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Clínica do Leite

Impacto da capacitação de agentes de coleta na qualidade da amostragem

Impacto da capacitação de agentes de coleta na qualidade da amostragem

Texto: Laerte Dagher Cassoli

Recentemente, realizamos aqui na Clínica do Leite o que chamamos de “dia da bermuda” ou também conhecido como dia da “arrumação”, ou “faxina”. Neste dia, todos vieram para o trabalho com o objetivo de colocar tudo em ordem nos armários, descartar documentos ou itens não mais utilizados. Ao iniciar a arrumação em meu armário, encontrei uma caixa com o primeiro material de treinamento de transportadores de leite, sobre como coletar amostras, que realizei em setembro de 2003, ou seja, há quase 10 anos. Naquela época, não era tão comum os “projetores” e “notebooks” e tudo era feito com as famosas “transparências” que eram projetadas numa parede com o uso do retroprojetor. Não tive coragem de descartar estas transparências que ficarão guardadas como lembrança deste primeiro treinamento e um marco na história da Clínica do Leite.

O fato de me deparar com este material me fez refletir sobre todo o trabalho de treinamento que fizemos ao longo destes anos e como ele tem evoluído e gerado bons resultados. Somado a isso, em fevereiro deste ano tivemos um interessante artigo publicado no site MilkPoint, escrito pelo Wagner Beskow com o título “Transportador de leite: o elo esquecido (Parte 1 e 2)”. Neste artigo, foram expostos como nunca, a fragilidade deste elo da cadeia, as suas dificuldades e limitações. Certamente, o artigo foi o pioneiro em abordar o tema “transportador de leite”.

Em função disso, achei que seria interessante abordarmos aqui, qual a importância destes profissionais quando falamos de Instrução normativa 51 (agora 62) e pagamento por qualidade. Todos sabem que tanto a IN62 quanto um programa de pagamento por qualidade têm, em sua base, um programa de amostragem (coleta de amostras) que irá gerar as informações acerca da qualidade do leite. Se não tivermos um trabalho bem feito nesta etapa, todo o restante ficará comprometido. Além disso, também gostaria de compartilhar as ações positivas que estão sendo realizadas visando a capacitação destes profissionais e os resultados alcançados. Apesar de todas as limitações que eventualmente este elo da cadeia enfrenta, vamos olhar o outro lado e valorizar as iniciativas de sucesso. Desejo a todos uma boa leitura.

 

A amostragem do leite

A Instrução Normativa 51, publicada em 2002 e que entrou em vigor em 2005, estabeleceu os novos parâmetros de avaliação da qualidade do leite (gordura, proteína, CCS e CBT) e seus limites aceitáveis. Para isso, foi estabelecido que toda indústria deveria coletar pelo menos uma amostra de leite de cada produtor e encaminhar para análise num laboratório da RBQL (Rede Brasileira de Controle de Qualidade). Com base nos resultados podemos dizer, então, se um determinado leite está atendendo os requisitos legais. Paralelamente à IN-51, algumas indústrias também iniciaram seus programas de valorização da qualidade nos quais são coletadas de 2 a 5 amostras por mês de cada produtor e, com base nos resultados de qualidade do leite, define-se o valor do litro de leite a ser pago. Na média, podemos dizer que cerca de 20% do valor final do leite é em função da sua qualidade.

Fica evidente a importância que esta amostra tem, tanto para dizer se o produtor atende também à atual IN-62, como para definir qual será o valor do litro do seu leite dentro de um programa de pagamento por qualidade. A amostragem do leite é, portanto, um dos pontos críticos do processo e merece atenção especial. Outro ponto importante que deve ser considerado é que, na grande maioria dos casos, o transportador de leite é o profissional responsável pela tarefa de coleta destas amostras.

 

Como monitorar a coleta de amostras ?

Dentro do procedimento de coleta de amostras existem várias etapas importantes, mas uma delas podemos considerar crítica que é a homogeneização do leite antes de se efetuar a coleta. Em função da diferença de densidade, a gordura sempre se acumula na camada superior do tanque, levando consigo as células somáticas e bactérias, conforme ilustrado na Figura 1. Portanto, se uma amostra for retirada sem a correta homogeneização, não teremos resultados confiáveis.

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Uma maneira de monitorarmos a qualidade da amostragem é através do resultado de gordura. Uma determinada fazenda possui um valor médio de gordura que pode variar em função de alguns fatores como a nutrição, genética, clima, entre outros, mas esta variação sempre ocorrerá dentro de uma faixa “aceitável”. Na figura 2, temos o exemplo de uma fazenda em que algumas amostras apresentaram resultados não muito comuns para gordura, o que indica uma homogeneização insuficiente do leite.

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Para facilitar esta análise, desenvolvemos em nosso software relatórios nos quais exibimos todos os produtores cujo resultado de gordura está fora do “normal” (Figura 3). Com base nestas informações dos relatórios, calculamos o que chamamos de “taxa de possíveis falhas de coleta”, ou seja, a cada 100 amostras coletadas, avaliamos quantas apresentam resultado de gordura fora do “normal” e, entre estas, identificamos quais podem indicar homogeneização insuficiente. Este é um indicador fundamental para as indústrias identificarem áreas de oportunidade e monitorarem a eficiência do processo.

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Capacitação de agentes de coleta

Como mencionamos no início, na grande maioria dos casos, os transportadores de leite são os responsáveis por efetuar a coleta das amostras para o atendimento à IN-62 e/ou para pagamento por qualidade.

Portanto, desde a publicação da IN-51, em 2002, sentimos a necessidade de desenvolver um programa de educação continuada para estes profissionais e, para isso, o primeiro treinamento na própria indústria foi realizado  em 2003, conforme mencionado acima. Desde então, cada vez mais indústrias passaram a ver também a necessidade de treinamento e capacitação de sua equipe de transportadores.

