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Nutrição

Utilização de co-produtos na alimentação de vacas leiteiras

Utilização de co-produtos na alimentação de vacas leiteiras

Texto: Flávio A. P. Santos

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O interesse crescente pela inclusão de co-produtos nas dietas deve-se principalmente à elevação expressiva do preço do milho nos últimos anos. A utilização de co-produtos alternativos permite baixar o custo da alimentação de vacas leiteiras sem prejuízo à produção de leite, quando a inclusão na dieta é feita de forma técnica.

1. Introdução

A inclusão de co-produtos nas dietas de vacas leiteiras tem dois objetivos principais: a) baixar os custos de alimentação, mantendo desempenho satisfatório e b)  reduzir o teor de amido das dietas ricas em grãos de cereais, com concomitante aumento nos teores de fibra, o que contribui para melhoria do ambiente ruminal e elevação do teor de gordura do leite.

Os grãos de cereais, em especial o milho, representam a principal fonte de energia em concentrados fornecidos para vacas leiteiras. Entretanto, além desse fato, vacas de alta produção de leite, quando alimentadas com dietas contendo silagem de milho, como volumoso principal, milho e farelo de soja - que apresentam teores de amido superiores a 30% da MS – possuem maior risco de desenvolver acidose o que, normalmente, resulta em produção de leite com baixo teor de gordura.

Diversos co-produtos ricos em energia são utilizados pelos produtores brasileiros como alimentos alternativos ao milho em dietas de vacas leiteiras. Dentre eles, destacam-se a polpa cítrica, a casca de soja, o farelo de trigo e o farelo proteinoso de milho (conhecido comercialmente como Refinazil e Promill). Na Tabela 1 são apresentados os dados de composição química do milho e dos co-produtos mencionados. 

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O valor de NDT de 88,7% (NRC, 2001) para o milho não se aplica ao milho duro utilizado no Brasil, pois, em virtude da menor digestibilidade do amido dos cultivares de milho duro em comparação com o milho dentado utilizado nos Estados Unidos, o valor energético do nosso milho é menor. Isso o coloca em uma posição mais próxima dos co-produtos apresentados na Tabela 1 e aumenta a viabilidade de inclusão nas dietas.

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2. Polpa Cítrica

A polpa cítrica é um subproduto da fabricação de suco concentrado, principalmente de laranja e em menor escala de limão, pela indústria citrícola, obtida após duas prensagens dos frutos, que reduzem sua umidade em 65-75%. Posteriormente, o material é seco a 100-116ºC até que se atinja um teor de MS ao redor de 88-90% e, então, é peletizado. O resultado final é um subproduto constituído de cascas, sementes, bagaço e frutas descartadas.

Ao contrário dos grãos de cereais, como o milho, que são ricos em amido, a polpa cítrica se caracteriza por praticamente não conter amido, porém é rica em açúcares, pectina e fibra de alta digestibilidade. O teor de proteína bruta e de fósforo também são inferiores na polpa em relação aos cereais.

Desta forma, quando a polpa cítrica é usada em substituição parcial ou total do milho, há necessidade de inclusão extra de suplemento protéico e mineral com maiores teores de fósforo. Também é recomendável aumentar o teor de zinco, uma vez que pode ocorrer redução na absorção deste micromineral em virtude do alto teor de cálcio da polpa.

Nas Tabelas 2, 3 e 4 são sumarizados alguns trabalhos realizados no Brasil, que avaliaram a substituição parcial do milho (50%) por polpa cítrica peletizada na dieta total de vacas leiteiras, mantidas em confinamento com silagem de milho, ou em pastagens tropicais.

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Para vacas com produções de até 22 kg de leite/dia, a substituição de 50% do milho por polpa cítrica não afetou o desempenho dos animais. Para vacas mantidas em pastagens tropicais, com produções de até 19 kg de leite/dia, a substituição de 75% do milho pelo co-produto não afetou a produção e composição do leite. Em alguns trabalhos, com vacas produzindo acima de 28 kg de leite/dia, houve redução na produção quando a polpa substituiu 50% do milho na dieta (20% de amido na dieta total). Isso ocorre, normalmente, em virtude da redução no consumo de matéria seca da vaca. Entretanto, em um estudo no qual a polpa substituiu 25% do milho, resultando em 26% de amido na dieta total, a produção de leite foi superior à das vacas alimentadas com dieta exclusiva com milho (32% de amido na ração total). Os teores de gordura podem ser aumentados com a inclusão de polpa, quando estes se apresentam baixos nas dietas com milho, entretanto, esta inclusão pode reduzir levemente os teores de proteína bruta.

