Por que as decisões de alojamento na fase de cria geram importantes efeitos sobre as bezerras?
Decisões de alojamento na fase de cria e seus efeitos sobre comportamento, saúde e desempenho das bezerras
O manejo de bezerras leiteiras é determinante para a saúde, o desempenho e a longevidade produtiva das vacas, sendo a criação coletiva uma estratégia central para atender às necessidades comportamentais da espécie. Bovinos são animais naturalmente sociais e, em sistemas extensivos, vacas próximas ao parto buscam locais mais reservados, mas poucos dias após o nascimento, as bezerras passam a interagir progressivamente com o rebanho. Em poucas semanas, permanecem grande parte do tempo em grupos de animais jovens, estabelecendo vínculos sociais, aprendendo por observação e explorando o ambiente de forma ativa, o que favorece o desenvolvimento comportamental e adaptativo.
No entanto, na pecuária leiteira moderna, essa dinâmica natural nem sempre é reproduzida. Historicamente, o alojamento individual de bezerras predominou no Brasil e em diversos países, principalmente por sua praticidade e pelo manejo sanitário. Esse modelo facilita a observação clínica, o controle de consumo, o manejo sanitário e a separação de animais doentes, reduzindo a disseminação de patógenos.
Mesmo com essas vantagens, o alojamento individual passou a ser questionado nos últimos anos. Pesquisas indicam que a falta de contato com outras bezerras pode limitar o desenvolvimento comportamental, a capacidade de adaptação e até a forma como o animal lida com desafios ao longo da vida. Assim, ganha força um debate relevante para o setor: qual sistema de alojamento atende melhor às necessidades biológicas das bezerras sem comprometer a eficiência produtiva?
Nesse contexto, as alternativas começaram a ganhar espaço nas fazendas. Entre elas, o alojamento em pares e os sistemas coletivos bem manejados, que permitem convivência, aprendizagem social e enriquecimento comportamental desde os primeiros meses de vida.
Diante disso, surge uma pergunta cada vez mais presente entre produtores, técnicos e pesquisadores: o que realmente muda no comportamento e no bem-estar das bezerras quando são criadas sozinhas, em pares ou em grupo? Estudos recentes ajudam a responder a essa questão e oferecem informações valiosas para repensar estratégias de manejo, buscando equilíbrio entre desempenho, biossegurança e bem-estar das bezerras.
Alojamento individual
Alojamento mais comum em sistemas de produção de leite intensivos. Os objetivos principais são limitar a transmissão horizontal de patógenos, controlar a mamada cruzada, facilitar o monitoramento da saúde e o manejo dos animais. Permite avaliar individualmente o consumo de alimento concentrado, com maior facilidade, visto que esse é um ponto de controle essencial para o crescimento das bezerras leiteiras. No entanto, há diversos desafios associados a esse tipo de alojamento quando consideramos as questões sociais, cognitivas e comportamentais das bezerras. Estudos têm demonstrado que alojamentos individuais limitam o aprendizado, afetam negativamente o bem-estar animal e comprometem a capacidade dos animais de desenvolverem-se de acordo com seu comportamento natural.
O material e o tipo de alojamento individual variam amplamente entre as propriedades brasileiras. Entre as opções mais simples está o bezerreiro argentino, em que a bezerra permanece presa a uma estaca, o que exige atenção à higiene, à drenagem e à proteção climática. Em sistemas mais estruturados, utilizam-se casinhas individuais abertas ou fechadas, de plástico, fibra, madeira ou alvenaria. As abertas favorecem ventilação em regiões quentes, enquanto as fechadas protegem do frio. Em todos os casos, são essenciais boa ventilação, facilidade de limpeza, cama seca e espaço adequado para expressão de comportamentos naturais.
Sob a ótica do bem-estar, o alojamento individual pode limitar a expressão de comportamentos naturais e comprometer o desenvolvimento social das bezerras, com possíveis efeitos a longo prazo. Embora a prevenção de doenças seja uma justificativa frequente, estudos indicam que não há diferença consistente na incidência sanitária entre sistemas individuais e coletivos quando o manejo e a nutrição são adequados. Assim, o alojamento individual, por si só, não garante melhor saúde, podendo apenas compensar falhas de manejo, higiene e alimentação que deveriam ser corrigidas independentemente do sistema adotado.
