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Fazendas

Fazenda Santa Thereza - Aparecida do Rio Doce/GO

Fazenda Santa Thereza - Aparecida do Rio Doce/GO

Texto: João Paulo Santos

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A fazenda

A história do Grupo Santa Thereza é marcada por diferentes etapas e ciclos, envolvendo a exploração da terra com pecuária, desde 1920, na região de Ituverava-SP. Em 1975, passaram a plantar soja em SP e GO. Em 1999, iniciaram um projeto de produção em regime de integração com a então Perdigão, em Goiás (avicultura e suinocultura). Hoje, são um dos maiores fornecedores da Brasil Foods (BRF), recebendo inúmeros prêmios “Top Perdigão” pela excelência em desempenho e resultados.  São 48 granjas ao todo, 24 destinadas à avicultura de corte e 24 para terminação de suínos. Anualmente, são abatidos 3.300.000 frangos de corte e 67.200 suínos (terminação). A propriedade possui 2.000 ha de área total, com 1.100 ha de reflorestamento (eucalipto), e os negócios são gerenciados em conjunto pelos irmãos Frederico de Oliveira Ferreira, administrador de empresas formado pela FEA/USP, que recebeu a equipe do Porteira Adentro,  e  Renato de Oliveira Ferreira, engenheiro agrônomo, formado pela Unesp Jaboticabal.

“Acreditamos que para se produzir é necessário praticidade e simplicidade e, para que um projeto dê certo, é necessário planejamento e controle dos custos. Estes, obrigatoriamente, devem ser baixos, para viabilizar um empreendimento”. Com estas palavras, o empresário Frederico, chamado de Fred por todos na fazenda, iniciou a conversa com nossa equipe, ao ser indagado sobre os motivos e a escolha do leite como nova atividade para complementar a receita do Grupo Santa Thereza, em Aparecida do Rio Doce-GO. A produção de leite na fazenda é recente (1 ano), em sistema de pastoreio  rotacionado, irrigado por um pivô central de 57 ha, tendo como objetivo a implantação de um total de  até 8 módulos de produção, de mesma área (pivô irrigando capim Vaquero/Cynodon dactylon: propagado por sementes ou Tifton 85).

A fazenda produz hoje 3.000 litros/dia, operando em um módulo de produção, ou seja, uma unidade de ordenha centralizada em um pivô central com 57 ha. A produção começou com 350 vacas ordenhadas, e a previsão para o final de 2013 são 650 vacas em lactação. Segundo Fred, este módulo está servindo como base para que os demais sejam implantados. “A expansão vai depender dos resultados que estamos apurando agora, neste primeiro pivô”.  No meio do reflorestamento, estrategicamente, foram designadas áreas circulares para implantar 8 pivôs de 57 ha, 4 de 40 ha e 1 de 18 ha, e 10 ha com malha de irrigação.   Apesar dos números alcançados com a suinocultura, eucalipto e frangos de corte, Fred acredita que o leite tem potencial para se tornar a mais rentável atividade do grupo. “Isso  vai depender de muitas variáveis tais como mercado, preço de insumos, bem como dos números que estamos apurando agora. Em todos os nossos projetos trabalhamos de modo modular ou com projeto piloto”. Esta estratégia, aprendida com o sucesso da suinocultura e avicultura, está sendo também implementada no leite.

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O sistema

O sistema de produção da Santa Thereza foi delineado visando aproveitar e integrar as diferentes atividades do grupo. A escolha do leite foi estratégica por ser complementar à avicultura de corte, suinocultura e reflorestamento. A avicultura e a suinocultura produzem esterco e dejetos líquidos de qualidade e passíveis de serem aproveitados na implantação e manutenção das pastagens para produção de leite, e as florestas colaboram com a redução do stress térmico dos animais  e também funcionam como uma barreira sanitária. Anualmente, são produzidas 5.000 toneladas de cama de frango e 93.600 m3 de dejetos líquidos de  suínos (chorume).

