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Animais Jovens, Manejo, Sanidade

Exame físico do umbigo: estratégia que garante a saúde dos neonatos

Ao longo da vida intrauterina, o cordão umbilical exerce a função de manutenção do suprimento sanguíneo e nutricional do feto. Entretanto, suas estruturas são susceptíveis a processos inflamatórios e infecciosos que podem resultar em doenças. Fatores relacionados ao ambiente, ao indivíduo e ao manejo são essenciais na determinação do equilíbrio do processo saúde-doença, especialmente nos animais jovens.

Exame físico do umbigo: estratégia que garante a saúde dos neonatos

Exame físico do umbigo: a estratégia que protege o cordão que transmite vida na fase intrauterina, mas pode ser condutor de afecções que desafiam a saúde dos neonatos.

Ao longo da vida intrauterina, o cordão umbilical exerce a função de manutenção do suprimento sanguíneo e nutricional do feto. Entretanto, suas estruturas são susceptíveis a processos inflamatórios e infecciosos que podem resultar em doenças. Fatores relacionados ao ambiente, ao indivíduo e ao manejo são essenciais na determinação do equilíbrio do processo saúde-doença, especialmente nos animais jovens. De forma geral, as doenças que ocorrem no umbigo e nas suas estruturas são denominadas onfalopatias. Nos sistemas de produção leiteira dos Estados Unidos, 5% a 20% dos bezerros desenvolvem alguma infecção umbilical, a qual pode ser a causa de 1,6% dos óbitos relatados e uma das principais doenças em bezerros recém-nascidos. Dessa forma, as doenças umbilicais e suas complicações podem acometer 1% a 30% dos bezerros até os 30 dias de idade, com potencial para causar prejuízos ao estado de saúde geral e desempenho futuro desses animais.

A literatura científica mundial acerca da prevalência das afecções umbilicais é predominantemente convergente, contudo, devido à variedade de sistemas de criação no Brasil, é importante contextualizar o problema na nossa realidade. Em levantamento realizado pelo programa Alta Cria (2021), foi relatada a ocorrência de 6% a 9% de problemas umbilicais e inflamação do umbigo em bezerros leiteiros, sendo que a maior parte dos quadros (94%) ocorria na primeira semana do aleitamento. Os valores são semelhantes aos encontrados em outros países, no entanto, é preciso considerar que os dados são fornecidos das propriedades, que nem sempre contam com assistência veterinária para o diagnóstico da enfermidade, de forma que é possível que a ocorrência seja maior. As onfalopatias podem ter diferentes manifestações clínicas e, até mesmo, podem não apresentar sinais clínicos evidentes. Por tratar-se de problema comum na criação de bezerros, compreender a importância do exame do umbigo dos neonatos, realizado por pessoas seguramente treinadas e atualizadas, é fundamental.

 As onfalopatias 

Durante o parto, o cordão umbilical se rompe e, em seguida, ocorre ressecamento e queda das estruturas remanescentes que formam o coto umbilical. Para que as etapas ocorram de forma saudável, é imprescindível assegurar eficiência nos manejos sanitário e ambiental. As práticas de cura do umbigo e colostragem, por exemplo, devem ocorrer de forma sistemática e o ambiente deve oferecer o melhor conforto e proteção ao animal. 

Falhas metodológicas nesses manejos oferecem risco ao desenvolvimento das onfalopatias, como onfalite (na pele e nos tecidos moles adjacentes ao umbigo); onfaloflebite (com envolvimento da veia umbilical); onfaloarterite (com acometimento das artérias umbilicais); onfalouraquite (com envolvimento do úraco, estrutura que se liga à bexiga); onfaloarterioflebite (envolvimento das artérias e da veia); onfalouracoflebite (acometimento do úraco e da veia); onfalouracoarterite (acometimento do úraco e das artérias) e panvasculite umbilical (acometimento de todas as estruturas umbilicais). As onfalopatias são causas frequentes da formação de abscessos hepáticos, sepse, artrite séptica (nas articulações), cistite (infecção urinária), entre outras enfermidades. Afecções como essas, por sua vez, são causas comuns da mortalidade de bezerros neonatos, além de serem responsáveis pelo déficits no desempenho e desenvolvimento ao longo da vida do animal.

Anatomia do umbigo A formação do cordão umbilical ocorre na fase embrionária, por volta da quarta semana de gestação. Ele é constituído por quatro estruturas: duas artérias, uma veia e o úraco (ou ducto alantóideo), as quais são revestidas por tecido conjuntivo mucoide e atravessam a interface materno-fetal pelo anel umbilical, orifício presente no abdômen ventral do feto. As artérias umbilicais, responsáveis pelo transporte do sangue desoxigenado e dos metabólitos excretados pelo organismo fetal, fazem contato com os placentomas, pelos quais acontecem as trocas gasosas e a eliminação dos metabólitos fetais na placenta. No feto, as artérias ligam-se à aorta, margeando a vesícula urinária (Figura 1). O úraco é uma estrutura tubular que faz a conexão entre o ápice da bexiga fetal e o saco alantóide, por onde a urina fetal é eliminada.  

