Você sabe o que é um Compost Barn?

Manejo | 01 de Dezembro de 2012 Voltar

Texto: Camila Silano, Marcos Veiga dos Santos

Recentemente, na última década, alguns produtores de leite dos Estados Unidos iniciaram o uso de um novo sistema de confinamento chamado “compost barn” (estábulo com compostagem). O “compost barn” é um sistema de confinamento alternativo do conhecido sistema “loose housing”, que visa primeiramente melhorar o conforto e bem-estar dos animais e, consequentemente melhorar os índices de produtividade do rebanho.

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Introdução

A escolha das instalações utilizadas para alojamento de vacas leiteiras deve ser realizada levando-se em consideração diversos fatores, dentre os quais destacam-se: nível de intensificação desejado, potencial genético do rebanho, disponibilidade de capital, disponibilidade e capacidade de produção de alimentos e custo da terra. Todos estes fatores devem ser avaliados, pois podem afetar diretamente a produtividade e sanidade do rebanho, qualidade do leite, bem-estar animal e a rentabilidade da fazenda.

No Brasil, existe uma grande diversidade de sistemas de produção de leite, desde aqueles baseados em pastagem (extensivos ou intensivos) até os sistemas confinados, dentre os quais os mais utilizados são do tipo “free-stalls” e sistema de piquetes (loose housing). Recentemente, na última década, alguns produtores de leite dos Estados Unidos iniciaram o uso de um novo sistema de confinamento chamado “compost barn” (estábulo com compostagem). O “compost barn” é um sistema de confinamento alternativo do conhecido sistema “loose housing”, que visa primeiramente melhorar o conforto e bem-estar dos animais e, consequentemente, melhorar os índices de produtividade do rebanho.

O sistema

Esse sistema é composto basicamente por uma grande área de cama comum (área de descanso), normalmente formada por maravalha ou serragem, separada do corredor de alimentação ou cocho por um beiral de concreto. O diferencial deste sistema é a compostagem que ocorre ao longo do tempo com o material da cama e a matéria orgânica dos dejetos dos animais.

O processo de compostagem consiste em produzir dióxido de carbono (CO2), água e calor a partir da fermentação aeróbia da matéria orgânica. No compost barn, as fezes e urina das vacas fornecem os nutrientes essenciais (carbono, nitrogênio, água e microrganismos) necessários para que ocorra o processo de compostagem. O oxigênio usado na compostagem é proveniente da aeração diária que deve ser realizada na cama. O sucesso do processo de compostagem depende da manutenção de níveis adequados de oxigênio, água, temperatura, quantidade de matéria orgânica e atividade dos microrganismos, que produzem calor suficiente para secar o material e reduzir a população de microrganismos patogênicos. Para que esse processo ocorra, a temperatura deve variar de 54 a 65?C, a 30 cm da superfície da cama.

No Brasil, o compost barn ainda é pouco utilizado, porém, nos Estados Unidos, este sistema vem ganhando espaço em alguns estados produtores de leite. Um estudo desenvolvido pela Universidade de Minnesota, avaliou o compost barn quanto ao conforto e longevidade dos animais. Foram acompanhadas doze fazendas leiteiras que adotavam o sistema com o objetivo principal de proporcionar conforto aos animais, aumentar a longevidade das vacas e melhorar a facilidade de manejo que está associada a este sistema. Os resultados deste estudo indicaram alguns pontos interessantes em relação ao conforto e ao impacto em produtividade e longevidade:

• Redução de problemas de casco - comparado aos sistemas tipo free-stall, no compost barn, as vacas têm mais espaço, o que permite maior liberdade de movimento, tanto para se locomover quanto para deitar. Além disso, mesmo quando em pé, as vacas permanecem sobre uma superfície mais macia que no concreto. O estudo realizado no estado de Minnesota demonstrou uma porcentagem de 7,8% de vacas com problemas de casco em propriedades com compost barn, contra 19,6 a 27,8% em propriedades com free-stall.

• Melhores índices reprodutivos - com a melhoria na sanidade dos cascos, as vacas apresentaram maior facilidade de manifestação de estros, melhorando a taxa de detecção de cio pelos tratadores de 36,9% para 41,4%, e as taxas de concepção de 13,2% para 16,5%, quando as vacas foram deslocadas do free-stall para o compost barn.

• Melhoria da qualidade do leite - redução da CCS e menor incidência de mastite. Esse fato pode ser explicado tanto pela redução da incidência de mastite ambiental, pela redução da carga microbiana na cama e melhoria da condição de higiene das vacas antes da ordenha, quanto pelo melhor funcionamento do sistema imune das vacas promovido pelo ambiente mais confortável.

• Redução no acúmulo e descarte de dejetos - redução na mão de obra e custos para armazenamento, em comparação com sistemas de free-stall.

Alguns produtores relataram ainda que um grande incentivo para o uso do sistema é o seu baixo custo inicial de investimento, quando comparado aos custos de construção de um galpão tipo free-stall.