Todas as áreas ocupadas por pivôs são abastecidas, por gravidade, pelos dejetos da suinocultura que, antes de serem aproveitados, permanecem por 60 dias em lagoas de estabilização. Posteriormente, são bombeados e utilizados para a fertirrigação dos módulos de pastoreio rotacionados. Toda a demanda de macronutrientes (N-P-K) é atendida pela adubação orgânica, sendo utilizado somente calcário para correção do solo, uma vez por ano.

O sistema de produção a pasto da Santa Thereza está fundamentado em rígido controle de produção de forragem pela pastagem e do consumo da mesma  pelos animais. O controle do pastejo é realizado por meio das técnicas direta (corte, pesagem e desidratação da massa de forragem) e indireta (pela altura do pasto), antes e após cada pastejo. Cada módulo de produção de 57 ha é dividido em 12 piquetes fixos com cerca elétrica fixa. O pastejo é conduzido em faixas, ou seja, com uso de cerca elétrica móvel, que é mudada ao longo do dia conforme os animais vão consumindo a forragem, permitindo um pastejo mais eficiente e homogêneo e minimizando perdas por acúmulo de excrementos e pisoteio irregulares, por exemplo. A “altura-alvo” de entrada é padronizada em 25 cm de altura e a saída é realizada com 12 cm de altura. Antes de um piquete ser pastejado, um funcionário devidamente capacitado e treinado realiza a “leitura” da pastagem com amostrador tipo prato (neozelandês). O amostrador tipo prato permite calcular a altura média do dossel (relvado) antes da entrada e após a saída dos animais. Na saída de cada piquete a altura é novamente medida pelo prato e os dados são anotados. Essa responsabilidade fica a cargo do gerente do leite, Bruno Costa, funcionário que controla o manejo do pivô. Antes da entrada de cada piquete, Bruno realiza amostragem para o cálculo da disponibilidade de forragem, que é obtido em kg de matéria seca/ha, com o quadrado de ferro 1m2, que é lançado em 8 sub-amostras/piquete. As sub-amostras são cortadas - simulando pastejo -, e misturadas, gerando uma amostra composta representativa final, da qual é extraída a quantidade de 100 gramas para a determinação do conteúdo  da matéria seca. Pela diferença entre altura média de entrada no piquete x altura média de saída e teor de MS da forrageira no momento do consumo é estimada a disponibilidade e o consumo médio de forragem em cada piquete. Todos estes dados são lançados em uma planilha e controlados de acordo com as recomendações do Prof. Adílson de Paula Almeida Aguiar da FAZU/CONSUPEC (Uberaba-MG), especialista em pastagens, responsável pela implantação do projeto na fazenda. A equipe de colaboradores do projeto  passou por treinamentos de técnicas de monitoramento da produção da pastagem, ministrados pelo zootecnista Mateus Contatto Caseta, da CONSUPEC (Uberaba-MG).

Para a implantação do projeto técnico da irrigação foi realizado um estudo prévio e levantamento da disponibilidade de água da Santa Thereza. A elaboração do projeto de irrigação também contou com a participação de um especialista na área, Luis César Dias Drumond, Prof. da Universidade Federal de Viçosa (MG). Ao todo, foram investidos R$44.000,00/ha no pivô-piloto, incluindo ordenha, e sem considerar os animais e o preço da terra. Com animais, o valor do investimento praticamente dobra.

As pastagens da fazenda apresentam teores médios de proteína bruta (PB%) acima de 20% ao longo do ano. Essa qualidade de forragem é obtida graças ao eficiente manejo do pastejo - alturas de entrada e saída - e à fertirrigação que acompanha o pastejo dos animais, ou seja, a adubação acontece logo após a saída dos animais dos piquetes. O volume de dejeto líquido de suínos lançado anualmente é de 600 m3/ha/ano, equivalente a 780 kg de N, 198 P205 e 960 K20/ha/ano.

Dessa forma,  o balanceamento da dieta dos animais é fechado apenas com o fornecimento de uma fonte de energia - o farelo de milho - que é fornecido em conjunto com o núcleo mineral. A suplementação energética e mineral é realizada a cada ordenha, em cochos de livre acesso, instalados na saída da mesma. A quantidade média de farelo de milho fornecida é de 4 kg/cab/dia para o Lote 1 (vacas até 120 dias em lactação) e 3 kg/cab/dia para o Lote 2 (vacas com mais de 120 dias em lactação), divididos em 2 tratos/dia. A média de produção individual tem oscilado entre 8 a 12 kg de leite vaca/dia.

