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Animais Jovens, Sanidade

Diarreia neonatal: o grande desafio para as bezerras

Causada por uma diversidade de agentes patogênicos, incluindo bactérias, vírus e parasitas, a diarreia em bezerras compromete o bem-estar animal e implica significativas perdas econômicas para os produtores.

Diarreia neonatal: o grande desafio para as bezerras

A diarreia neonatal em bezerras é um problema de saúde frequente na pecuária leiteira, refletindo diretamente no bem-estar dos animais e na eficiência produtiva do setor. Essa condição não só compromete o desenvolvimento saudável dos animais, mas também incide negativamente na lucratividade e na sustentabilidade das operações leiteiras. Os custos relacionados ao manejo de bezerras doentes, incluindo tratamento médico, diminuição da produtividade e, em casos extremos, a perda dos animais, podem ser consideráveis, impactando adversamente a rentabilidade da atividade leiteira.

As bezerras recém-nascidas são particularmente vulneráveis à diarreia devido à imaturidade do sistema imunológico e à suscetibilidade aos agentes patogênicos. Sem intervenção eficaz, esse quadro pode evoluir para desidratação severa, desnutrição e, nos casos mais graves, levar à morte. Importante ressaltar que as bezerras que conseguem superar episódios recorrentes de diarreia podem sofrer com atraso no crescimento e no desenvolvimento, comprometendo seu desempenho futuro na produção leiteira.

Principais causas 

Os principais agentes infecciosos responsáveis pela diarreia em bezerras antes do desaleitamento incluem bactérias como Escherichia coli enterotoxigênica (ETEC) e Salmonella spp., além de vírus como rotavírus e coronavírus, e o parasita Cryptosporidium parvum. Frequentemente, a condição pode ser exacerbada pela presença simultânea de múltiplos patógenos. Fatores como mudanças abruptas de temperatura, alojamento inadequado e falta de higiene nas instalações podem contribuir significativamente para aumentar o estresse e a suscetibilidade das bezerras à diarreia.

A transmissão fecal-oral é a principal via de contágio. Os principais fatores que predispõem a infecção por patógenos causadores de diarreia são: contato com superfícies contaminadas como cama suja, mistura de animais de diferentes idades na mesma área, interação com outras espécies domésticas, manejo inadequado do colostro, utilização de sondas e mamadeiras não esterilizadas, consumo de água não tratada e pela transferência de patógenos através de botas ou das mãos dos cuidadores.

Os sinais clínicos da diarreia são consistentes, independentemente do agente etiológico, destacando-se a presença de fezes líquidas e fétidas, desidratação, presença de sangue, muco e catarro nas fezes, além da sujeira fecal na região perianal e caudal. Animais afetados podem também demonstrar perda de apetite, fraqueza, letargia e, em alguns casos, febre (Figura 1).

Bezerra apresentando diarreia aquosa intensa e estado de prostração.

A mortalidade em bezerras acometidas por diarreia geralmente é resultante de desidratação severa e desequilíbrio eletrolítico devido à perda significativa de fluidos nas fezes. Dessa forma, a implementação de medidas preventivas é fundamental, com o objetivo de minimizar os efeitos prejudiciais da diarreia tanto na saúde dos animais quanto no aspecto econômico da produção.

Na pecuária leiteira, a utilização de antibióticos para o tratamento de diarreia em bezerras tem sido prática comum, embora sua eficácia seja limitada a infecções causadas por bactérias que respondem a esses medicamentos. O uso indiscriminado de antibióticos traz consigo consequências negativas, incluindo o surgimento de cepas bacterianas resistentes e a contaminação de produtos alimentares com resíduos desses fármacos. Ainda mais relevante é o impacto do uso indevido de antibióticos na fase inicial de vida das bezerras: o tratamento inadequado de episódios recorrentes de diarreia pode comprometer o desenvolvimento da flora ruminal e intestinal. Isso pode afetar de forma duradoura a capacidade de digestão e absorção dos nutrientes necessários ao crescimento saudável do animal. As primeiras etapas de crescimento são essenciais para estabelecer a saúde das bezerras, com destaque para a importância da interação positiva com a microbiota benéfica.