O programa de treinamento sofreu alterações e melhorias em seu desenvolvimento ao longo destes 10 anos de experiência e, em 2009, foi lançado um novo programa de educação continuada de capacitação de agentes de coleta (PEC-Agente de Coleta).

Este programa prevê a visita anual de um técnico da Clínica do Leite à indústria com o objetivo de reunir todos os transportadores para a realização de um treinamento teórico de cerca de duas horas. Todo o material didático apresentado nas visitas foi cuidadosamente desenvolvido e adaptado ao público com uma linguagem simples, direta e que mostra claramente ao transportador a importância do seu trabalho e como executar uma coleta eficiente. Durante o treinamento, também é obrigatória a participação dos responsáveis pela área de captação da indústria e também há incentivo da participação da alta direção (gerente, diretores, presidentes). Após conclusão do treinamento, aplica-se uma avaliação de conhecimento (prova) com o intuito de verificar se o conteúdo transmitido foi de fato assimilado e compreendido. Aqueles que são aprovados, recebem o que chamamos de CHAC (Carteira de Habilitação de Agente de Coleta) uma evidência de que ele foi treinado e conhece perfeitamente o procedimento a ser seguido. A CHAC é utilizada em forma de crachá, como mostra a Figura 4 durante o período de amostragem e tem validade de 12 meses.

Figura 4.jpg (711 KB)

É impressionante como estes profissionais se sentem valorizados com a CHAC e o orgulho que eles têm ao exibi-la. Os produtores, por sua vez, também têm valorizado esta iniciativa e, em muitos casos, até proíbem a coleta de amostras se o transportador não possuir a CHAC. Isso gera um ciclo virtuoso de responsabilidade e reconhecimento.

Como parte do PEC-Agente de coleta, criou-se também a figura do “Instrutor Local”. Este instrutor é a pessoa responsável por treinar os novos profissionais que são contratados ao longo do ano e que não participaram do treinamento anual feito pelo técnico. Para isso, as indústrias que possuem maiores demanda e fluxo de transportadores indicam os candidatos a instrutores que serão direcionados ao treinamento de um dia na Clínica do Leite em Piracicaba/SP. Assim como os transportadores, recebem os ensinamentos teórico e prático e, dependendo do desempenho obtido na avaliação, podem ou não receber o que chamamos de CHIL (Carteira de Habilitação de Instrutor Local). Todo transportador contratado pela indústria é treinado pelo Instrutor Local e, ao ser aprovado na avaliação, recebe a CHAC com denominação de “provisória”. Após participar do treinamento anual feito pelo técnico da Clínica, recebe a CHAC definitiva com validade para mais 12 meses.

Em 2012, por exemplo, foram realizados 129 treinamentos em 119 indústrias pela nossa equipe de técnicos da Clínica do Leite, sendo treinados 1.446 transportadores. Também foram realizados 75 treinamentos admissionais pelos Instrutores Locais com credenciamento de 154 transportadores. Ou seja, em 2012 foram treinados 1.600 transportadores através do projeto.

Mas qual o impacto deste trabalho de capacitação?

Certamente esta é a pergunta que temos de fazer. Será que todo este esforço de 10 anos de trabalho, tanto da Clínica do Leite quanto das indústrias tem trazido resultados? Um bom indicador para analisarmos é exatamente a “taxa de possíveis de falhas de coleta” que nos dá uma boa ideia de como o procedimento de amostragem vem sendo executado por estes profissionais.

O gráfico 1 mostra este indicador, comparando amostras das empresas que participam do PEC-Agente de Coleta com as que não aderiram ao programa. Pode-se observar que nas indústrias onde não houve  treinamento, a taxa de falha de coleta é duas vezes maior.

Captura de tela 2016-09-15 a?s 10.22.22.png (22 KB)

Se analisarmos também o grupo de indústrias que participam do PEC e que também possuem um programa de pagamento por qualidade, a taxa é ainda mais baixa, quase 4 vezes menor do que a apresentada pelas indústrias que não participaram do treinamento. Isso reforça a ideia de que nestes casos, por existir um programa de pagamento por qualidade, a responsabilidade do transportador e a expectativa dos produtores são ainda maiores, o que é muito bom para a melhoria de todo o processo.

Além disso, é comum nas indústrias que já participam do treinamento desde 2003, encontrarmos taxas de falha de coleta abaixo de 1% ao longo de todo o ano, um resultado excelente.

Sabe-se que o treinamento é um dos principais componentes para que se alcance um bom resultado, pois através dele se define “o que” e “como” o trabalho deve ser feito. Por outro lado, é fundamental o monitoramento e a gestão do processo por parte da indústria, para que os resultados obtidos através do trabalho sejam analisados e, caso problemas sejam detectados, medidas corretivas sejam implantadas. Como exemplo, através de indicadores como a  taxa de falhas de coleta, o gestor poderá identificar se existe algum problema e o que precisa ser melhorado.

Você, leitor, poderia estar pensando: Mas por que não automatizar a coleta de amostras e aí esquecemos de tudo isso? A automação sem dúvida alguma é uma opção que irá reduzir muitos riscos, porém possui um alto custo, o que a torna praticamente inviável atualmente no Brasil. Com o tempo, a automação será implantada cada vez mais nas indústrias, mas enquanto isso, milhares e milhares de amostras serão coletadas por estes profissionais e bilhões de reais serão pagos aos produtores com base nos resultados de qualidade. Então, até que ela esteja 100% presente, temos de buscar a melhoria dos processos, valorizando os profissionais, através de capacitação e gerenciamento.

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