Para a implantação de toda parte técnica referente aos animais, a fazenda conta com a assessoria de Marco Antônio Pádua Carvalho, da MCA Gestão Pecuária, consultor responsável pela saúde, reprodução, produção e genética  das vacas. Segundo os gestores, o gado está muito bem adaptado ao Centro Oeste. Uma preocupação desde a implantação do projeto foi o status sanitário.  O gado é 100% livre de brucelose e tuberculose, e os problemas de Tristeza Parasitária estão sob controle, já que os animais têm contato precoce com carrapatos. Na parte genética, um dos objetivos principais é ter animais produtivos e selecionados para produzir em sistema de pastejo. Para tanto, a fazenda implantou um programa genético com uso de transferência de embriões e FIV, usando doadoras produtivas e funcionais acasaladas com touros muito específicos para  alcançar os índices condizentes com o projeto, pensando também na comercialização futura de genética  ao mercado.

Nos períodos e nos dias mais quentes do ano o pivô é utilizado, também, para amenizar o stress térmico dos animais por meio da aspersão de água. Na linha de irrigação há uma linha secundária de menor vazão que bombeia água para outro conjunto de aspersores utilizados somente para este fim. Nos dias mais quentes, o pivô é direcionado para o piquete que está sendo pastejado. O sistema de fertirrigação é desligado, sendo colocado em funcionamento a linha de água de aspersão para refrescar as vacas, atenuando o calor. O período de ocupação (PO) médio de cada piquete é de cerca de 2 dias, e varia de acordo com a estação do ano. A lotação chega a 13 UA/ha, 12 UA/ha, 8 UA/ha e 7 UA/ha na primavera, verão, inverno e outono, respectivamente.

O fornecimento de água para os animais é feito por meio do uso de bebedouros móveis, tipo cocho, adaptado sobre rodas para ser transportado por trator ou quadriciclo equipados com 2 bóias de alta pressão, sem cantos vivos, para segurança. Essa alternativa inteligente foi criada na própria fazenda para reduzir custos. Em cada piquete existem diferentes pontos de captação (hidrantes) e o bebedouro é equipado com uma mangueira de 1,5 polegadas com engate rápido, facilitando o manuseio e evitando a formação de malhadouros dentro dos piquetes.

Na Santa Thereza, são realizadas 2 ordenhas, as 3:30 a.m. e 14:30 p.m.. Esses horários foram escolhidos de forma estratégica, visando o pico de consumo dos animais, e focado na disponibilidade de forragem de boa qualidade após a extração do leite.

Os dados de qualidade do leite indicam CCS média de 160.000/mL, CBT de 4.000 UFC/mL, gordura  de 4,50% e proteína de 3,64%, no ano de 2012.  O preço médio recebido foi de R$1,00/L, com custo de produção de R$0,75/L. Atualmente, com o adicional por qualidade estão recebendo R$1,17/litro e são fornecedores da DPA/Nestlé.

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A gestão

O Grupo Santa Thereza é uma empresa familiar, administrada diretamente por Fred, administrador de empresas, e Renato, engenheiro agrônomo. Além de Fred e Renato a empresa possui mais 3 sócios acionistas: o irmão Fábio, o pai Eugênio Ferreira, ambos médicos, e a mãe, Thereza Christina Ferreira, professora e agropecuarista.  São realizadas reuniões mensais entre os sócios para a apresentação de dados, resultados, discussões, planejamento e diretrizes da empresa.

