Nitrogênio ureico no leite como ferramenta para ajuste de dietas - Parte I
Texto: Rodrigo de Almeida
Vacas alimentadas de acordo com o estágio de lactação, conforme recomendado pelo NRC (2001), elevam a produção de leite, porém também aumentam os níveis de ingestão de proteína bruta. A proteína suplementar pode aumentar a produção de leite, por fornecer mais aminoácidos para a síntese de proteína do leite, aumentar a energia disponível a partir da quebra dos aminoácidos ou alterar a eficiência de utilização dos nutrientes absorvidos. Consequentemente, níveis elevados de proteína na dieta determinarão maior liberação de amônia no rúmen, o que pode elevar as concentrações de nitrogênio ureico no leite (NUL), afetando a eficiência reprodutiva, aumentando o custo das dietas e impactando negativamente o meio ambiente.
Introdução
O monitoramento mensal do NUL pode ser uma importante ferramenta no manejo de rebanhos leiteiros, porque (1) o excesso no consumo de proteína (N) pode comprometer a eficiência reprodutiva; (2) suplementos protéicos são ingredientes caros; e (3) excessos na excreção de N têm um impacto ambiental negativo. Os valores normais de nitrogênio uréico no leite (NUL) devem estar entre 10 e 14 mg/dL.
A literatura consultada sugere que tanto altas quanto baixas concentrações de NUL podem indicar problemas nutricionais nos rebanhos leiteiros. Valores altos de NUL podem indicar excessos de PB (proteína bruta) na dieta, tanto da fração PDR (proteína degradável no rúmen) como da fração PNDR (proteína não-degradável no rúmen), baixa taxa de fermentação ruminal da fração CNF (carboidratos não fibrosos), ou ainda, relação proteína:energia aumentada. Já valores baixos de NUL podem indicar deficiência de PB na dieta, limitadas quantidades de PDR e PNDR, ou ainda, alta taxa de fermentação de CNF no rúmen.
Fatores ambientais que afetam o NUL
Nosso grupo de pesquisa, em um trabalho recente, analisou 127.428 controles leiteiros mensais, de 16.013 vacas leiteiras inscritas no Programa de Análise de Rebanhos Leiteiros do Paraná (PARLPR) da Associação Paranaense de Criadores de Bovinos da Raça Holandesa (APCBRH), oriundas de 96 rebanhos paranaenses.
A média geral da concentração de NUL foi 14,45 ± 4,60 mg/dL, valor um pouco superior ao limite máximo aqui sugerido para este parâmetro (10 a 14 mg/dL), e em concordância com diversos trabalhos revisados.
Nesse levantamento, os animais apresentaram produção média diária de leite de 32,4 ± 11,5 kg/dia e percentuais de gordura e proteína de 3,40 ± 0,73% e 3,13 ± 0,35%, respectivamente. As médias para idade ao parto e dias em leite foram 45,8 ± 21,8 meses e 205 ± 141 dias, respectivamente.
Ressalta-se que os animais incluídos nesse banco de dados caracterizaram-se por serem jovens, predominantemente da raça Holandesa, com alta produção de leite e correta composição, indicando ainda que a análise de uréia do leite, por ser voluntária e representar um custo adicional no controle leiteiro mensal, tem sido mais frequentemente adotada por reba
nhos de maior produtividade. De fato, em 2010 a APCBRH manteve em controle leiteiro oficial 274 rebanhos com média de produção de leite de 27,3 kg/dia, 5 kg/dia a menos que a média de produção de leite do banco de dados aqui analisado.
A correlação linear entre NUL e produção de leite foi moderada e positiva (r = 0,34; P<0,01), similar a outros estudos, o que confirma que rebanhos de maior produtividade podem apresentar valores de NUL mais altos. Por esta razão, a covariável produção de leite foi incluída no modelo, sendo importante fonte de variação na uréia do leite.
Vacas alimentadas de acordo com o estágio de lactação, conforme recomendado pelo NRC (2001), elevam a produção de leite, porém também aumentam os níveis de ingestão de proteína bruta. A proteína suplementar pode aumentar a produção de leite, por fornecer mais aminoácidos para a síntese de proteína do leite, aumentar a energia disponível a partir da deaminação (quebra) dos aminoácidos ou alterar a eficiência de utilização dos nutrientes absorvidos. Consequentemente, níveis elevados de proteína na dieta determinarão maior liberação de amônia no rúmen, o que pode elevar as concentrações de nitrogênio ureico no leite. Um grupo de pesquisadores observou elevada correlação positiva, mas não-linear, entre NUL e produção de leite, e consideraram que uma possível explicação para este fato seria a utilização de rações com alto teor protéico para vacas de alta produção.
Por outro lado, outros autores não encontraram associações entre uréia e produção de leite, enquanto alguns observaram que a produção de leite em vacas em pastejo foi negativamente relacionada à concentração de uréia no leite.
As correlações entre NUL e teores de gordura e proteína foram negativas e de menor magnitude (r = - 0,11; P<0,01), coerente com os trabalhos de alguns pesquisadores. Estes autores verificaram que, quanto maior a porcentagem de proteína no leite, menor os valores de NUL. Esta tendência também foi verificada com a porcentagem de gordura no leite, porém de forma menos acentuada. Por outro lado, um trabalho realizado em 2006 mostrou correlação positiva entre concentração de uréia no leite e os constituintes do leite (gordura, proteína, lactose e sólidos totais).
A média ajustada para NUL de vacas Holandesas foi menor em relação àquela de vacas cruzadas, Jersey e Pardo-Suíço: 14,18; 15,49; 16,12 e 17,62 mg/dL, respectivamente, conforme a Figura 1. Esses resultados estão de acordo com um trabalho que também relatou médias de NUL mais baixas na raça Holandesa (12,7 mg/dL) e mais altas nas raças Jersey e Pardo-Suíço (14,6 e 14,4 mg/dL, respectivamente). Por outro lado, contrastam com outro estudo, no qual foram observados maiores valores de NUL nas Holandesas (15,5 mg/dL) e menores nas vacas Jersey (14,1 mg/dL).

