Podemos observar também a grande preocupação com a qualidade do ambiente de trabalho, equipe motivada e eficiente. Enfim, uma ótima interação homem/vaca/ambiente.
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