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Reprodução, Sanidade

Doenças silenciosas nas propriedades leiteiras: Tricomonose Genital Bovina e Campilobacteriose Genital Bovina

A eficiência e a rentabilidade das propriedades leiteiras são ameaçadas por duas doenças frequentemente ocultas: a Tricomonose Genital Bovina e a Campilobacteriose Genital Bovina.

Doenças silenciosas nas propriedades leiteiras: Tricomonose Genital Bovina e Campilobacteriose Genital Bovina

A eficiência reprodutiva é essencial para garantir a rentabilidade nos sistemas de produção animal. Comumente, a presença de doenças infecciosas pode interferir nessa eficiência. Duas enfermidades infectocontagiosas de destaque, porém muitas vezes subdiagnosticadas e pouco discutidas no campo, são a Tricomonose Genital Bovina (TGB) e a Campilobacteriose Genital Bovina (CGB).

A TGB é causada pelo protozoário Tritrichomonas foetus, enquanto a CGB, anteriormente conhecida como vibriose bovina, é causada pelas subespécies de Campylobacter fetus: C. fetus subsp. venerealis e C. fetus subsp. fetus. Ambos os agentes têm como habitat o trato genital de bovinos, machos e fêmeas, sem causar infecção sistêmica.

Essas doenças, sendo sexualmente transmissíveis, resultam principalmente em retorno ao cio com intervalos aumentados e irregulares, além de infertilidade ou subfertilidade nas fêmeas bovinas, enquanto os machos permanecem assintomáticos. A disseminação ocorre principalmente durante a monta natural, onde os machos assintomáticos cobrem diversas fêmeas.

A utilização da inseminação artificial (IA) emerge como medida preventiva eficaz para evitar a aquisição e disseminação dessas doenças no rebanho. No entanto, apenas 20,81% das propriedades brasileiras adotam essa prática. Mesmo em fazendas que utilizam IA, o risco de infecção persiste quando touros de repasse ou sêmen sem controle sanitário são utilizados.

Tanto a TGB quanto a CGB compartilham formas de transmissão e sinais clínicos semelhantes. O aumento da idade à primeira cria, o aumento do intervalo entre partos, as altas taxas de retorno ao cio e, indiretamente, a redução do número de bezerras nascidas e da produção de leite podem ser associados a essas doenças. A ausência de controle zootécnico do rebanho dificulta a detecção das doenças.

Apesar de diagnosticadas no país desde a metade do século passado, a prevalência atual da TGB e CGB no Brasil permanece incerta. O desconhecimento por parte dos produtores e a falta de diagnóstico nos rebanhos contribuem para essa lacuna. No entanto, acredita-se que ambas estejam presentes em todos os estados da federação, embora subdiagnosticadas. O diagnóstico é importante para confirmar a presença e identificar os agentes etiológicos, possibilitando o início do controle e erradicação dessas doenças que afetam os rebanhos.

A UTILIZAÇÃO DA INSEMINAÇÃO ARTIFICIAL (IA) EMERGE COMO MEDIDA PREVENTIVA EFICAZ PARA EVITAR A AQUISIÇÃO E DISSEMINAÇÃO DESSAS DOENÇAS NO REBANHO 

Formas de transmissão 

A principal via de introdução da TGB e da CGB nos rebanhos é a aquisição de animais infectados. A transmissão desses patógenos ocorre principalmente durante a monta natural, mas também pode ocorrer por meio de fômites ou sêmen contaminados. Touros reprodutores mais velhos são mais propensos à disseminação das doenças devido às suas glândulas prepuciais mais profundas e em maior número, o que favorece a permanência dos microrganismos.

Propriedades que adotam a monta natural e mantêm um grande número de touros em relação ao de vacas apresentam risco aumentado de disseminação da TGB e CGB no rebanho.

Nas propriedades em que a opção é pela IA, existe a possibilidade de controlar e erradicar essas doenças; no entanto, o uso de partidas de sêmen coletadas sem controle sanitário eleva o risco de introdução e persistência da TGB e da CGB no rebanho.