A Santa Thereza possui uma gestão totalmente empresarial, com corpo de 80 funcionários. Para Fred, o maior valor de uma empresa está, justamente, na qualificação e valorização da mão-de-obra empregada: “o que move o negócio, a alma da empresa, são seus colaboradores”. Por este motivo, há grande preocupação do grupo com o bem estar e grau de satisfação nas frentes de trabalho. Para que este objetivo seja alcançado, a empresa investe em áreas de lazer, qualificação e reconhecimento dos funcionários, que contam com moradias modernas, amplas, bem instaladas e padronizadas. Há também uma boa área de lazer, com campo de futebol iluminado e local de confraternização para realização de churrascos regulares. Fred acha muito importante que a equipe se sinta bem no trabalho e considera essencial essa contrapartida para garantir a fidelização dos seus trabalhadores. O resultado: a Santa Thereza não encontra dificuldades com mão-de-obra. A fazenda não procura funcionários. A mão-de-obra vai atrás da fazenda, pois sabe que estar dentro do seu corpo de funcionários pode ser uma grande realização.

A gerência geral da propriedade fica a cargo de Sineis Costa, Colaborador-Administrador de confiança, no grupo há mais de 20 anos, que teve a oportunidade de crescer junto com a Santa Thereza. Para Fred, Sineis possui um dom especial: a capacidade de administrar, conduzir e gerenciar diferentes equipes e pessoas ao mesmo tempo, atributo essencial para empresas de maior porte e com grandes equipes de trabalho.

Fred considera que o gestor de qualquer negócio deve manter um distanciamento das atividades cotidianas e corriqueiras, o manejo em si de uma propriedade, caso contrário o tempo precioso para tomar decisões pode ser consumido ao resolver questões não urgentes ou mesmo problemas operacionais. Julga ser muito importante ter tempo e capacidade para observar os números, realizar levantamentos e trabalhar os dados para enxergar os pontos de estrangulamento do sistema como um todo. “Não podemos ter uma visão da árvore, apenas. É necessário conduzir e enxergar a floresta”, conclui, utilizando o ditado popular.

A visão da floresta, no caso de Fred, não é apenas metafórica, mas literal. Toda semana ele cruza a distância entre Ituverava e Aparecida do Rio Doce a bordo de seu monomotor Quasar - com preço e custo operacional menor que de uma camionete, ele faz questão de dizer - pilotado por ele próprio, em 1 hora e meia de viagem. Do alto, vê as modificações na paisagem e, chegando na própria fazenda, já coleta diversas informações. “Quando desço, já tenho o que conversar com a gerência”, explica.

A estrutura organizacional hierárquica da empresa, de modo simplificado, é composta por 2 diretores executivos, Fred e Renato, 1 gerente geral, Sineis, e 1 gerente por setor (Aves, Suínos, Florestas e Leite). Jorge L. R. Mendonça, com larga experiência no mercado financeiro, e José Renato Araújo, agrônomo, são consultores do grupo e participam ativamente na gestão.

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A visão do técnico

Uma pergunta corriqueira nas mesas de discussões, quando o assunto é a atividade leiteira, refere-se ao limite em termos de área para a implantação e viabilidade de um sistema de produção a pasto. Tradicionalmente, este sistema é encarado como o mais simples e com menor necessidade de investimento inicial para se produzir . O argumento usualmente empregado se dá pelo simples fato da forragem chegar até o animal pela boca da vaca e não por meio de mão-de-obra e/ou maquinários. Em contrapartida, sabemos que a distância a ser percorrida pelas vacas entre os piquetes mais distantes até a ordenha é um desafio para projetos maiores, que utilizam grandes áreas. Além do fator “distância”, outros problemas podem surgir, como a manutenção de corredores, desgaste da mão-de-obra e tempo consumido com a condução de lotes no manejo diário.

Tecnicamente, sabemos que podemos resolver muitos destes problemas ao trabalharmos de modo planejado. Este é um grande desafio de uma boa parte das propriedades em atividade no país. Sistemas são montados, muitas vezes, de maneira desordenada, de modo que o custo para correção de determinados erros de manejo é tão caro que, muitas vezes, acabam sendo incompatíveis com o fluxo de caixa gerado pela atividade. A Santa Thereza mostra uma realidade diferente neste aspecto, ou seja, na prática percebemos que quando há um bom projeto e planejamento prévio é possível criarmos soluções e viabilizarmos empreendimentos de grande porte, em um sistema de produção classificado erroneamente, por muitos, como típico para pequenas propriedades. Esta é a terceira propriedade do projeto Porteira Adentro – Fazendas, que visitamos e que verificamos a produção de leite em larga escala (acima de 10.000 litros/dia) em regime de pastejo. O projeto da Santa Thereza, hoje, produz 3.000 litros, mas enxerga a possibilidade para transformar o leite em uma das principais, senão a maior atividade econômica do grupo.