A colonização inicial por uma microbiota benéfica promove o desenvolvimento do sistema imunológico, essencial para a saúde das bezerras. Esse processo ajuda a diminuir a incidência de doenças e atenua o estresse associado ao desaleitamento, sublinhando a necessidade de práticas de manejo que suportem um início de vida saudável para as bezerras, fortalecendo sua imunidade e promovendo o crescimento robusto.

A implementação de medidas preventivas é fundamental, com o objetivo de minimizar os efeitos prejudiciais da diarreia tanto na saúde dos animais quanto no aspecto econômico da produção


A microbiota intestinal, estabelecida precocemente na vida, tem papel fundamental no bem-estar de longo prazo dos animais

Principais agentes causadores de diarreia

Os principais agentes patogênicos responsáveis por causar diarreia em bezerras recém-nascidas incluem Escherichia coli enterotoxigênica (ETEC), Salmonella spp., rotavírus, coronavírus e Cryptosporidium parvum (Gráfico 1).


1. Escherichia coli enterotoxigênica (ETEC)

A ETEC é a principal causadora de diarreia em bezerras na primeira semana de vida, especialmente após os primeiros 4 dias. A ETEC adere às células intestinais por meio do antígeno K99, estabelecendo-se no intestino. Após essa adesão, ela produz toxinas termoestáveis, que são resistentes ao aquecimento, levando ao desenvolvimento de diarreia líquida. Nos casos agudos, observa-se diarreia intensa, variando de pastosa a líquida, com coloração que pode ir do amarelo ao branco acinzentado, acompanhada de odor fétido marcante. Essa condição pode resultar em desidratação rápida e severa nos animais afetados.


2. Salmonella spp.

Salmonella spp. é um agente patogênico que afeta bezerras principalmente entre 10 dias e 3 meses de idade, mas também pode causar diarreia em bovinos adultos e novilhas. As manifestações clínicas incluem diarreia aquosa e mucosa frequentemente contendo fibrina e sangue. As vacas leiteiras podem atuar como reservatórios da bactéria Salmonella enterica, facilitando a transmissão para as bezerras principalmente por meio da ingestão de alimentos, água ou contato com superfícies contaminadas. Ademais, condições inadequadas de higiene, instalações sujas e práticas de manejo inapropriadas contribuem significativamente para a propagação dessa bactéria no rebanho.

 

3. Rotavírus

A infecção por rotavírus atinge principalmente bezerras entre 1 e 2 semanas de vida, provocando diarreia aguda. Após a infecção, as bezerras podem eliminar grandes quantidades do vírus nas fezes, de 5 a 7 dias após a contaminação, facilitando a transmissão para outros animais. Devido à sua alta capacidade de contágio e à transmissão predominantemente fecal-oral, ambientes com alta densidade de animais, práticas de higiene deficientes e instalações malconservadas favorecem a rápida propagação do vírus entre as bezerras.


4. Coronavírus

O coronavírus pode afetar bezerras desde o primeiro dia de vida até aproximadamente 3 meses, com a diarreia ocorrendo mais frequentemente entre 1 e 2 semanas de idade e atingindo seu pico entre os dias 7 e 10. A infecção por coronavírus nas bezerras pode ocorrer tanto por via oral quanto pelo trato respiratório. Os sinais clínicos costumam se manifestar cerca de 2 dias após a infecção e podem persistir por um período de 3 a 6 dias.

5. Cryptosporidium parvum

Comumente transmitido via fecal-oral, O Cryptosporidium parvum tornou-se uma das principais causas de diarreia em bezerras em todo o mundo, afetando principalmente animais entre 4 dias e 6 semanas de idade. Esse parasita é conhecido por causar diarreia aguda. Os oocistos de C. parvum são altamente infecciosos e possuem a capacidade de persistir no ambiente por períodos prolongados, aumentando o risco de transmissão.


A identificação do patógeno requer a coleta de amostras de fezes ou swab retal de animais que não receberam tratamento com antibióticos, as quais devem ser encaminhadas para análise laboratorial.

Diagnóstico laboratorial


Para que seja obtido um diagnóstico preciso do agente causador da diarreia, é necessário integrar dados como a faixa etária das bezerras afetadas, histórico clínico, achados clínicos e resultados de exames laboratoriais. A identificação do patógeno requer a coleta de amostras de fezes ou swab retal de animais que não receberam tratamento com antibióticos, as quais devem ser encaminhadas para análise laboratorial. É essencial que cada amostra seja adequadamente identificada e conservada em refrigeração até seu processamento pelo laboratório. O diagnóstico etiológico, obtido a partir das análises laboratoriais, é fundamental para direcionar a implementação de estratégias de controle mais efetivas contra a diarreia, incluindo ações preventivas como a vacinação.


