Doenças respiratórias dos bezerros: Como diminuir a incidência

Sanidade | 01 de Abril de 2013 Voltar

Texto: Heloisa Godoi Bertagnon

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A alta incidência de doenças respiratórias é responsável por grandes perdas econômicas na bovinocultura de leite. Estas afecções acometem principalmente bezerros com até cinco meses de idade, atingindo uma taxa de mortalidade de 22,5% antes dos 2 meses de vida e de 46,5% entre o segundo e o quinto mês de vida. Em virtude dessas perdas econômicas, investir nas medidas de controle de risco contra a doença é essencial para  uma  maior rentabilidade do rebanho, devendo-se dar maior ênfase à fase compreendida entre o nascimento até a maturação do sistema imune dos bezerros, atingida aproximadamente aos 5 meses de idade.

Anatomia e fisiologia do sistema respiratório

O sistema respiratório é constituído por narinas, fossas nasais, seios paranasais, laringe, traqueia, brônquios principais e segmentares, bronquíolos e alvéolos. Exerce funções importantes como trocas gasosas, manutenção do equilíbrio ácido básico, reservatório sanguíneo e auxilia nas funções de termo regulação e fonação, tornando-o órgão vital para os seres vivos.

A anatomia do trato respiratório permite uma comunicação do meio externo (ambiente) com o organismo animal, sendo frequente o contato das vias aéreas com microrganismos, que podem colonizar e se multiplicar na região, alterando sua função, comprometendo a qualidade e até a vida do paciente.   

Por se tratar de um sistema constantemente desafiado por microrganismos, evolutivamente, houve o desenvolvimento de eficientes mecanismos de defesa. A anatomia do trato respiratório anterior, por si só, já realiza filtração aerodinâmica, impedindo que partículas grandes sejam inaladas. Partículas menores, quando depositadas na região traqueobrônquica, são eliminadas por  meio de batimentos ciliares de células da região que propulsionam o muco, juntamente com as partículas, até a faringe, onde estas serão deglutidas ou expelidas através das narinas. As secreções e exsudatos inflamatórios também podem ser removidos do sistema respiratório pelo reflexo de tosse.

Quando a deposição de partículas é posterior ao epitélio ciliado, a remoção ocorre por meio da defesa celular e humoral, quando células residentes (macrófagos alveolares principalmente) arquitetam uma resposta imunológica, recrutando outras células do sangue que, em conjunto com anticorpos, enzimas e demais proteínas, combatem o agente irritante. No entanto, durante esta resposta imunológica são liberados produtos reativos chamados de radicais livres, que podem causar injúrias nos tecidos, proporcionais à severidade da inflamação.

As características anatomofisiológicas da espécie bovina, como vias aéreas estreitas, caixa torácica muito rígida, volume pulmonar pequeno e compartimentalização pulmonar, são responsáveis por trocas gasosas menos efetivas, atividade das células de defesa mais lenta e menor velocidade de limpeza pulmonar. Estes fatores prolongam a permanência de microorganismos inalados no trato respiratório, facilitando a ocorrência de afecções respiratórias, as quais são mais comuns nos bovinos que nas demais espécies.

 

Como e quando ocorrem asdoenças respiratórias

Contabilizam-se grandes perdas econômicas na bovinocultura de leite e corte devido à alta incidência das doenças respiratórias. Estas afecções acometem principalmente bezerros com até cinco meses de idade, atingindo uma taxa de mortalidade de 22,5% antes dos 2 meses de vida e de 46,5% entre o segundo e o quinto mês de vida.

Dentre as afecções respiratórias, a mais comum é o complexo doença respiratória dos bovinos, também chamado de pneumonia enzoótica dos bezerros. Trata-se de uma doença multifatorial, resultante de interações entre os fatores ambiental, hospedeiro e patógeno, normalmente incitada por fatores estressantes que afetam adversamente as defesas respiratórias, favorecendo a colonização das vias aéreas por microrganismos. 

Na grande maioria das vezes, estes patógenos são de origem viral, entretanto, facilitam uma posterior contaminação por agentes bacterianos. Os vírus causadores da afecção (vírus da Parainfluenza - PI-3, vírus respiratório  sincicial bovino – BRSV, herpervírus-bovino-1 - BHV-1 e/ou vírus da diarréia bovina – BVDV)  estão amplamente distribuídos nos rebanhos, permanecem no ambiente e são constantemente inalados pelos bovinos, esperando apenas uma condição de menor atividade dos mecanismos de defesa do trato respiratório para se replicarem e causarem a doença. Uma vez instalada a virose, há alterações nos mecanismos da resposta imunológica, que se direcionam para uma eliminação viral, comprometendo a eficiência da resposta antibacteriana. Neste momento, bactérias habitantes do trato respiratório anterior de bovinos sadios (Pasteurella multocida, Mannheimia haemolytica, Haemophilus somnus e Mycoplasma bovis), encontram condições ideais para colonizar e se replicarem nos pulmões, agravando o quadro clínico do animal.

