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Sanidade

Como prevenir e controlar a raiva?

A raiva é uma zoonose de alta letalidade, contudo, é completamente prevenível por meio da vacinação, beneficiando tanto animais quanto humanos. Uma vez que os sintomas clínicos se manifestam, o prognóstico é invariavelmente letal. Dada a capacidade do vírus de infectar todos os mamíferos, incluindo animais silvestres e domésticos (tais como cães, gatos, equinos, suínos, caprinos, ovinos e bovinos), além dos seres humanos, sua relevância é incontestável.

Como prevenir e controlar a raiva?

Na pecuária bovina da América Latina, os prejuízos causados pela raiva são estimados em mais de 50 milhões de dólares, destacando a gravidade econômica da doença. Adicionalmente, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) classifica-a como uma doença de notificação obrigatória. No período entre 1999 e o primeiro semestre de 2023, foram reportados 40.788 casos de raiva em bovinos no Brasil, dos quais cerca de 6,17% (2.517 casos) ocorreram em Minas Gerais. Em relação à incidência em humanos, foram registrados 47 casos no país de 2010 a 2023, com dois casos reportados apenas em 2023. Um dos óbitos no último ano foi de um produtor rural mineiro, que teve contato direto com um bovino infectado sem a devida proteção e não adotou as medidas de profilaxia pós-exposição recomendadas.

Formas de transmissão

A transmissão da raiva em herbívoros é predominantemente realizada por meio de mordeduras ou lambeduras de morcegos hematófagos, notadamente os pertencentes à espécie Desmodus rotundus, uma vez que o vírus é transmitido através da saliva de animais infectados (Figura 1). A presença do Desmodus rotundus abrange extensivamente desde o México até o Uruguai e o norte da Argentina, destacando a importância de medidas preventivas em uma vasta região geográfica. Embora em menor frequência, a raiva também pode ser transmitida a herbívoros por intermédio de mordeduras ou lambeduras de animais silvestres ou cães que estejam infectados.



Dada a alta prevalência da raiva animal no Brasil, principalmente em bovinos, que representam 78,74% dos casos confirmados, é fundamental que os grupos mais vulneráveis à exposição do vírus, como produtores rurais e Médicos Veterinários, estejam plenamente conscientes e engajados nas medidas de profilaxia e controle da raiva, tanto bovina quanto humana.

Medidas de prevenção da raiva em bovinos

O Programa Nacional de Controle da Raiva dos Herbívoros (PNCRH), instituído pelo MAPA, estabelece diretrizes estratégicas para a prevenção e o controle da raiva. Entre as medidas essenciais propostas pelo PNCRH, destacam-se a vacinação anual obrigatória de herbívoros domésticos (incluindo bovinos, bubalinos, equídeos, ovinos e caprinos), o manejo da população de morcegos hematófagos em regiões de risco e a pronta resposta a surtos da doença.

Para os produtores rurais em áreas de risco, recomenda-se a vacinação dos herbívoros a partir dos 3 meses de idade, seguida de uma dose de reforço 30 dias após a primeira aplicação e, posteriormente, reforços anuais. A vacinação é extremamente eficaz na prevenção da raiva, protegendo os animais mesmo em cenários de circulação ativa do vírus por transmissão via morcegos hematófagos. A vacina emerge como a medida preventiva mais eficaz, considerando a letalidade da totalidade dos animais que manifestam sintomas clínicos da doença.

Em situações de confirmação de focos de raiva, equipes estaduais de defesa sanitária animal conduzem investigações epidemiológicas para identificar e manejar potenciais abrigos do morcego Desmodus rotundus, visando minimizar a transmissão do vírus a outros hospedeiros. Produtores podem colaborar voluntariamente, informando às autoridades sobre locais de abrigo desses morcegos. Contudo, devido ao status de proteção da fauna silvestre, apenas profissionais autorizados podem realizar o controle populacional desses morcegos.