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3. Casca de Soja

O processamento da soja, com o objetivo de se extrair o óleo, gera 2 subprodutos de grande importância na alimentação de bovinos, o farelo de soja e a casca de soja. Cada tonelada de soja moída para a extração do óleo gera em média 183 kg de óleo, 733 kg de farelo 48% e 50 kg de casca (5%). Entretanto, o farelo de soja com 44% de PB na matéria natural, mais comum no Brasil, contem maior teor de casca, sobrando menor quantidade deste co-produto para a comercialização como tal.             .

A casca de soja é composta principalmente de fibra, tendo pouco valor na alimentação humana e no uso industrial. No entanto, suas características fisico-químicas, sua facilidade de aquisição em algumas regiões e seu preço competitivo fazem da casca de soja um alimento interessante para o gado leiteiro. Em adição ao potencial de ser uma alternativa econômica, a substituição de grãos de cereais por casca de soja, em dietas para vacas leiteiras, pode contribuir para um ambiente ruminal mais favorável para a digestão de fibra e menor risco de acidose.

A casca de soja contém entre 60 a 66% de FDN, porém esta fibra é muito pouco lignificada, conferindo-lhe alta digestibilidade. O teor de amido é baixo, entre 0 a 9,4% (média de 3,6%), e os teores médios de pectina têm se situado em torno de 12,8% da MS. O teor de proteína bruta da casca é pouco superior ao do milho, entre 10,7 a 13,9% da MS.

Pesquisadores americanos revisaram 15 estudos com vacas confinadas de alta produção e relataram que, de modo geral, a substituição parcial do milho por casca de soja não afetou o consumo de MS, a produção de leite e o teor de gordura do leite. Entretanto, há diversos trabalhos onde foi observada redução no teor de proteína do leite com a substituição parcial do milho por este produto.

Dois estudos foram conduzidos no Departamento de Zootecnia da ESALQ/USP para estudar a substituição do milho por casca de soja, tanto para vacas alimentadas com silagem de milho como para vacas mantidas em pastagens tropicais.

No estudo com silagem de milho, a ração controle  continha milho e polpa cítrica em partes iguais (MP). O milho foi substituído por casca de soja em 50% (MPCS) ou 100% (PCS) na dieta (Tabela 5).

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A substituição parcial (50%) ou total do milho moído fino por casca de soja não afetou o CMS nem a produção e composição de leite.

No estudo com vacas em pastagens, o milho foi substituído por casca de soja no concentrado em 0, 25, 50 e 75% sem efeito negativo na produção e composição do leite (Tabela 6).

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Em virtude do menor custo da casca de soja em relação ao milho, a substituição parcial do mesmo pela casca de soja, para vacas alimentadas com silagem de milho ou com pastagens tropicais, permite reduzir o custo da alimentação sem grandes alterações na produção e composição do leite, quando os teores de amido da dieta são mantidos entre 20 a 25% da MS.

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4. Farelo proteinoso milho (Refinazil ou Promill)

O farelo proteinoso de milho (FPM), conhecido comercialmente no Brasil por Refinazil e Promill, é um co-produto do processamento industrial do milho para a produção de amido e adoçantes. Tecnicamente, é o que sobra do grão de milho após a extração da maior parte do amido, glúten e germe, pelos processos de moagem e separação empregados na produção de amido e xarope de milho, sendo 2/3 de conteúdo fibroso e 1/3 de licor concentrado de maceração. O rendimento na produção deste co-produto é estimado em 11% do material original que chega na indústria.

