“Vem chegando o verão...”

Manejo | 31 de Janeiro de 2020 Voltar

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Adriano Seddon

 

E agora, José? O dia esquentou, o leite caiu, o dinheiro acabou. Enquanto você lê essa edição, o valor do seu leite caiu consideravelmente em relação a agosto ou setembro, o fluxo de caixa está muito apertado e ainda precisa arcar com os custos dos insumos da silagem.

Produzir leite é um ciclo, e como em todo ciclo, os processos estão ligados e se repetem sucessivamente. Neste país tropical, abençoado por Deus e onde tudo que se planta dá, temos um verão quente e com chuvas abundantes, que nos garante safras recordes ano após ano.

Porém, cobra seu preço na produção de leite. Falamos há décadas sobre a profissionalização do setor leiteiro, o ganho de escala e o achatamento das margens de lucro. Esses problemas são todos reais, e que não podem ser resolvidos sem uma mudança de atitude. Planejar a batalha e conhecer o inimigo é como ter a metade da guerra ganha. Mas, se o problema é o mesmo todo ano, por que não tomamos uma atitude definitiva?

Ao conversar com colegas de outras áreas dentro do setor leiteiro podemos perceber que a história se repete: se o produtor tem que plantar a silagem de milho em outubro, por que só escolhe a semente e compra o adubo no dia em que começou a chover?

 

QUANTO DINHEIRO PERDEMOS COM O ESTRESSE TÉRMICO?

Por meio de levantamentos de dados em diversas regiões do Brasil e levando em conta a produção de fazendas profissionais, chegamos aos seguintes resultados: em média, nossas vacas perdem entre 1.500 e 2.000 litros de leite por ano. Isso representa uma perda de R$ 2.250,00 a R$ 3.000,00 por vaca/ano, montante que certamente compõe uma fatia elevada da margem de lucro da propriedade.

A Tabela 1 mostra o aumento da margem líquida por faixa de ganho de produção. Nas regiões mais centrais do Brasil, o ganho será entre 15 e 20%. A tabela também mostra o custo de se usar o resfriamento de forma ineficiente e não obter resultados.

 

 

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ONDE ESTÃO AS MAIORES PERDAS?

As perdas econômicas estão ligadas à perda de produção, a quedas na eficiência alimentar e reprodutiva e à sanidade dos animais. A queda da ingestão de matéria seca e eficiência alimentar são dois problemas graves que, associados, geram as maiores perdas econômicas, conforme Gráfico 1.

 

 

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Já o quadro abaixo refere-se à eficiência alimentar de fêmeas sob estresse térmico ou em condições normais. Pode-se observar uma perda significativa da eficiência de produção vs. ingestão de matéria seca quando não tomamos os cuidados necessários.

 

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EM MÉDIA, NOSSAS VACAS PERDEM ENTRE 1.500 E 2.000 LITROS DE LEITE POR ANO DEVIDO AO ESTRESSE TÉRMICO

 

PRINCIPAIS ESTRATÉGIAS PARA REDUZIR O ESTRESSE TÉRMICO

Com o intuito de aumentar o conforto dos animais e a fi m de assegurar a máxima efi ciência produtiva devemos nos atentar a cinco pilares quando falamos em resfriamento de sucesso:

 

 

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1) SOMBRA

O impacto do estresse térmico está relacionado à produção de leite: quanto maior a produção, maior o incremento calórico e maior a quantidade de calor que o animal precisa perder para o ambiente.

Uma vaca seca produz calor igual a nove lâmpadas de 100W. E para cada 4,5 litros de leite que ela produzir são agregados mais 100W. Dessa forma, uma vaca com média de 45 L/dia produz o calor de 19 lâmpadas ou 1.900W. Se a mesma vaca estiver sob o sol, há ainda um acréscimo de 16 lâmpadas, chegando a 3.500 W. Com essa informação, concluímos que a primeira coisa que devemos fazer a fi m de abrandar o estresse térmico é tirar a vaca do sol. Dados da literatura mostram que a simples oferta de sombra pode aumentar a produção entre 1,8 e 4,1 kg/vaca/dia.

Prover sombra para as vacas pode ser feito em qualquer sistema, tanto com o uso de sombrites em sistemas a pasto e semiconfinamento como em sistemas de confinamento.

Materiais naturais, como folhas de buriti, podem ser utilizados. Quanto ao tipo de sombra, as sólidas são sempre mais indicadas.

A Tabela 2 mostra dados de um trabalho no qual foram relacionados a posição do barracão e a frequência respiratória. Esta última é altamente correlacionada com a temperatura retal dos animais. Barracões construídos no sentido leste-oeste proporcionam maior área de sombra. Barracões norte-sul, por sua vez, permitem alta entrada de sol. Como mostra a tabela, vacas alojadas em barracões norte-sul apresentam maior estresse térmico.

 

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2) ÁGUA

Uma vaca de alta produção, quando em estresse térmico, pode beber quase 200 litros de água por dia. Desta forma, a disponibilidade e a qualidade da água devem ser uma preocupação de primeira ordem. Cada vaca deve ter por volta de 9 centímetros lineares de lâmina d’água, e cada bebedouro não deve servir mais de 20 animais. Além disso, a qualidade da água ofertada deve ser alta.