Esse projeto é um grande exemplo prático sobre os fatores que devem ser avaliados no momento da escolha de um sistema de produção de leite. A experiência pecuária do grupo foi adquirida por meio da engorda de frangos de corte e suínos, ambas envolvendo galpões fechados, tecnologia em termos de conforto ambiental, elevada produtividade individual e escala de produção. Por analogia, são características e perfil de produção mais alinhados a eventual confinamento como opção para se produzir leite. Em função da disponibilidade de área, da topografia muito plana, das condições climáticas e da perspectiva de rentabilidade, o sistema delineado foi a pasto. Apesar do grande investimento/área, com implantação de pivôs e unidades de ordenha, com módulo de produção atingindo R$44.000,00/ha, a possibilidade de se produzir em escala e a baixo custo é o grande diferencial do projeto.

É importante salientar que, para se viabilizar grandes investimentos, é preciso volume e eficiência. E esses fatores podem ser muito potencializados quando ocorre sinergia com outras atividades, como é o caso do grupo Santa Thereza. Todo o  dejeto líquido de suínos é aproveitado para adubação das pastagens. Na formação da pastagem, é possível fazer uso de esterco sólido e cama de frango. O custo de adubação do sistema está ligado somente à correção do solo  com calcário. Além destas vantagens comparativas, o sistema de produção de leite da fazenda foi totalmente projetado para o menor emprego possível de mão-de-obra, permitindo melhores resultados e diluição de custos fixos. O projeto engloba também um baixíssimo custo operacional, uma vez que, praticamente não se consome óleo diesel na propriedade nem se faz uso de tratores, máquinas e implementos. O controle de invasoras nas pastagens, por exemplo, de modo preventivo, é feito por meio de pulverizador costal. Quantas fazendas e projetos envolvendo áreas muito menores utilizam vários tratores e máquinas.

A Santa Thereza montou seu projeto efetivamente a pasto, com  uma clara influência neozelandesa. Ao contrário de muitos sistemas de produção que são caracterizados como sistemas de baixo custo por estarem centrados no pastejo, mas que operam com volumoso no período das águas e da seca, ou pelo menos na seca, a proposta em questão é diferente: 100%  a pasto o ano todo. Como suplementação, apenas uma fonte de energia, farelo de milho, para equilibrar a vasta oferta de proteína da forrageira e a imprescindível mineralização (forçada, misturada ao farelo). Muitos sistemas de produção de carne são estruturados com estes princípios, como por exemplo os programas de engorda nas águas e secas com uso de minerais protéicos-energéticos, conforme a necessidade. É óbvio que a quantidade veiculada de farelo no sistema é maior - 4 kg/cab/dia para o lote 1 e 3 kg/cab/dia para o lote 2.

Chama muito atenção a forma como os projetos estão integrados, com destaque para a suinocultura e o leite. Sem os suínos como seria a viabilização de tal empreendimento? São aspectos como este que precisam ser levados em consideração. Todos os envolvidos com pecuária e sistemas de produção a pasto sabem do “peso” e representatividade dos custos de fertilizantes e corretivos. Aliás, talvez esse seja “o maior” desafio da produção em regime de pastejo. Sem correção do solo e adubação não temos produtividade das forrageiras. Sem produtividade não temos lotação. Sem lotação não temos produção por área. Sem produção por área não temos baixo custo de produção. A Santa Thereza tem no “descarte” de um sistema a “solução” para outro. Tudo isso sem contarmos com a questão ambiental, cujo destino e aproveitamento dos dejetos é um grande exemplo de reciclagem de nutrientes.