PROPRIEDADES QUE ADOTAM A MONTA NATURAL E MANTÊM UM GRANDE NÚMERO DE TOUROS EM RELAÇÃO AO DE VACAS APRESENTAM RISCO AUMENTADO DE DISSEMINAÇÃO DA TGB E CGB NO REBANHO



Outra via de transmissão e disseminação dessas doenças ocorre por meio de utensílios utilizados na IA, como pipetas reutilizáveis, materiais para a coleta de sêmen, como vaginas artificiais, e equipamentos empregados em exames ginecológicos, como espéculos e pinças, que não foram devidamente desinfetados.

Em rebanhos cuja estratégia de manejo reprodutivo é a IA, porém, em situações de insucesso, optam por touros de repasse para as fêmeas não prenhes, é preciso ter cautela. Se esses touros estiverem infectados, existe o risco de manter e disseminar T. foetus e C. fetus no rebanho.

As fêmeas podem ser portadoras transitórias de T. foetus e C. fetus. Isso significa que, parte delas, quando infectadas, podem eliminar esses microrganismos se mantidas sem reinfecção, ou seja, sem serem cobertas, por três a seis cios consecutivos. No entanto, algumas delas podem apresentar persistência assintomática de ambos os microrganismos no trato reprodutivo, podendo infectar os touros mesmo após o descanso sexual.

OS SINAIS CLÍNICOS DA TGB E CGB SÃO OBSERVADOS APENAS NAS FÊMEAS, SENDO O PRINCIPAL DELES A REPETIÇÃO DE CIO EM INTERVALOS IRREGULARES E AUMENTADOS

Sinais clínicos

Um grande desafio na detecção dessas doenças é que os machos são assintomáticos, persistentemente infectados e não apresentam nenhuma lesão ou alteração de libido.

Os sinais clínicos da TGB e CGB são observados apenas nas fêmeas sendo o principal deles a repetição de cio em intervalos irregulares e aumentados. Em propriedades onde se observa baixa taxa de concepção e as fêmeas manifestam o comportamento de cio em período irregular, maior que 21 dias, a principal suspeita é de TGB ou CGB. Isso decorre do fato que tanto T. foetus quanto o C. fetus interferem na manutenção da gestação nas primeiras semanas, levando à morte embrionária e ao retorno do cio.

Outro ponto a se observar são vacas que não emprenham após várias tentativas de IA ou de monta natural. TGB e CGB, em algumas vacas, podem se manifestar por infertilidade temporária, e em casos mais graves podem levar à infertilidade permanente do animal. Na TGB pode ser observado corrimento vaginal purulento em decorrência de quadro de piometra causada pelo T. foetus.

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 A piometra é caracterizada pela presença de substância purulenta ou mucopurulenta no útero, acompanhada de cervix fechada e distensão uterina. Essa condição ocorre normalmente no pós-parto; contudo, no caso de infecção por T. foetus, manifesta-se após a cobertura da vaca.

Apesar de não ser a manifestação clínica mais frequente, TGB e CGB podem causar aborto por volta do 4° ao 5° mês de gestação. Outros sinais clínicos que podem ser observados em ambas as doenças são a retenção de placenta e o nascimento de bezerros fracos.


Como diagnosticar?

Um grande aliado para identificar as manifestações da TGB e da CGB nos animais é o controle zootécnico. Por meio dele, é possível identificar os animais que apresentam alterações reprodutivas e direcioná-los para a realização de diagnóstico etiológico específico.

Tanto a TGB quanto a CGB são doenças subdiagnosticadas nos rebanhos. Para suspeitar e detectar precocemente essas doenças é preciso ter um bom registro zootécnico para avaliar o desempenho reprodutivo dos animais. Os pontos principais a serem observados são:

a) Alta taxa de retorno ao cio em intervalo aumentado e irregular;

b) Aumento do intervalo entre partos;

c) Aumento do período de serviço;

d) Aumento no número de coberturas;

e) Redução da taxa de concepção;

f) Baixa taxa de natalidade.

Observar os sinais clínicos também auxilia no direcionamento do diagnóstico.

Caso haja suspeita da presença dos patógenos em propriedades que utilizam touros na reprodução ou possuam touros de repasse, todos os animais devem ter material coletado para diagnóstico, uma vez que são assintomáticos e os principais disseminadores da doença no rebanho. No caso das fêmeas que apresentarem os sinais clínicos, pode-se coletar material para diagnóstico, mas a confirmação da infecção nos touros é suficiente para iniciar o controle da TGB e CGB.