Diante da patogenia da doença, fica claro que a combinação entre a patogenicidade do microrganismo, nível de exposição dos animais aos agentes infecciosos e a efetividade da resposta imunológica dos bovinos serão a responsáveis pela manutenção da saúde ou pela instalação da doença nos seus diversos graus de severidade.

Como já mencionado anteriormente, a doença apresenta maior incidência e mortalidade em bezerros de até 5 meses, devido principalmente à imaturidade do sistema imune. Durante os primeiros trinta dias de vida dos bezerros, sua capacidade de desenvolver uma resposta imune é lenta, fraca e pouco eficiente. Portanto, sua defesa é altamente dependente de imunoglobulinas e células de sua mãe que serão adquiridas por meio da ingestão do colostro. Nesta fase, o neonato que mamou colostro de qualidade e em quantidade suficiente, dificilmente ficará doente e, quando acontece, a pneumonia costuma ser mais branda.

Entre os 30 e 60 dias de vida dos bezerros, estas imunoglobulinas maternas vão sendo consumidas, e a contínua inalação de microrganismos estimula as células do trato respiratório a saírem do estado quiescente, mantido por fatores supressivos contidos no colostro, para se tornarem ativas. Nossas pesquisas evidenciaram que, até os 90 dias de vida dos bezerros, estas células ainda não estão na sua atividade máxima, sugerindo que entre os 45 até os 90 dias de vida exista uma janela imunológica, tornando os bezerros mais susceptíveis a infecções respiratórias em comparação às outras idades. Por isso, deve-se envidar esforços, estudando medidas preventivas que reduzam a carga de bactérias ou vírus viáveis que vão de encontro aos animais e minimizar fatores ambientais que possam diminuir a defesa do trato respiratório.

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Fatores de risco e prevenção

Na tentativa de proteger os bezerros, muitos criadores tendem a abrigar os animais de forma inadequada. É mais comum se preocupar mais com baixas temperaturas e alta umidade do ar, como facilitadores da ocorrência de pneumonias, do que com épocas sazonais mais quentes. Realmente, temperaturas mais baixas diminuem a viscosidade do muco e a velocidade do batimento ciliar, reduzindo a eficiência da limpeza pulmonar. A alta umidade do ar, por sua vez, facilita a sobrevivência de bactérias, mantendo-as viáveis em aerossóis, além de interferir com o isolamento térmico natural do bezerro, representando uma sensação térmica mais baixa do que a real. Por este motivo, é aconselhável manter os bezerros de até 3 meses de idade abrigados do vento e chuva, utilizando, para isto, bezerreiros individuais tipo casinha. Nestas instalações, três paredes (laterais e traseira) e um telhado dão conforto ao animal, permitindo boa ventilação. Cuidados com a higiene também são importantes, devendo-se sempre mudar a casinha de local conforme ocorra acúmulo de dejetos ou de umidade.

Numa faixa etária maior, os animais costumam ser mantidos, divididos em grupos, em galpões que, normalmente, possuem pouca ventilação. Este tipo de instalação concentra alta carga de patógenos exalados pela respiração, e quando não há boa higienização do ambiente, com acúmulo de excrementos, há produção de gases irritantes (amônia, metano, monóxido de carbono) prejudiciais à defesa do trato respiratório, aumentando ainda mais o desafio imunológico. Manter estes bezerros a pasto ao invés de confiná-los no inverno pode ser mais vantajoso. Em nossas pesquisas, observamos que bezerros Jersey, com idade entre 4 a 7 meses, mantidos a pasto, sem abrigo de chuva ou vento, mantiveram o mesmo padrão de resposta imune sanguínea e da região traqueobrônquica, quando submetidos a baixas temperaturas e alta umidade (5ºC e 93%UR), como também sob temperatura e umidade relativa do ar amenas (22ºC e 80% UR). Porém, quando estes bezerros enfrentaram temperaturas altas e baixa umidade do ar (30ºC e 41% UR) observamos diminuição das respostas imunes sanguínea e pulmonar, e maior quantidade de bactérias na traqueia. Este fato ocorre porque nas épocas mais quentes há uma elevada inalação de microrganismos, seja pela maior multiplicação destes no ambiente e/ou pelo aumento da frequência respiratória dos bezerros para auxiliar na termo regulação. A baixa umidade relativa do ar resseca o muco, dificultando a limpeza pulmonar, tornando importante fornecer a estes bezerros sombra de boa qualidade e ventilação adequada .