Uma pergunta recorrente é sobre o gasto de água no sistema de resfriamento: ao se resfriar as vacas, iremos aumentar o gasto de água? Pensando nesse ponto, um grupo de pesquisadores israelenses comparou o consumo de água entre um grupo de vacas resfriadas e outro sob estresse térmico.

Surpreendentemente, o consumo foi o mesmo: vacas sob estresse térmico ingeriram uma quantidade maior de água, mas esse volume foi o mesmo necessário para resfriar os animais e impedir que entrassem em estresse térmico. Isso quer dizer que não devemos nos preocupar com o volume de água que iremos gastar para resfriar as vacas, pois o que economizarmos em água para o resfriamento será gasto posteriormente pelo consumo excessivo dos animais em estresse.

O resfriamento direto baseia-se no fato de evaporar a água que foi aspergida sobre a vaca, uma vez que o simples ato de molhar a vaca não leva a uma queda de temperatura adequada. Dessa maneira, devemos colocar aspersores em grande quantidade e de alto volume, de maneira que as vacas sejam molhadas o mais rápido possível. É importante que o volume de água seja o sufi ciente para que todas as fêmeas sejam encharcadas.

 

3) VENTO

Talvez essa seja uma das questões mais controversas, uma vez que envolve ventiladores e existem diversos fornecedores. A velocidade mínima de vento sobre as vacas deve ser de 3,5 m/s. Essa velocidade deve ser medida com as vacas no local do resfriamento e com o anemômetro próximo ao animal. O vento deve impactar sobre a pele do animal na maior área possível.

O vento natural, por outro lado, é um grande vilão. Na maioria das regiões do Brasil, o vento relativo muda de posição várias vezes ao dia. Por essa razão, para que a ventilação mecânica seja efetiva, é necessário o uso de cortinas nas salas de resfriamento ou na linha de cocho.

 

4) TEMPO DE RESFRIAMENTO

Em um trabalho realizado por Brouk et al. (2005), foram comparados diferentes tratamentos de resfriamento: vacas não resfriadas, resfriadas só com vento, só com água e com várias combinações de vento e água. O tratamento mais efetivo foi molhar a vaca e ventilar por 5 min.

Esse número não é algo fi xo, ele varia entre 4,0 e 5,5 min. É importante destacar que foram necessários 14 ciclos, totalizando mais de 70 minutos de resfriamento, para aliviar o estresse térmico de forma efi ciente.

 

5) VACA

Por mais óbvio que possa parecer, a vaca deve estar presente para ser resfriada. Muitas vezes, ao visitar fazendas, é possível encontrar sistemas de resfriamento ligados por muito tempo sem nenhuma vaca. Devemos procurar associar os períodos de resfriamento com os processos cotidianos das vacas. Resfriar antes da ordenha, durante a alimentação e na manutenção das camas são boas medidas para otimizar o tempo.

 

EFICIÊNCIA E MANUTENÇÃO DO SISTEMA

Resfriar vacas é um processo que exige gestão. Como em qualquer processo, o funcionamento correto do sistema é essencial. A manutenção do equipamento é parte fundamental para o manter o resfriamento funcional. Ventiladores sujos podem ter a velocidade de vento diminuída em até 30%. As fazendas devem adotar a manutenção preventiva a cada três meses como procedimento, realizando a limpeza, troca e tensionamento de correias.

Outro ponto importante é garantir o funcionamento correto do sistema de aspersão com a limpeza diária do filtro de linha, desentupimento de bicos e observação da vazão e tempo dos ciclos.

 

MAS COMO SABER SE O RESFRIAMENTO ESTÁ SENDO EFICIENTE?

Como qualquer processo, é necessário o monitoramento constante do sistema do resfriamento para assegurar a efetividade. Existem duas maneiras de se monitorar a efi ciência:

Monitoramento com dataloggers: dataloggers são termômetros que registram a temperatura em intervalos constantes. Eles podem ser fixados a dispositivos intravaginais que monitoram a temperatura da vaca. Essa ferramenta é muito útil quando estamos customizando um sistema de resfriamento e criando os protocolos de resfriamento para uma propriedade. Além disso, essa medição pode ser feita quinzenalmente ou mensalmente na fazenda, com o intuito de monitorar o processo.

Monitorando por meio de índices zootécnicos: índices, como produção de leite e taxa de concepção, são bons indicadores para se comparar um ano com outro. Porém, devemos ter cuidado para que outras mudanças adotadas pela fazenda não sejam levadas em consideração, o que poderia mascarar os resultados.

 

AFINAL, QUAL ESTRATÉGIA USAR?

Antes que a temperatura comece a subir, deve-se pensar na estratégia mais adequada para promover o resfriamento das vacas, de acordo com as características e potencial de investimento da propriedade. Dessa forma, somado ao monitoramento da eficácia do sistema, é possível manter a produção do inverno durante o verão apenas com perdas mínimas.

 

 

ADRIANO SEDDON

Médico veterinário fundador da Alcance Rural e responsável pela implantação dos primeiros sistemas de compost barn no Brasil