Antes de realizar a coleta de material para análise, é fundamental entrar em contato com o laboratório responsável pelo diagnóstico para obter as orientações sobre a coleta e envio das amostras. Se necessário, é preciso adquirir o meio de transporte adequado para cada patógeno. O material a ser coletado para o diagnóstico das duas doenças é o mesmo; as diferenças podem ocorrer nos meios de transporte, no acondicionamento e no processamento das amostras (Figura 1).


Coleta de material para diagnóstico de TGB e CGB.



Nos machos, é necessário coletar esmegma (secreção acumulada ao redor do pênis) após repouso sexual de 7 a 15 dias, realizando três coletas com o mesmo intervalo. O repouso sexual é importante para concentrar o microrganismo na secreção coletada, aumentando a sensibilidade do diagnóstico. A coleta pode ser feita por lavado prepucial, raspagem, aspiração ou swab de pênis ou prepúcio.

Nas fêmeas, a coleta de muco cervicovaginal deve ser realizada quando o animal não estiver no cio, pois o aumento da quantidade de muco pode diminuir a concentração dos patógenos, interferindo na sensibilidade do teste. A coleta de muco pode ser feita por swab, pipeta ou tampão vaginal.

Quando a opção diagnóstica for o isolamento e a identificação do agente, o material coletado deve ser inoculado em meio de transporte e enviado ao laboratório o mais rápido possível à temperatura ambiente, protegido da luz. Nem T. foetus nem C. fetus resistem por muito tempo fora do trato reprodutivo.

Nos casos em que a técnica diagnóstica a ser solicitada for a reação em cadeia da polimerase (PCR) ou a imunofluorescência direta (IFD), o material deve ser enviado ao laboratório a 4°C.

Vale ressaltar que o diagnóstico da TGB e CGB é baseado na identificação dos agentes, e não por sorologia. A coleta, acondicionamento e transporte do material coletado para o diagnóstico das duas doenças devem ser feitos corretamente, caso contrário, podem ocorrer resultados falso-negativos.


Tratamento, controle e profilaxia

Geralmente, quando aplicado, opta-se por realizar o tratamento nos machos, dado que estão em menor número no rebanho. No caso da CGB, o tratamento envolve aplicações local e parenteral, utilizando a diidroestreptomicina como base. Já para a TGB, é recomendado o uso de derivados de imidazol, embora não haja nenhuma base registrada no país para esse fim, e existam altas taxas de resistência ao metronidazol. Para ambas as doenças, é necessário que os touros tratados apresentem três resultados negativos consecutivos em seus exames. Entre cada teste, deve haver um período de repouso sexual. Apenas após essa sequência é que eles podem ser considerados curados.

Quanto às fêmeas, normalmente não se faz o tratamento, visto que estão em maior número na propriedade. Além disso, o repouso sexual por três a seis cios auxilia na redução de animais infectados. Contudo, é fundamental ressaltar que o repouso sexual das vacas contribui para o controle, mas não resulta na erradicação das doenças. No caso da CGB, destaca-se que a vacinação é uma medida altamente eficaz para o controle e erradicação da doença.

As principais medidas a serem adotadas no controle e profilaxia da TGB e CGB estão organizadas na Tabela 1.



Conclusão

De maneira geral, TGB e CGB são duas doenças que geralmente ocorrem de forma silenciosa nos rebanhos e são responsáveis por vários prejuízos econômicos nas propriedades leiteiras. Ambas as doenças têm nos machos seus principais agentes disseminadores, são de difícil diagnóstico e causam, principalmente, repetição irregular de cios, aumento do intervalo entre partos e aumento do período e do número de serviço, devido às perdas embrionárias.

Agradecimentos

Os autores agradecem ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPq e à Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – CAPES pelas bolsas concedidas, bem como à Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado de Minas Gerais – FAPEMIG, processo RED-00132-22, pelo apoio financeiro.



KELLY MARA GOMES GODOY - Mestranda do Programa de Pós-graduação em Ciência Animal da Escola de Veterinária Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG)

ELAINE MARIA SELES DORNELES - Professora Adjunta do Departamento de Medicina Veterinária Universidade Federal de Lavras (UFLA)

ANDREY PEREIRA LAGE - Professor Titular do Departamento de Medicina Veterinária Preventiva da Escola de Veterinária Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG)


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