O FPM contém, em média, 23 a 24% de proteína bruta na MS, 36 a 44% de FDN de alta digestibilidade, 5 a 20% de amido, e é rico em fósforo. Quando incluído na ração de vacas leiteiras, permite substituir parte do suplemento energético (milho) e parte do suplemento protéico (farelo de soja) da ração. Em média, cada kg deste co-produto pode substituir 1 kg da mistura contendo 0,7 kg de milho e 0,3 kg de farelo de soja. A recomendação geral tem sido incluí-lo em, no máximo, 20% da MS da dieta total de vacas leiteiras.

Em 5 estudos conduzidos fora do Brasil, nos quais o farelo proteinoso de milho foi incluído em concentrações entre 10 a 40% da MS das dietas totais,  o consumo de MS (CMS) não foi afetado em 3  estudos, foi aumentado em 1 e reduzido em 1. A produção de leite corrigida para gordura não foi alterada em 2, aumentou em 2 e diminuiu em 1 estudo. O efeito negativo desse co-produto tanto no CMS quanto na produção de leite, ocorreu com doses altas de inclusão na dieta, ou seja, 40% da MS.

Um trabalho sobre fornecimento de farelo proteinoso de milho foi conduzido no Departamento de Zootecnia da ESALQ com vacas alimentadas com silagem de milho (Tabela 7). As dietas continham partes iguais de polpa cítrica e milho como concentrados energéticos. O milho foi substituído em 50% ou 100% pelo FPM, o teor de polpa cítrica foi mantido constante e o teor de uréia foi reduzido nas rações com a inclusão do co-produto. A produção de leite foi levemente reduzida pela inclusão de FPM na dieta, com aumento no teor de gordura e queda no teor de proteína.

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5. Farelo de Trigo

Da produção da farinha de trigo para consumo humano resulta o co-produto farelo de trigo. De cada tonelada de trigo processado, 70 a 75% é convertida em farinha, e o restante, 25 a 30%, é transformada em farelo de trigo.

O farelo de trigo contém normalmente 17 a 18% de proteína bruta (PB), 35 a 43% de FDN, 23 a 25% de amido, 70 a 80% de NDT na MS e concentra quase a totalidade dos minerais e vitaminas dos grãos, com teores relativamente constantes.

A literatura é carente em dados de comparação do farelo de trigo com outras fonte energéticas, especialmente o milho, apesar deste co-produto ser comumente  usado como fonte de energia e proteína em concentrados comerciais para vacas em lactação.

Em alguns trabalhos conduzidos no exterior, a substituição de até 45% do milho por farelo de trigo não teve efeito negativo na produção de leite.

Dois estudos foram conduzidos no Departamento de Zootecnia da ESALQ\USP, com o objetivo de avaliar a substituição parcial ou total do milho por farelo de trigo, para vacas alimentadas com silagem de milho (Tabela 8) ou mantidas em pastagens (Tabela 9).

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Para vacas produzindo ao redor de 30 kg de leite, alimentadas com silagem de milho, a substituição de 50% do milho por farelo de trigo aumentou o consumo de MS sem alterar a produção e composição do leite, piorando a eficiência alimentar. A substituição de 100% do milho aumentou o consumo e MS e reduziu a produção de leite e o teor de proteína do leite.

Para vacas mantidas em pastagens, produzindo ao redor de 19,6 kg/d de leite, a substituição de até 50% do milho por farelo de trigo não afetou a produção e composição do leite. Já a substituição de 75% do milho por farelo de trigo reduziu a produção de leite e aumentou o teor de uréia do leite.

 

6. Considerações finais

A utilização de co-produtos alternativos ao milho permite baixar o custo da alimentação de vacas leiteiras sem prejuízo à produção de leite, quando a inclusão na dieta é feita de forma técnica.

Vacas mantidas em pastagens toleram maiores níveis de substituição do milho por co-produtos que vacas confinadas, em virtude da menor produção de leite. Em geral, substituir 50% do milho e, em alguns casos, até 75% pelos co-produtos acima discutidos, não afeta negativamente o desempenho de vacas com produções de até 20 kg de leite/dia.

Para vacas confinadas, com produções acima de 30 kg de leite/dia, alimentadas com dietas contendo teores excessivos de amido, a substituição parcial do milho pelos co-produtos acima discutidos, visando manter teores de amido da dieta ao redor de 25% da matéria seca, pode melhorar a produção de leite e o teor de gordura do mesmo, além de reduzir os riscos de acidose ruminal.

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