Manter a oferta de leite aos animais que estão com diarreia é fundamental, pois isso ajuda na reposição de eletrólitos e na entrega da energia necessária para o processo de recuperação.

Tratamento, controle e prevenção

O tratamento, controle e prevenção da diarreia em bezerras começam prioritariamente com a reidratação do animal, procedimento que deve ser iniciado imediatamente. Recomenda-se o fornecimento de soro oral às bezerras duas vezes ao dia, nos períodos entre as mamadas. A dosagem do soro deve ser ajustada conforme o nível de desidratação e o peso do animal, sendo administrado por meio de mamadeira ou balde. Em situações em que a bezerra mostre resistência, pode-se recorrer ao uso de sonda. É importante não interromper o fornecimento de leite aos animais afetados pela diarreia, visto que essa ação contribui para a reposição de eletrólitos e fornece a energia necessária para a recuperação. Animais em decúbito ou em estado avançado de desidratação devem receber assistência veterinária imediata, a qual pode incluir a administração de fluidoterapia intravenosa e outras intervenções de suporte. A prescrição de antibióticos deve ser restrita aos casos confirmados de diarreia de origem bacteriana, presença de febre ou conforme recomendação veterinária, a fim de evitar o uso desnecessário desses medicamentos e reduzir o risco de desenvolvimento de resistência bacteriana.

Para o controle e prevenção eficazes da diarreia em bezerras é essencial adotar medidas que abrangem desde o período periparto até após o desaleitamento. As principais ações e cuidados recomendados são detalhados no Quadro 1.


Para contornar o desafio

Embora a ocorrência de diarreia em bezerras seja um desafio comum enfrentado pelos produtores, muitas vezes, a prevenção e o controle eficazes desses episódios não são devidamente compreendidos ou implementados. Para diminuir a frequência e a gravidade dos surtos de diarreia, é imprescindível a adoção estrita de práticas de higiene, o fornecimento imediato de colostro de alta qualidade logo após o parto, a garantia de nutrição balanceada, a minimização da contaminação ambiental e a redução do contato das bezerras com agentes infecciosos. Implementando medidas preventivas e intervindo rapidamente ao primeiro sinal de diarreia, os produtores podem minimizar as perdas financeiras e elevar o nível de bem-estar animal nas fazendas. A consulta regular com veterinários e o compromisso contínuo com a atualização sobre práticas de manejo recomendadas são cruciais para o sucesso dessa abordagem.



Agradecimentos

Os autores agradecem ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), à Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) e à Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (FAPEMIG) pelas bolsas de estudo e à FAPEMIG pelo apoio financeiro, processo RED-00132-22.



DIRCÉIA APARECIDA DA COSTA CUSTÓDIO - Pós-doutora, Departamento de Zootecnia e Medicina Veterinária, Universidade Federal de Lavras (UFLA)
KELLY MARA GOMES GODOY - Mestranda, Programa de Pós-graduação em Ciência Animal, Escola de Veterinária, Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG)
CRISTIANE MESQUITA - Graduanda em Medicina Veterinária, Departamento de Zootecnia e Medicina Veterinária, UFLA
AMANDA CARVALHO ROSADO FERREIRA - Doutoranda, Programa de Pós-graduação em Ciências Veterinárias, Departamento de Zootecnia e Medicina Veterinária, UFLA
MARIANA FERNANDES DE MOURA - Graduanda em Medicina Veterinária, Departamento de Zootecnia e MedicinaVeterinária, UFLA
FERNANDA MORCATTI COURA - Professora Adjunta, Departamento de Ciências Agrárias, Instituto Federal deEducação, Ciência e Tecnologia (IFMG Bambuí)
ANDREY PEREIRA LAGE - Professor Titular, Departamento de Medicina Veterinária Preventiva, Escola de Veterinária, UFMG
ELAINE MARIA SELES DORNELES - Professora Adjunta, Departamento de Zootecnia e Medicina Veterinária, UFLA



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