Adicionalmente, é crucial que os produtores rurais procedam ao diagnóstico de quaisquer bovinos que venham a óbito apresentando sinais neurológicos, tais como alterações comportamentais (animal se isola do rebanho, apresenta apatia, perda de apetite, mugido constante, hiperexcitabilidade), salivação excessiva, desequilíbrio, dificuldade para engolir, mandíbula caída (sugerindo que o animal possa estar engasgado, podendo ser confundido com sinais causados por corpo estranho na boca ou garganta), fraqueza muscular e incoordenação motora (andar cambaleante e tremores musculares). Após entrar em decúbito, o animal não consegue mais se levantar e ocorrem movimentos de pedalagem, dificuldade respiratória, opistótono, asfixia e finalmente a morte, que ocorre geralmente entre 3 a 6 dias após o início dos sinais, podendo prolongar-se, em alguns casos, por até 10 dias (Figura 2).

A VACINA EMERGE COMO A MEDIDA PREVENTIVA MAIS EFICAZ, CONSIDERANDO A LETALIDADE DA TOTALIDADE DOS ANIMAIS QUE MANIFESTAM SINTOMAS CLÍNICOS DA DOENÇA



Animais com esses sintomas devem ser imediatamente isolados não só dos demais bovinos, mas também de outras espécies presentes na propriedade, como cães, gatos, equídeos e pequenos ruminantes, para evitar a propagação da doença. Caso evoluam para óbito, é essencial que o produtor rural entre em contato com um Médico Veterinário o mais rápido possível para solicitar a realização de necrópsia. Durante esse procedimento, o Médico Veterinário coletará amostras de tecidos de órgãos-chave, com ênfase no sistema nervoso central, incluindo o cérebro (especificamente o córtex cerebral e o hipocampo), cerebelo, tronco encefálico e medula espinhal. É importante que as amostras coletadas sejam apropriadamente identificadas, com marcação individual para cada animal (um recipiente por amostra), e preservadas em condições ótimas, seja através de refrigeração, mantendo-se entre 2°C e 8°C, ou congelamento. Devem ser enviadas ao laboratório oficial de diagnóstico de raiva do estado correspondente com a máxima brevidade, acompanhadas por formulários específicos para o diagnóstico de distúrbios neurológicos, devidamente preenchidos pelo profissional responsável.

Essa abordagem facilita o diagnóstico preciso e rápido, essencial para a tomada de medidas de controle adequadas, e contribui para a vigilância epidemiológica da raiva, permitindo a implementação de estratégias preventivas mais eficazes para proteger tanto a saúde animal quanto a saúde pública.

Medidas de prevenção da raiva humana

As medidas de prevenção da raiva humana (Figura 3), essenciais para minimizar o risco de infecção e transmissão do vírus, podem ser resumidas em três tópicos fundamentais:

1 -Vacinação antirrábica pré e pós-exposição:

a) Pré-exposição: Destinada a indivíduos com alto risco de exposição ao vírus, inclui Médicos Veterinários, Biólogos, Zootecnistas, profissionais em laboratórios de diagnóstico e pesquisa de raiva, estudantes de Medicina Veterinária, Zootecnia, Biologia e áreas relacionadas, e pessoas envolvidas em atividades de captura, manejo, e coleta de amostras de mamíferos. O esquema vacinal consiste na aplicação de duas doses, administradas nos dias 0 e 7.

b) Pós-exposição: Aplicada após o contato com animal suspeito ou confirmado portador da doença. É importante buscar atendimento médico imediato para avaliação e início do esquema vacinal recomendado.

2 - Evitar contato com animais silvestres: Importante medida de prevenção, visto que muitos animais silvestres podem ser portadores do vírus da raiva.

3 - Busca por tratamento imediato em caso de exposição: Em caso de mordida, arranhão ou qualquer outra forma de exposição a um animal potencialmente infectado, é vital procurar atendimento médico sem demora para avaliação e tratamento adequados.