Bezerras em instalação individual: controle sanitário e monitoramento facilitados, porém com restrições às interações sociais e à expressão de comportamentos naturais
Alojamento em pares
O alojamento em pares tem se destacado como alternativa intermediária entre o sistema individual e o coletivo, permitindo contato social e aprendizado com menor complexidade de gestão. Bezerras alojadas em pares apresentam melhor consumo de alimento sólido, menor estresse e melhor adaptação ao desaleitamento e a ambientes novos. O apoio social favorece o desenvolvimento comportamental e o bem-estar geral. Embora haja preocupação com a transmissão de doenças, ela está mais relacionada à qualidade do manejo e aos cuidados sanitários do que ao tipo de instalação.
O bezerreiro em pares pode ser estruturado com baias fixas ou móveis, em madeira, metal, plástico ou alvenaria, desde que as baias garantam conforto, ventilação e higiene adequados. As instalações devem oferecer espaço suficiente para que ambas as bezerras se deitem, levantem e se movimentem sem restrições, com boa drenagem e cama seca, além de cochos e baldes dimensionados para acesso simultâneo, reduzindo a competição e o estresse. O alojamento em pares está associado a maior consumo precoce de alimento concentrado, maior ganho de peso, melhor adaptação ao desaleitamento e menor expressão de comportamentos indicativos de estresse. Entretanto, um erro comum é utilizar baias projetadas para um único animal, o que compromete os benefícios do sistema. Recomenda-se que o espaço seja, no mínimo, o dobro do indicado para o alojamento individual, evitando o aumento da competição, a piora da higiene e a restrição à movimentação.
Sob a perspectiva do comportamento e do bem-estar, o alojamento em pares favorece a expressão de comportamentos sociais e cognitivos naturais, como brincadeiras, contato físico e aprendizagem social, essenciais em uma fase crítica do desenvolvimento, sem prejuízo à saúde quando há manejo adequado. Estudos indicam que bezerras criadas em pares ou em grupos apresentam melhor desempenho em testes cognitivos, maior capacidade de lidar com novidades e menor reatividade ao estresse, em comparação às alojadas individualmente, evidenciando que a interação social precoce promove um desenvolvimento mais equilibrado.
Alojamento em grupos
Bezerras alojadas em grupos podem apresentar maior ingestão de ração sólida e maior ganho de peso antes e depois do desaleitamento, assim como as alojadas em pares. Há desafios como a avaliação individual dos animais e o manejo de animais doentes.
Em comparação ao alojamento individual, o sistema coletivo permite contato social pleno entre bezerras, favorecendo a formação de vínculos e o desenvolvimento de habilidades sociais essenciais ao bem-estar. Animais mantidos em grupo apresentam menor reatividade ao desaleitamento, com menos vocalizações e maior ganho de peso nessa fase.
QUANTO À SAÚDE, NÃO HÁ EVIDÊNCIAS CONSISTENTES DE MAIOR INCIDÊNCIA DE DOENÇAS EM GRUPOS QUANDO O MANEJO É ADEQUADO, SENDO FUNDAMENTAIS A AVALIAÇÃO DIÁRIA E O ISOLAMENTO PRECOCE DE ANIMAIS DOENTES PARA REDUZIR RISCOS SANITÁRIOS
Do ponto de vista social, consumidores tendem a preferir sistemas que permitam maior expressão de comportamentos naturais. Estudos mostram que crianças e adultos associam o alojamento coletivo a mais espaço e a maior socialização, demonstrando menor aceitação do sistema individual. Pesquisas de opinião aberta indicam que práticas como separação precoce e confinamento individual são avaliadas negativamente, reforçando a percepção de que sistemas mais naturais são mais éticos e desejáveis.
Apesar do interesse crescente pelo alojamento coletivo, produtores relatam desafios, como custos de adaptação das instalações, limitações de espaço e falta de mão de obra especializada. Avaliar a realidade de cada fazenda e contar com apoio técnico qualificado é essencial para implementar ajustes viáveis, com custos reduzidos, garantindo bem-estar e eficiência no manejo.