Além dos aspectos produtivos mencionados, encontramos muitas particularidades na propriedade, herdadas da produção em sistemas integrados (aves e suínos), como o nível de ordem e organização nos nos moldes 5S:

1-) Senso de utilização,

2-) Senso de ordenação,

3- ) Senso de limpeza,

4- ) Senso de saúde e

5-) Senso de auto-disciplina

Esses conceitos são empregados do uniforme dos funcionários à limpeza, grau de conservação e ordem de cada instalação. Dá gosto visitar empresas organizadas dessa forma, e temos prazer ainda maior em saber que existem fazendas de leite assim, e no Brasil.

Alguns aspectos chamam a nossa atenção como o desafio de se produzir leite em larga escala, por meio da condução e manutenção de animais, exclusivamente a pasto, em 8 pivôs irrigados de 57 ha cada um. Cada pivô constituirá um módulo independente de produção com uma unidade de ordenha. Atualmente, há um gerente geral e um gerente responsável pela produção de leite no pivô em funcionamento. Com mais pivôs implantados, mesmo sendo um sistema projetado para ser conduzido por poucos funcionários, será necessário trabalhar e capacitar novas equipes, o que não deixa de ser um grande desafio.

A produção a pasto tem no uso de fertilizantes um dos maiores custos do sistema. Neste aspecto, por  trabalhar com adubação orgânica, exclusivamente, o projeto da Santa Thereza tem grande vantagem comparativa em relação a outros sistemas de pastejo que utilizam a adubação convencional. A fertirrigação é uma vantagem, mas por outro lado é um fator preocupante, levantando questões sobre como estes nutrientes se comportarão no solo ao longo do tempo, e aspectos de manejo como controle da lâmina aplicada e eventuais perdas por lixiviação.

O clima tropical é um dos maiores desafios para qualquer sistema de produção de leite no país. Temperaturas e umidade elevadas são fatores importantes e costumam afetar, de maneira incisiva, a produção das vacas, principalmente em fazendas que trabalham com animais de origem europeia. Tradicionalmente, em sistemas a pasto no Brasil,  encontramos  animais cruzados, com sangue zebu. Na Santa Thereza a opção foi pela raça Jersey, reconhecida pela capacidade de produção de sólidos, menor ingestão de matéria seca e maior rusticidade em comparação com vacas holandesas em regime a pasto. Na Nova Zelândia, temos exemplos bem sucedidos de produção de leite com a raça Jersey neste regime. Será interessante acompanharmos o desempenho e resposta da genética europeia  na latitude do projeto em andamento.

Em termos nutricionais, da forma como foi delineado o projeto, sabemos que o crescimento deverá ser regimentado pela capacidade de se trabalhar com altas lotações, para minimizar custos, priorizando a produção por área, em detrimento a produção individual. Tecnicamente, sabemos que a produção de leite está ligada à ingestão de matéria seca, e que há limitações em sistemas com grande participação de fibra na composição final do alimento fornecido diariamente para vacas em produção. Trabalhos clássicos, publicados em importantes periódicos, apontam para o teor de FDN (fibra em detergente neutro) de forragens como importante limitador de consumo, razão pela qual muitos sistemas de produção de leite são caracterizados como “mistos”, suplementando não somente com alimentos concentrados, mas também com forrageiras conservadas, mesmo que em pequenas quantidades, durante o ano todo. Na Santa Thereza, a produção é focada em custo baixo e o pasto é, de fato, a maior riqueza do sistema.

É importante esclarecer que o projeto da Santa Thereza está sendo estruturado, motivo pelo qual seu plano de expansão é modular. Os números e indicadores financeiros estão inflacionados devido à elevada proporção de animais não produtivos como recria e vacas secas, perfazendo atualmente 28% do rebanho, em relação às vacas em lactação, que compõem 31% do rebanho. De um total de 1.250 cabeças, presentes atualmente na fazenda, a maior fração é composta por bezerras e novilhas, que respondem por 36% ou 455 animais. Em outras palavras, em termos de estrutura, o rebanho ainda não está equilibrado e, certamente, em uma situação de melhor distribuição e maior porcentagem de vacas produzindo, seu custo de produção deverá cair significativamente.

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