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Genética

A Raça Holandesa carrega em sua história a base de uma revolução leiteira que atravessa gerações

A raça Holandesa carrega, em seu percurso, a base de uma revolução leiteira que atravessa séculos, climas e gerações

A Raça Holandesa carrega em sua história a base de uma revolução leiteira que atravessa gerações

Falar sobre a raça Holandesa no Brasil é abrir uma janela para o tempo. De acordo com registros históricos da Associação Brasileira dos Criadores de Bovinos da Raça Holandesa (ABCBRH), os primeiros animais da raça chegaram ao país entre 1530 e 1535. Ainda sem a estrutura técnica e institucional que se consolidaria séculos depois, o rebanho europeu começava ali a escrever, com os colonizadores, os primeiros capítulos da pecuária leiteira brasileira. 

No entanto, foi no século XX, especialmente com a chegada de imigrantes holandeses após a Segunda Guerra Mundial, que essa história ganhou contornos mais profundos. Famílias inteiras cruzaram o oceano em busca de um recomeço. Entre elas, a do produtor e atual presidente da ABCBRH, Armando Rabbers. “O meu pai chegou ao Brasil em 1951, vindo da Holanda, desembarcou em Santos/SP e de lá veio para o Paraná, trazendo consigo vacas da raça e toda a coragem de quem começa uma vida do zero”, relata. 

Esses imigrantes não conheciam o idioma, o clima, as doenças locais. Perderam animais para intoxicações por pastagens nativas e tiveram que aprender, pela convivência, quais práticas funcionavam. “Imagina a força dessas pessoas. Eram técnicos da vida real. E o amor pelos animais era parte do que os mantinha em pé”, conta Armando. 

Emociona perceber que, junto com os animais, veio também um modo de vida, uma ética do cuidado e da cooperação. A formação da cooperativa Castrolanda, por exemplo, começou ainda na Holanda, antes da partida, e foi organizada em ondas migratórias planejadas: primeiro vinham algumas famílias, que preparavam a chegada das próximas. 

A raça Holandesa é também a expressão de uma cultura que valoriza a organização, a excelência produtiva e a solidariedade entre produtores. E essa força, que atravessou oceanos e gerações, ainda hoje sustenta o protagonismo da raça no país.


Memória viva: famílias como a de Armando Rabbers cruzaram o Atlântico com coragem, trazendo algumas vacas da raça Holandesa. Na foto, desembarque do rebanho no porto de Santos/SP, em 1952 


Uma raça em todos os mapas 

A raça Holandesa não habita apenas os estereótipos da pecuária de clima ameno e altitude elevada. Hoje, sua presença se espalha por todas as regiões do país. Com investimentos adequados em nutrição, conforto térmico e gestão, a raça vem provando sua impressionante capacidade de adaptação a diferentes sistemas e realidades. “No Nordeste, por exemplo, tem produtor criando animais da raça Holandesa com palma e milho; e os resultados técnicos são de alto nível”, afirma Armando. “A raça se adapta porque quem está por trás dela sabe o que está fazendo: ajusta alimentação, estrutura, genética e manejo com base na realidade local.”

Em sistemas confinados, em que o controle ambiental e nutricional é mais preciso, a raça expressa com plenitude seu potencial genético; e responde com produtividade, longevidade e sanidade. 

A chave para essa performance está na personalização. Não se trata de impor um modelo único, mas de construir um sistema adaptado às características climáticas, ao perfil alimentar da região e, sobretudo, aos objetivos do produtor. 

“Não adianta querer aplicar a mesma lógica da aveia forrageira do Paraná em uma propriedade do semiárido. Cada local exige sua engenharia produtiva”, explica Armando. A raça Holandesa ocupa, hoje, posição estratégica no mapa da pecuária leiteira nacional: onde há tecnologia, há espaço para ela. E, à medida que o país avança na tecnificação da produção, tende a se expandir ainda mais. Não apenas em território, mas em protagonismo.



Eficiência, genética e evolução constante 

Não há dúvida: quando se trata de eficiência produtiva, a raça Holandesa ocupa o topo da pirâmide. Reconhecida mundialmente por sua capacidade de transformar alimento em leite, a raça combina volume, longevidade, conformação funcional e avanços genéticos que se renovam a cada geração. E o que já era excelência continua melhorando.