Outro fator que deve ser considerado são os eventos estressantes que ocorrem nesta faixa etária, tais como descorna, desmame, castração, vacinações e formação de lotes com animais de diversas origens e idade. Todos estes procedimentos promovem desconforto ou dor nos animais, favorecendo a secreção aumentada de hormônios indicadores de estresse, como o cortisol que, em altas concentrações, podem deprimir a resposta imune sanguínea.

Na tentativa de minimizar o estresse, nossas pesquisas evidenciaram que um desafio doloroso com o uso de um potente analgésico (cetoprofeno) pode minimizar a liberação de cortisol, mas não a inflamação. Produtos resultantes desta inflamação, como proteínas de fase aguda, são responsáveis pela diminuição da função imune sanguínea e respiratória entre 1 a 3 dias após o desafio doloroso. Considerando que entre os 45-90 dias de vida exista uma janela imunológica, deve-se evitar também, neste período, os eventos potencialmente inflamatórios como descorna e castração.

Assim, a realização de um “check list” pode auxiliar no controle da ocorrência do complexo doença respiratória dos bezerros. Em primeiro lugar, torna-se importante identificar os animais doentes, verificando a incidência da afecção na propriedade e isolando-os dos demais, já que eles excretam grandes quantidades de patógenos ativos, o que aumenta o risco de causar doença nos animais que compartilham a mesma instalação.

Sinais clínicos indicativos da doença costumam ser evidentes, observando-se principalmente secreção nasal, tosse e espirros frequentes, respiração ofegante, febre e isolamento dos demais animais (Figura 1). Para estes casos, recomenda-se tratar os doentes o mais cedo possível, com quimioterápicos associados ou não a antiinflamatórios, pois a demora na instituição do tratamento correto pode resultar em perdas produtivas impactantes, decorrentes do atraso de crescimento, gastos com tratamentos prolongados e morte do animal.

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Posteriormente, deve-se verificar quais fatores de risco podem estar contribuindo para a ocorrência desta afecção no rebanho, sendo elencados como os principais:

1-Fornecimento do colostro- Os bezerros precisam receber um volume de colostro correspondente a 8 a 10% de seu peso vivo, sendo  preferencialmente metade deste volume nas duas primeiras horas de vida, e o restante em até 12 horas. O colostro oferecido deve ser de alta qualidade, provindo de vacas multíparas, sadias e de primeira ordenha, o que geralmente garante alta concentração de imunoglobulinas e ampla especificidade de anticorpos para proteger os bezerros jovens contra as principais doenças que os acometem;

2- Cuidados com o umbigo: A higienização do umbigo deve ser realizada imediatamente após o nascimento, banhando o coto umbilical com iodo a  10% por um minuto, durante três dias consecutivos. O iodo é uma substância bactericida que desidrata as estruturas umbilicais, acelerando a mumificação e queda do coto e, consequentemente, a perda do contato do meio externo (ambiente) com a região intra-abdominal do animal. Ressalta-se que o uso de repelentes não cumpre esta função, não devendo ser usado como única medida higiênica.

3-Adotar boas práticas de alimentação: manter regularidade no fornecimento de leite ou substitutos, respeitando-se principalmente horários, métodos de fornecimento (mamadeira ou balde), volume e temperatura. Para animais acima de 2 semanas de idade recomenda-se iniciar a introdução de volumosos e concentrado palatáveis. Todo o tipo de alimento destinado aos bezerros deve ser de boa qualidade e em quantidade suficiente para atender às exigências, já que o não respeito desta prática favorece a ocorrência de doenças, como diarreias, que reduzem a atividade imunológica do animal.

4-Cuidado com as instalações: Adequar temperatura, umidade, sombra e sistemas de ventilação (podendo ser o uso de janelas, exaustores e ou ventiladores). A remoção de dejetos das instalações, evitando umidade excessiva e gases tóxicos, e evitar superlotação são medidas que devem ser sempre respeitadas para  reduzir os desafios infecciosos excessivos e o estresse físico.

5-Evitar manejo estressante: Especialmente durante os 45 aos 90 dias de vida dos bezerros, deve-se evitar práticas consideradas desconfortáveis ou dolorosas, pois o estresse físico causado debilita o sistema imunológico dos bezerros em um momento no qual a possibilidade dos animais desenvolverem a doença é grande.

6-Vacinas: Existem vacinas comerciais contra os principais vírus e bactérias que causam o complexo doença respiratória dos bovinos, sendo indicados quando há surtos da doença. Porém, a vacinação isolada  não substitui as medidas de controle supracitadas.

Em virtude das perdas econômicas que o complexo respiratório dos bovinos acarreta, investir nas medidas de controle de risco contra a doença é essencial para  uma  maior rentabilidade do rebanho, devendo-se dar maior ênfase à fase compreendida entre o nascimento até a maturação do sistema imune dos bovinos, atingida aproximadamente aos 5 meses de idade.