Figura 1A. Anatomia do umbigo externo e representação dos órgãos e tecidos aos quais as estruturas umbilicais são internamente conectadas: 1 – artérias umbilicais, conectadas à aorta; 2 – úraco, conectado à bexiga; 3 – veia umbilical, conectada ao fígado; 1B. Anatomia interna das estruturas umbilicais e respectivos órgãos e tecidos conectados.

Durante o nascimento, com o rompimento do cordão umbilical, as estruturas umbilicais sofrem alterações em anatomia e função. As artérias dão origem aos ligamentos redondos da bexiga, enquanto a veia umbilical e o úraco retraem-se e obliteram-se, para dar origem ao ligamento redondo do fígado e ao ligamento vesical mediano da bexiga, respectivamente. Embora externo, o coto umbilical estabelece contato íntimo com o anel umbilical e, consequentemente, com a cavidade abdominal e os órgãos internos do bezerro. Assim, a colonização do coto umbilical por microrganismos patogênicos é o principal fator de risco para a ocorrência das doenças associadas ao umbigo.

 Afecções umbilicais 

A transição do ambiente intrauterino para o extrauterino representa grande desafio aos neonatos, que devem adaptar-se ao novo ambiente enquanto desenvolvem as defesas imunológicas. Nesse momento de ativação dos mecanismos imunológicos, as boas práticas sanitárias no ambiente e a rigorosa cura do umbigo do neonato são fundamentais. Dessa forma, condições sanitárias e de ambiência adversas são causas comuns de onfalopatias, que podem acometer as estruturas externas e/ou internas do umbigo do animal. De modo geral, a inflamação de quaisquer estruturas que formam o cordão umbilical em sua porção extra-abdominal, clinicamente, é denominada onfalite, enquanto as afecções que acometem as estruturas que formam a porção intraabdominal do umbigo são nomeadas de acordo com o segmento umbilical acometido.

A onfaloarterite e a onfaloflebite são inflamações das artérias e veia umbilical, respectivamente, que restringem-se às porções externas próximas ao anel umbilical, ou disseminam-se ao longo desses vasos, formando abscessos. No caso da onfaloarterite, a formação de abscessos pode comprometer outros vasos e artérias importantes. Além disso, a veia umbilical, por fazer contato direto com o fígado, pode predispor a formação de abscessos hepáticos. Ambas as afecções, onfaloarterite e onfaloflebite, podem retardar o desenvolvimento do animal e, como se não bastasse, as onfalites associadas à formação de abscessos hepáticos são causas importantes de poliartrite séptica, osteomielite, pneumonia, cardiopatias, peritonite, meningite, encefalite e septicemia – quadros que aumentam, em muito, o risco de morte. A onfalouraquite consiste na inflamação da porção intra-abdominal do úraco, que pode evoluir para cistite, ureterite e nefrite. Ademais, as afecções umbilicais podem envolver, simultaneamente, mais de uma estrutura que compõe o umbigo.

A COLONIZAÇÃO DO COTO UMBILICAL POR MICRORGANISMOS PATOGÊNICOS É O PRINCIPAL FATOR DE RISCO PARA A OCORRÊNCIA DAS AFECÇÕES UMBILICAIS

Manejo profilático 

Como forma de prevenir o comprometimento do desempenho produtivo e, até mesmo, o óbito dos animais por afecções umbilicais, é imprescindível realizar criteriosamente a cura de umbigo. A primeira cura deve acontecer imediatamente após o parto e ser repetida, no mínimo, duas vezes ao dia (dependendo das condições de higiene e umidade do ambiente), até que o coto umbilical mumifique (esteja seco) e caia. A prática envolve a imersão completa do coto umbilical em tintura de iodo (7% a 10%), por um minuto. De acordo com o levantamento feito pelo Programa Alta Cria (2021), 96% das fazendas participantes do Programa utilizavam tintura de iodo 10% para a cura do umbigo de bezerros, 53% realizavam a cura duas vezes  ao dia e 60% curavam até o umbigo cair. A mumificação do coto umbilical consiste na sua desidratação completa. Por esse motivo, para a cura, não são indicados produtos que contenham substâncias hidratantes. O iodo é um potente agente antisséptico e tem alta capacidade de penetração em tecidos vivos. Seu mecanismo de ação conta com a precipitação e desnaturação de proteínas essenciais ao metabolismo dos microrganismos colonizadores, além da alteração da permeabilidade de suas membranas celulares. Mas, ressalta-se, que mesmo utilizando iodo em concentração adequada, o ambiente de permanência dos animais deve ser limpo e seco, visto que a presença de matéria orgânica reduz a ação antisséptica da tintura de iodo.

 

Exame físico do umbigo

Os diagnósticos das afecções de umbigo são concluídos após o exame físico da estrutura, preferencialmente na segunda semana de idade dos bezerros. Para o exame do umbigo, são adotados métodos clássicos de exploração clínica, dentre os quais está a inspeção seguida da palpação. A inspeção do umbigo permite compreender o grau de involução e secagem do coto umbilical, por meio da avaliação visual dos aspectos: forma, volume, odor e presença de fístulas e abscessos.