A vacinação é disponibilizada gratuitamente nos postos de saúde da rede pública. Para mais informações sobre onde se vacinar, é recomendável contatar a vigilância em saúde do município. Avaliar a eficácia da vacinação, por meio da medição dos títulos de anticorpos antirrábicos induzidos, é sugerido a partir do 14° dia após a última dose do esquema de vacinação pré-exposição.

A conscientização pública é essencial no combate à raiva, sobretudo em relação ao manejo e ao contato com animais potencialmente infectados pelo vírus. Essa precaução se aplica tanto a animais silvestres, como morcegos, saguis e raposas, quanto a animais desconhecidos ou domésticos que apresentem sintomas neurológicos. Notavelmente, no Brasil, a maioria dos casos de raiva humana relatados nos últimos treze anos foi associada ao contato com animais silvestres, incluindo morcegos, tanto hematófagos quanto não-hematófagos.

O contato com esses animais deve ser estritamente evitado. No caso de necessidade de interação com bovinos suspeitos de raiva, especialmente por parte de Médicos Veterinários, o uso de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs), como luvas de borracha, é obrigatório. Isso é crucial pois a manipulação da boca de animais com sintomas de raiva, frequentemente interpretados erroneamente como sinais de obstrução por corpo estranho, expõe os indivíduos ao risco de infecção pelo vírus presente na saliva do animal.

Adicionalmente, em situações de exposição potencial ao vírus, medidas imediatas de higiene são vitais, incluindo a limpeza profunda da área exposta com água e sabão, seguida pela aplicação de antissépticos (iodo, álcool iodado, álcool 70%, clorexidina, etc.). Essas ações visam reduzir significativamente o risco de infecção. Após esses primeiros cuidados, é imperativo buscar atendimento médico imediato, informando sobre o contato com o animal suspeito.

Na unidade de saúde, o profissional realizará avaliação detalhada para determinar a necessidade de vacinação antirrábica e/ou administração de soro antirrábico, considerando fatores como o tipo de exposição, a espécie do animal envolvido, a presença e a localização de ferimentos, e o histórico vacinal do indivíduo. Caso a vacinação pós-exposição seja indicada, o protocolo completo consiste na administração de quatro doses da vacina antirrábica, seguindo o esquema nos dias 0, 3, 7 e 14.

A CONSCIENTIZAÇÃO PÚBLICA É ESSENCIAL NO COMBATE À RAIVA, SOBRETUDO EM RELAÇÃO AO MANEJO E AO CONTATO COM ANIMAIS POTENCIALMENTE INFECTADOS PELO VÍRUS




Agradecimentos

Os autores agradecem ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e à Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) pelas bolsas de estudo e à Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (FAPEMIG), processo RED-00132-22, pelo apoio financeiro.




ANA CAROLINA CHALFUN SANTANA - Graduanda do Curso de Medicina Veterinária do Departamento de Zootecnia e Medicina Veterinária, Universidade Federal de Lavras (UFLA)

ANNA PAULA PIRES MARTINS - Graduanda do Curso de Medicina Veterinária do Departamento de Zootecnia e Medicina Veterinária, UFLA

JÚLIA LIMA PAZ - Graduanda do Curso de Medicina Veterinária do Departamento de Zootecnia e Medicina Veterinária, UFLA

CARINE RODRIGUES PEREIRA - Professora Adjunta do Departamento de Zootecnia e Medicina Veterinária, (UFLA)

MARIA ISABEL MALDONADO COELHO GUEDES - Professora Adjunta do Departamento de Medicina Veterinária Preventiva da Escola de Veterinária, Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG)

ANDREY PEREIRA LAGE - Professor Titular do Departamento de Medicina Veterinária Preventiva da Escola de Veterinária, UFMG

ELAINE MARIA SELES DORNELES - Professora Adjunta do Departamento de Zootecnia e Medicina Veterinária, UFLA






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