Por outro lado, um pesquisador relatou que o peso corporal é negativamente correlacionado com o NUL em vacas leiteiras, coerente com os resultados do presente estudo. Não se pode concluir o que provocou as diferenças entre os valores de NUL entre grupos genéticos distintos em nosso estudo, mas deve-se ressaltar que 94,9% dos controles mensais avaliados são de vacas Holandesas, e vacas dos outros grupamentos raciais são minoria dentro dos rebanhos Holandeses. Em outras palavras, no banco de dados analisado por nosso grupo, há poucos rebanhos exclusivamente formados por vacas não-Holandesas. Assim, pode-se formular a hipótese de que nesses rebanhos as dietas eram formuladas de acordo com a produção e composição do leite do grupamento racial predominante, e por isto vacas Holandesas apresentariam maior eficiência na utilização do nitrogênio dietético, e isto poderia levar a menores concentrações de NUL.
Vacas primíparas apresentaram média de NUL superior às médias de vacas com 2, 3 ou mais partos: 16,16; 15,95 e 15,45 mg/dL, respectivamente, como observado na Figura 2. Esse resultado é coerente com os de outro estudo, porém confrontam com os relatados por outros pesquisadores, os quais observaram valores de NUL mais baixos em vacas de primeira lactação, o que foi atribuído ao fato desses animais estarem com um metabolismo mais acelerado e, com isso, maior capacidade de utilização dos aminoácidos e menor transformação em uréia. Também pode ser explicado simplesmente pela menor produção de leite das vacas primíparas.

Estes maiores valores de NUL para vacas mais jovens, observados em nosso trabalho, podem refletir um excesso de proteína bruta nas dietas destes animais, já que em muitos rebanhos leiteiros paranaenses as vacas primíparas, apesar de menos produtivas, recebem as mesmas dietas das adultas de alta produção.
As concentrações de NUL foram mais altas no inverno (16,24 mg/dL), intermediárias na primavera (15,88 mg/dL) e inferiores no outono e no verão (15,69 e 15,60 mg/dL, respectivamente), como mostra a Figura 3. Esses resultados são opostos aos encontrados em outros trabalhos, que observaram valores de NUL mais altos nos períodos mais quentes do ano.

Gramíneas de inverno, como aveia e azevém, podem conter altos teores de proteína (superiores a 20%PB) e baixos teores de carboidratos solúveis, criando, assim, uma alta relação proteína: energia, o que pode resultar em elevada concentração de NUL. Concentrações superiores de uréia no leite no inverno, observadas no presente estudo, são provavelmente devidas à maior disponibilidade destas forragens ricas em proteína, típicas do período no sul do Brasil e, particularmente, na região paranaense dos Campos Gerais, principal origem do banco de dados analisado por nossa equipe.
Já a variação nos valores de NUL, de acordo com o estágio de lactação, é similar ao típico formato da curva de lactação, como pode ser constatado na Figura 4, porém o pico de NUL em nosso estudo ocorreu entre 151 e 180 dias em leite (16,35 mg/dL), enquanto que a produção de leite tem seu pico ao redor dos 45-60 dias (NRC, 2001). Vários pesquisadores observaram tendências similares. O fato do pico de NUL ser observado ao redor da metade da lactação provavelmente é devido à maior ingestão de matéria seca e, consequentemente, de proteína bruta nesta fase da lactação.

Um trabalho de pesquisa relatou associação positiva, mas não-linear, entre uréia no leite e DEL, e mostrou que as concentrações de NUL foram mais baixas nos primeiros 60 dias, aumentando entre 60 e 150, e decrescendo após 150 dias em lactação. Conforme estes autores, diferenças entre ingestão de matéria seca (MS), adaptação microbiana do rúmen e capacidade absortiva podem ter contribuído para as diferenças na uréia do leite em diferentes estágios da lactação.
Um outro grupo de pesquisadores observou que o nível de NUL foi mais baixo no primeiro mês de lactação (10,14 mg/dL), como consequência do menor consumo de MS no período, atingindo seu pico aos 4 meses de lactação (11,80 mg/dL), em razão do aumento na ingestão de MS, e decrescendo ao fim da lactação (10,56 mg/dL), como resultado do menor consumo de MS e de proteína nessa fase. Em outro trabalho, observou-se que as concentrações de nitrogênio ureico no plasma e no leite aumentaram com o transcorrer das semanas pós-parto, o que foi atribuído aos maiores teores de PB das rações ingeridas tão logo iniciaram as lactações.
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