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Nutrição

Os fundamentos na alimentação e manejo de vacas leiteiras que podemos aprender (ou reforçar) com a experiência americana que atravessou uma grande crise em 2009

Os fundamentos na alimentação e manejo de vacas leiteiras que podemos aprender (ou reforçar) com a experiência americana que atravessou uma grande crise em 2009

Texto: Renato P. Nogueira

Este artigo é baseado no texto americano FEEDING DAIRY COWS FOR PROFITABILITY IN 2011 AND BEYOND”, do Dr. Mike Hutjens, que virá em maio no III Simpósio Internacional da  Leite Integral.

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Existe um sábio ditado inglês que diz o seguinte: “Nos apoiamos nos ombros das pessoas que vieram antes de nós”. Ele tem o significado de aprendermos com todas as lições do passado para nos fortalecermos no presente e prepararmos melhor o futuro. Em 2009, nos USA, a atividade leiteira passou por uma forte crise que derrubou os preços do leite de, aproximadamente, R$0,89 o litro para R$0,53, isso em apenas dois meses, e durou por mais de 10 meses.

Como se diz, após a tempestade vem a bonança. Para o setor, as crises servem como seleção natural para os que resistiram a ela. E a bonança, muitas vezes, vem na forma de experiências, quebra de paradigmas e lições para os que foram profissionais o suficiente para se ajustarem e resistirem, tomando decisões rápidas para adequar o seu fluxo de caixa, diante da nova realidade de preços, sem afetar o futuro do seu negócio. E é certo que após a passagem de uma grande tormenta o setor jamais será o mesmo. Ele ficou melhor, mais profissional. Na história da humanidade é assim. Os grandes avanços das civilizações foram precedidos por grandes crises na forma de guerras, secas, doenças.

 

A crise

“Não pretendemos que as coisas mudem se sempre fazemos o mesmo. A crise é a melhor benção que pode ocorrer com as pessoas e países, porque a  crise traz progressos. A criatividade nasce da angústia, como o dia nasce da noite escura. É na crise que nascem as invenções, os descobrimentos e as grandes estratégias.Quem supera a crise, supera a si  mesmo sem ficar “superado”. Quem atribui à crise seus fracassos e penúrias,  violenta seu próprio talento e respeita  mais  aos problemas do que às soluções.  A verdadeira crise, é a crise do conformismo. O inconveniente das pessoas e  dos  países é a esperança de encontrar as saídas e soluções fáceis. Sem crise não  há desafios,  sem desafios, a vida é uma rotina, uma lenta agonia. Sem crise não  há mérito. É na crise que se aflora o melhor de cada um. Falar de crise é promovê-la,  e calar-se sobre ela é exaltar o conformismo. Em vez disso, trabalhemos duro. Acabemos de uma vez com a única crise ameaçadora, que é  a tragédia de não querer lutar para superá-la”.(Albert Einstein)   

Bom, não acho que estejamos em crise e obviamente torcemos para que ela não venha tão cedo. Porém, a base deste artigo lança fundamentos em relação à alimentação de vacas leiteiras que em todas as ocasiões devem ser sempre lembradas. Aproveitando que o Dr. Mike Hutjens, o extensionista mais atuante do mundo, estará no Brasil em maio de 2013 creio que seja a hora de colocar estas lições a todos que não acessaram o artigo original.

 

A pesquisa                                                                                                                              

O autor fez uma pesquisa no setor com trinta e dois nutricionistas, nove veterinários e dez educadores/extensionistas que responderam quais foram as três melhores e as três piores decisões de manejo nas fazendas que acompanham para se ajustar ao mercado, ordenando pela sua importância em um sistema de pontuação (Tabela 1).

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As práticas positivas na crise

Top1: Forragem - A pesquisa aponta o papel da qualidade das forrageiras como pilar para suportarmos bem uma crise no setor. Produção de forragem de alta qualidade e em grandes quantidades para aumentar sua participação nas dietas é uma questão de sobrevivência, seleção natural talvez.  Em um artigo do Dr. Larry Chase, da Cornell University, intitulado: Alta forragem nas dietas – quão longe podemos ir?”  notamos vacas de alta produção, consumindo dietas com alta participação de forragem, mantendo alto consumo e com produções excelentes. Para aumentar a forragem na dieta é preciso ter um excelente manejo da alimentação e uma forragem de altíssima qualidade. Veja na tabela 2 uma compilação de dados reais de fazendas, mostrando desempenho de dietas e o teor de forragem nas mesmas.