 

Fazenda Santa Andrea: Uma experiência pioneira na utlização do “Compost Barn” no Brasil

A Santa Andrea Agropecuária é um dos criatórios mais tradicionais de Gado Simental Leiteiro do país, com 40 anos de seleção da linhagem Simental Fleckvieh (as primeiras vacas foram importadas da Alemanha em 1972).

Atualmente conta com 220 vacas em lactação, com média de produção de 27 litros/vaca/dia.

O sistema de “Compost Barn” foi adotado a partir de março de 2012. A opção por esse sistema baseou-se na expectativa de se adotar um modelo de alojamento para vacas em lactação que tivesse um custo de implantação mais baixo do que o Free-Stall, que fosse plenamente satisfatório para os animais e que pudesse ser construído de forma rápida, uma vez que os animais eram, até então, manejados em sistema de piquetes com cocho coberto. Dessa forma, considerando que a literatura sobre esse sistema já era relativamente abundante e que as informações eram bastante positivas optou-se pela construção de um barracão de compost barn experimental para 50 vacas. Esse barracão entrou em operação no início de março de 2012.

Dado o sucesso dessa primeira experiência, 60 dias mais tarde iniciou-se a construção do segundo Compost Barn para mais 50 animais.

Atualmente, a fazenda conta com 3 Compost Barn para 50 vacas em lactação cada um, um para 25 vacas pré-parto, e está em fase adiantada a construção de mais um para 100 vacas em lactação.

O projeto futuro da Santa Andrea prevê a construção de barracões de Compost Barn para alojar todo o rebanho projetado para 1.000 vacas em lactação até o ano de 2015, incluindo os animais jovens e vacas secas.

Os resultados até agora têm sido excelentes e toda a equipe técnica e operacional da fazenda está plenamente satisfeita.

Os benefícios práticos que vimos até agora:

* Conforto animal excelente

* Custo significativamente mais baixo que o Free-Stall

* CCS apresentou pequena redução (ainda não podemos afirmar que foi efeito do Compost Barn)

* Média de produção de leite aumentou de forma significativa, comparada ao sistema anterior de piquete com cocho coberto.

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Algumas recomendações importantes que estamos adotando na Santa Andrea:

• Área por animal: estamos utilizando 10 m2/vaca. Consideramos  que esse é o limite mínimo de área. As recomendações de Israel (20 m2/vaca) são excessivas no nosso ponto de vista.

• Manejo da cama: deve-se prestar atenção na proporção carbono:nitrogênio, adicionando uma fina camada de silagem sempre que a cama “parar de esquentar”. O segredo, definitivamente, é a cama manter-se constantemente quente, o que é um indicador de que está ocorrendo a fermentação aeróbica do material.

• Altura da cama: já experimentamos 3 alturas, desde uma com base de areia de 10 cm mais 40 cm de serragem, até uma mais simples, com apenas 30 cm de serragem direto sobre o solo escavado. Baseando-se nessas experiências julgamos que a cama deve ser ainda mais rasa. Faremos uma experiência com apenas 20 cm de cama direto sobre o solo escavado. Julgamos que o sistema vai funcionar melhor com uma cama mais rasa, mas com uma reposição de uma fina camada mais frequente, a cada 15 dias.

• Revolvimento: fazer no mínimo 2 vezes ao dia. Nós fazemos 3 vezes ao dia com uma enxada rotativa. O ideal é fazer no momento em que as vacas estão na ordenha, mas pode-se fazer com as mesmas dentro do barracão. Nesse caso, o tratorista precisa ser cuidadoso. As vacas se acostumam facilmente com esse manejo.

• Ventilação: é importante que haja uma ventilação adequada, com uso de ventiladores sobre a cama tanto para o conforto térmico das vacas quanto para auxiliar na remoção da umidade da cama.


Troca da cama: fizemos a primeira troca da cama (da metade superior da mesma) depois de 7 meses do início de uso. Entendemos que é possível manter por um ano se for feito o manejo correto, com reposição de uma fina camada a cada 15 dias para adicionar carbono, uso contínuo de ventiladores para diminuir a umidade e revolvimento adequado pelo menos 2 vezes ao dia.

• Manejo dos dejetos: é muito mais simples do que em outros sistemas. Basicamente, é preciso manejar os dejetos do corredor de alimentação que, no nosso caso, é concretado. Estudos apontam que no corredor de alimentação acumula-se cerca de 25% dos dejetos dos animais . Assim, a cama do compost barn equaciona 75% do “problema”.

• Custo da cama (serragem): varia muito regionalmente, e é um elemento decisivo para a adoção do sistema. Pode-se considerar outros eventuais materiais para cama como casca de amendoim ou de arroz, mas não temos experiência com esses materiais.

• Custo do sistema instalado: utilizamos um modelo bem simples e econômico de barracão, com o uso de toras de eucalipto em em alguns deles, o que resultou em um custo aproximado de R$ 2 mil/vaca instalada.

• Composto orgânico gerado: trata-se de um adubo de excelente qualidade. Eventualmente pode tornar-se uma fonte adicional de renda com a venda do mesmo para viveiros de mudas ou para produtores de hortifruti.