Contato entre bezerras favorece brincadeiras, exploração do ambiente e desenvolvimento comportamental mais estável
O ALOJAMENTO EM GRUPOS FAVORECE INTERAÇÕES SOCIAIS, BRINCADEIRAS E APRENDIZADO SOCIAL, REDUZINDO NEOFOBIA ALIMENTAR E ESTIMULANDO O CONSUMO PRECOCE DE ALIMENTO CONCENTRADO
Impacto dos tipos de alojamento no comportamento e no bem-estar animal
Permitir a expressão de comportamentos naturais é central para o bem-estar de bezerras, mas os sistemas intensivos tradicionais priorizaram a separação ao nascimento e o alojamento individual, visando ao controle sanitário e ao manejo. Evidências recentes indicam que esse modelo deve ser reavaliado, pois pode limitar o desenvolvimento social e cognitivo dos animais.
Mesmo em sistemas intensivos, é comum manter as bezerras isoladas apenas nos primeiros dias para cuidados com colostro e saúde, sendo posteriormente recomendada a formação de grupos, prática já respaldada por legislações europeias.
Bezerras criadas isoladamente tendem a apresentar maior estresse, medo e reatividade. O alojamento em grupos favorece interações sociais, brincadeiras e aprendizado social, reduzindo neofobia alimentar e estimulando o consumo precoce de alimento concentrado. Embora haja receio quanto ao aumento de doenças, estudos mostram que não há diferença consistente entre os sistemas, e animais em grupos ou pares podem apresentar melhor saúde e desempenho nos primeiros 60 dias. Além disso, o isolamento está associado à maior ocorrência de comportamentos estereotipados, reforçando o impacto do alojamento sobre o bem-estar.
O tipo de alojamento influencia respostas ao estresse, aprendizagem e adaptação das bezerras ao longo do crescimento
O que os estudos dizem ao comparar os sistemas
Pesquisas mostram que o contato com outras bezerras traz ganhos consistentes no comportamento e na adaptação dos animais. Bezerras criadas em pares ou em pequenos grupos interagem mais, exploram melhor o ambiente e apresentam menos medo e estresse em situações novas, quando comparados ao alojamento individual. Isso indica que aprender observando e convivendo com outras bezerras favorece a socialização e a capacidade de enfrentar desafios.
Do ponto de vista produtivo, alojar em pares ou grupos tende a estimular maior consumo de alimento concentrado, o que favorece a transição do leite para o alimento sólido e o melhor desenvolvimento, especialmente quando recebem espaço e nutrição adequados. Alguns estudos também mostram efeitos positivos na fase adulta, como maior permanência no rebanho e maior produção de leite ao longo da vida. Mas os benefícios podem não ser iguais para todos: bezerras mais leves podem apresentar desempenho um pouco inferior quando convivem com animais mais fortes. Por este motivo, é necessária muita atenção à formação dos grupos e ao comportamento dos animais.
Em relação à sanidade, a literatura não mostra aumento claro de diarreia ou pneumonia quando as bezerras estão em pares ou grupos, desde que haja higiene adequada, bom manejo do colostro, dimensionamento correto dos grupos e ambientes bem ventilados.
DE FORMA GERAL, OS ESTUDOS TRAZEM UMA MENSAGEM SEMELHANTE: QUANDO BEM PLANEJADOS E CONDUZIDOS, OS SISTEMAS DE CONTATO ENTRE BEZERRAS FAVORECEM O BEM-ESTAR, O CRESCIMENTO E A ADAPTABILIDADE, SEM NECESSARIAMENTE AUMENTAR OS RISCOS SANITÁRIOS
Conclusão
A escolha do alojamento deve considerar a realidade da fazenda, a estrutura, os desafios sanitários e a equipe treinada. Ainda assim, evidências indicam que o alojamento em pares ou em pequenos grupos, quando bem manejado, favorece o desenvolvimento social e a adaptabilidade das bezerras. A consultoria técnica especializada é essencial para orientar ajustes que promovam maior bem-estar.
Bem-estar não é apenas uma questão ética: impacta diretamente o desempenho e a longevidade das vacas. A fase de cria é decisiva para formar animais mais resilientes, produtivos e adaptados, contribuindo para sistemas leiteiros mais eficientes e sustentáveis.

Instalações adequadas, nutrição correta e manejo consistente são determinantes para que o alojamento em pares ou grupos expresse seus benefícios
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Ruminant Welfare
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