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Parece incrível, não? Mas, citações americanas de dietas com maior participação de forragens e altas produções começam a aparecer com mais frequência após a crise de 2009. E não é o tipo de dieta que os europeus já fazem há tempos?

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Top 2 . Manter-se no curso -  Não se precipitar. Manter a cabeça no lugar e não tirar o trem dos trilhos.  O histórico de ações positivas que se tem no manejo do rebanho tem que ser mais do que nunca o foco de todos. Os ajustes são fundamentais, devem ser feitos, mas com estudos dos números do rebanho, por bons profissionais, avaliando os riscos. O segredo na crise é não afetar o futuro devido a um momento ruim no presente. É importante realizar ajustes que não trarão um residual aos próximos anos. Um grande exemplo, que penso sobre este tópico, é a crise que enfrentamos no leite em 2006, aqui no Brasil. Um ano péssimo de preços de leite. Algumas fazendas pararam de inseminar e colocaram um touro de corte no rebanho. O que aconteceu nos anos de 2009, 2010 e 2011? Anos excelentes de preços de leite e muitos rebanhos sem reposição do plantel, tendo que comprar vacas em preços altíssimos para poderem continuar a produzir leite.

Top 3. Balanceamento de dietas e nutrientes - O rúmen vale ouro neste momento. O maior potencial dos ruminantes é utilizar alimentos com alto desempenho, que não podem ser utilizado por nenhum outro animal na Terra, inclusive o homem. E não estamos falando só de forragem. Falamos também de subprodutos, nitrogênio não proteico e outros. Se digitarmos subprodutos e dietas para vacas de leite no Google, em inglês, acharemos cinco milhões e quinhentos e dez mil resultados em 0,30 segundos. Portanto, não fiquem jamais sem um bom profissional para cuidar do balanceamento da dieta e do manejo da alimentação. Alimentação é o maior custo de produção da pecuária leiteira, afetando: produtividade, longevidade, custo total, reprodução, sanidade do rebanho, interação com o programa agronômico da propriedade e taxa de lotação, além de ter reflexo direto na lucratividade

 

Outros pontos relatados como positivos na pesquisa

Manter elevado o moral da família e das pessoas envolvidas com o trabalho diário do rebanho. Se o capitão do barco é extremamente pessimista, e o primeiro a ficar reclamando, como os colaboradores vão se superar para conseguir um resultado melhor no momento em que mais se precisa deste resultado? 

Receber prêmios por sólidos e qualidade. Já que o preço está péssimo, agora sim, é mais importante ainda atingir a melhor remuneração possível. 

Ter estratégias de descartes. Retire imediatamente as vacas menos eficientes do plantel. Os lotes de vacas atrasadas, mancas, CCS alta, baixa eficiência alimentar devem ser descartados. Quanto a este tema gosto de citar a frase de um grande veterinário de Minas Gerais, Eduardo Lopes: “Fazenda de baixo descarte e baixa mortalidade escolhe quem sai. Fazenda que não maneja bem a longevidade dos animais tem alto descarte e alta mortalidade e fica com quem sobra. Não tem condições de realizar um descarte altamente produtivo.” Nos momentos de crise, as fazendas que ficam com quem sobra não podem se beneficiar de um bom descarte e não conseguirão se ajustar ao momento proibitivo de segurar animais de eficiência abaixo da média no rebanho.

Realizar ajustes financeiros. Claro que eles têm que ser realizados. A renda bruta da fazenda cai mais de 40% em dois meses. Mas, os ajustes devem ser respaldado na ciência, experiência e muita avaliação dos cenários. É hora de quebrar paradigmas, enfrentas as dificuldades e não perder tempo com o que não é realmente muito importante.