“A Holandesa é, sem dúvida, a raça que mais produz leite no mundo. E também a que mais evolui tecnicamente”, ressalta Armando. Os dados confirmam: há vacas no Brasil com produção vitalícia acima de 180 mil litros; e lotes com médias diárias que ultrapassam os 60 kg de leite por vaca. Desempenho que, até poucos anos atrás, parecia restrito a casos isolados em países como Estados Unidos ou Holanda. 

Ao contrário do que por muito tempo se afirmou, os sólidos também acompanham esse avanço. Em diversas propriedades, já se registram teores de gordura acima de 4% e de proteína superior a 3,6%, resultado de anos de seleção genética criteriosa e estratégias nutricionais avançadas. “Aquele velho argumento de que a Holandesa produz muito, mas com baixo teor de sólidos, já não se sustenta”, reforça o presidente da associação. 

Além da produção, os critérios de avaliação funcional têm ganhado protagonismo. Estrutura de úbere, conformação de pernas e garupa, ângulo de casco, força leiteira e capacidade corporal são alguns dos itens avaliados nos programas oficiais de classificação – ferramentas essenciais para melhorar longevidade e desempenho funcional do rebanho. Esses dados, coletados pelas filiadas e sistematizados pela associação, alimentam a base nacional de informações e sustentam programas como o Índice de Seleção Genética e Genômica da raça Holandesa, desenvolvido em parceria com a Embrapa. 

A inteligência por trás da raça está na seleção bem-orientada, nos dados confiáveis e no manejo ajustado. E é exatamente essa tríade que tem permitido à Holandesa expressar, com cada vez mais precisão, o que ela tem de melhor: produtividade com consistência genética e estrutura funcional duradoura.


OS DADOS CONFIRMAM: HÁ VACAS NO BRASIL COM PRODUÇÃO VITALÍCIA ACIMA DE 180 MIL LITROS; E LOTES COM MÉDIAS DIÁRIAS QUE ULTRAPASSAM OS 60 KG DE LEITE POR VACA. DESEMPENHO QUE, ATÉ POUCOS ANOS ATRÁS, PARECIA RESTRITO A CASOS ISOLADOS EM PAÍSES COMO ESTADOS UNIDOS OU HOLANDA  


 


Funcionalidade com estética: a avaliação morfológica da raça considera critérios que impactam diretamente a produtividade e a longevidade das vacas 




A base da pecuária leiteira moderna 

Símbolo de produtividade, a raça Holandesa se consolidou como pilar estratégico da cadeia leiteira no Brasil. Sua presença é decisiva não apenas em sistemas especializados de alta tecnologia, mas também na construção de rebanhos cruzados – como o Girolando – que hoje sustentam grande parte da produção nacional. Sua genética é a base sobre a qual se edifica uma pecuária de alta performance. 

“É a raça que mais produz leite no mundo”, afirma Armando. Essa frase traduz a convicção de quem conhece os bastidores do melhoramento genético, os desafios de gestão no campo e o valor de cada litro produzido. Ao lado do volume, caminham a qualidade do leite, o avanço nos sólidos, a longevidade produtiva e a adaptabilidade a diferentes sistemas. 

A raça moldou estruturas cooperativas, impulsionou a criação de centros técnicos e redes de assistência, formou profissionais, transformou regiões inteiras. Sua presença organizou a lógica da tecnificação da pecuária leiteira no Brasil. Uma pecuária que, cada vez mais, exige eficiência, precisão e profissionalismo. 

Com a expansão do uso de dados, o fortalecimento dos programas de seleção e a integração entre os núcleos regionais e a associação nacional, a raça Holandesa avança em números e em solidez institucional. E carrega consigo um valor que transcende a técnica: o de representar gerações de produtores que acreditam, trabalham e constroem, dia após dia, o futuro do leite no Brasil.



Força que impressiona: algumas vacas da raça Holandesa no Brasil ultrapassam os 180 mil litros ao longo da vida – um legado de genética e manejo de excelência 


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Autor

Adriana Vieira Ferreira

Adriana Vieira Ferreira

EDITORA EXECUTIVA
Economista, DSc. em Economia Rural


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