 As fístulas e os abscessos são avaliados quanto à quantidade, coloração e odor da secreção. Além disso, deve-se atentar à presença de miíase e ao gotejamento de urina através do umbigo – esse último é denominado úraco persistente, quando o úraco não é retraído adequadamente. A palpação das estruturas umbilicais é conduzida de acordo com o local em que estão. Na palpação das estruturas extra-abdominais, é avaliado o grau de secagem, o volume e a presença de secreção no coto umbilical, bem como a sensibilidade dolorosa do animal. Já a palpação das estruturas intra-abdominais deve ser conduzida com o animal em decúbito lateral, pois não basta apenas palpar a região interna adjacente ao anel umbilical — é preciso seguir o sentido para o qual as estruturas migram, considerado o rompimento do cordão umbilical. De forma semelhante, os parâmetros avaliados nas estruturas são: volume (possível aumento localizado ou difuso), consistência, formato, temperatura, presença de fibrose, aderências e fístulas e sensibilidade dolorosa. Para ter segurança na palpação, é preciso conter adequadamente o bezerro, para o avaliador dispor das duas mãos para conduzir o exame: uma para segurar e direcionar o umbigo e a outra, com os dedos polegar e indicador em forma de “pinça”, para apreender a estrutura interna pela parede abdominal (Figura 2).  Porém, isso só é possível para as artérias umbilicais e o úraco quando a palpação é iniciada no sentido ventro-dorso-caudal, ou seja, partindo do umbigo em direção à bexiga. Em condições de normalidade, as estruturas umbilicais devem ser livres de inchaço e rigidez, dor ou outras alterações mencionadas. 

 
Figura 2A. Contenção em decúbito lateral direito de bezerro prestes a receber exame de palpação do umbigo interno; 2B. A mão esquerda do avaliador apoia e direciona o umbigo, enquanto a mão direita, em formato de pinça, busca e palpa a veia umbilical, no sentido ventro-dorso-cranial; 2C. A mão direita do avaliador apoia e direciona o umbigo, enquanto a mão esquerda, em formato de pinça, busca e palpa as artérias umbilicais e o úraco, no sentido ventrodorso-caudal.

A palpação da veia umbilical deve ser feita no sentido ventro-dorso-cranial, ou seja, do anel umbilical para o fígado, até que as costelas limitem a continuação do movimento. A veia umbilical, em condição de normalidade, é delgada e de difícil individualização. Na palpação das artérias umbilicais e do úraco, os movimentos devem seguir o sentido ventro-dorso-caudal, ou seja, do anel umbilical para a aorta abdominal e a bexiga. Em condição de normalidade, é difícil individualizar esses segmentos, uma vez que o rompimento do cordão umbilical durante o parto induz a retração das estruturas. 

Geralmente, o exame de palpação umbilical é bastante acurado. No entanto, em algumas situações, a palpação bimanual das estruturas umbilicais intra-abdominais pode não ser suficiente para identificar possíveis alterações. Nesses casos, é necessário realizar exames complementares, como a ultrassonografia. Uma vez sugerida a afecção umbilical, o Médico Veterinário deve ser acionado para concluir o diagnóstico e direcionar o tratamento, de acordo com o estado clínico geral do animal e a gravidade do quadro.

 Conclusões 

A cura do umbigo de neonatos deve seguir critérios técnicos para frequência, intervalo e método de aplicação, bem como para o produto utilizado. A eficiência de cura pode ser mensurada por meio da inspeção e palpação das estruturas umbilicais, de forma a possibilitar a determinação da taxa de sucesso do manejo ou o diagnóstico das onfalopatias. As técnicas de inspeção e palpação umbilical requerem o conhecimento das estruturas anatômicas e devem ser transmitidas aos indivíduos que atuam no setor de cria das propriedades leiteiras. O Médico Veterinário responsável pela saúde do rebanho pode aplicar treinamentos e atualizações para capacitar os colaboradores à tarefa de monitorar as afecções umbilicais e, por consequência, avançar nos índices de saúde dos bezerros. A mesma estrutura que sustenta a vida na fase intrauterina pode conduzir afecções que desafiam a saúde dos neonatos. Para que o cordão umbilical do bezerro permaneça protegido após ser rompido, a sistematização do exame físico do umbigo e o olhar atento aos fatores de risco da propriedade permitem que sejam identificados os pontos de manutenção ou de melhoria do monitoramento.



GUSTAVO HENRIQUE SILVA CAMARGOS Graduando em Medicina Veterinária (EV-UFMG)

MAYARA CAMPOS LOMBARDI Doutoranda em Ciência Animal (EV-UFMG)

STEPHANIE CRISTINE PEREIRA ASSUNÇÃO Graduanda em Medicina Veterinária (EV-UFMG) 

RODRIGO MELO MENESES Professor de Clínica de Ruminantes (EV-UFMG)

 













 


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