 

 

As práticas negativas na crise

Top 1. Remover alimentos -  O preço do leite caiu? Retira-se 3 kg de ração de todo o rebanho. A partir de amanhã a fazenda terá menos leite, mas o custo fixo será o mesmo, as vacas de alta produção perderão muito peso e vão aumentar o intervalo parto-concepção. Esta realmente é a pior coisa a ser feita. O ajuste alimentar tem que ser feito, mas avaliando as forragens, subprodutos, fazendo uma boa divisão de lotes para separar as vacas que menos respondem à suplementação concentrada, vacas prenhas e em boa condição corporal dos animais de maior potencial de resposta, vazias e precisando ganhar peso. Fazer ajuste sem um profissional e sem estratégia é realmente a pior decisão a ser tomada.  A dieta única, prática de manejo muito adotada no passado, devido ao pequeno número de pessoas que trabalham em uma fazenda leiteira, me parece que diminuiu consideravelmente. E uma boa divisão de lotes tem alto impacto neste momento. Não se permite gastar com quem não responde, menos ainda em épocas de apertos econômicos.

Top 2. Remover minerais, vitaminas e aditivos - Faço minhas as palavras do Dr. Matthew Aldrow, da Universidade do Missoury, no excelente evento Novos Enfoques na Produção e Reprodução de Bovinos em 2011. “Em tempos econômicos difíceis para o setor leiteiro, os produtores não apenas pressionaram os nutricionistas para diminuir o custo das dietas, como em alguns casos determinaram a remoção de micronutrientes e aditivos benéficos da dieta. Em outros casos, os nutricionistas voluntariamente retiraram estes nutrientes da dieta para sobreviver às guerras de preços nas fazendas, que se intensificaram em momentos de dificuldade econômica. No curto prazo, os desdobramentos de uma suplementação de microminerais marginal, ou até mesmo deficiente, podem passar despercebidos. Entretanto, ao longo do tempo e conforme os fatores de estresse e os insultos imunológicos se acumulam não se trata de se o trem vai sair dos trilhos, mas de quando.”

Top 3. Não se manter no curso. Negligenciar as disciplinas da pecuária leiteira eficiente. Como exemplos do Dr. Hutjens no artigo original,  cito:

Atrasar a recria. Novilhas especializadas precisam ganhar 700 gramas de peso por dia para atingir o peso adequado ao parto com 23-24 meses. O custo de atrasar o parto é de dois dólares por dia (apenas os custos com alimentação adicionais sem estar produzindo).

Um aumento na contagem de células somáticas devido a remoção de minerais orgânicos, menos vitamina E ou perda excessiva de condição corporal levará o rebanho a perder 0,5 a 0,9 litros de leite para cada aumento linear de cada CCS no rebanho.

Um aumento nos dias em aberto do rebanho (atraso no intervalo parto-concepção) custará dois dólares por dia, para cada dia acima de 120 dias em aberto. E este valor aumentará para oito dólares por dia para cada dia acima de 180 dias em aberto. Este atraso poderia ser devido a um aumento no balanço energético negativo por remoção de gordura ou aditivos da dieta dos animais.

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Outros pontos negativos relatados:

Baixa qualidade das forragens.

Não aceitar suporte financeiro. Ninguém tem obrigação de ser bom em tudo. Ainda mais em uma atividade tão multidisciplinar como a pecuária leiteira. Porém, temos o dever de escolher os melhores parceiros e profissionais para nos ajudar. Não se isole. Não acreditar em ninguém é tão perigoso quanto acreditar em todos.

Reduzir a saúde do rebanho, dos cascos e reduzir conforto dos animais.

Reduzir o uso de BST

Usar muitos grãos de destilaria na dieta. É preciso balancear bem a dieta, respeitando limites de inclusão. Isso é impossível sem o trabalho de um bom nutricionista.

Não trabalhar seus números.

Decisões erradas de descarte (ou será que não podiam descartar porque já perdem muitos animais?).

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Considerações

As motivações para escrever este artigo foram duas. Primeira, e o mais importante, é prestar uma homenagem, na forma deste artigo, ao Dr. Mike Hutjens, um grande extensionista, com 39 anos de atuação a campo,  e aproveitar para convidar a todos para pessoalmente ouvi-lo no Simpósio da Leite Integral. Ele é o profissional mais requisitado em manejo e nutrição de vacas de leite nos Estados Unidos.  Segunda, é que no ano passado ministrei algumas vezes uma palestra baseada nas lições deste artigo, sendo muito bem recebida, e o momento é propicio devido ao aumento abrupto nos preços das commodities vivenciados no último semestre de 2012. Espero vê-los pessoalmente no III Simpósio da revista Leite Integral.

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